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10 de set de 2014

O preconceito nosso de cada dia

Vivemos numa época em que a pior coisa que te pode acontecer é ser tachado de preconceituoso. Usamos de todo tipo de subterfúgio e explicação para não aceitar a alcunha. Há casos óbvios demais, quase risíveis, como o da torcedora do Grêmio, que mesmo tendo sido filmada aos gritos chamando o goleiro do Santos de "macaco" conseguiu achar cara pra dizer aos prantos que não era racista. É óbvio que ela é racista. E é óbvio que todos somos preconceituosos.

Claro que há níveis e níveis de preconceito, e tipos e tipos também. Mas é virtualmente impossível uma pessoa não ter preconceito algum. O preconceito se baseia na sua experiência anterior de vida, naquilo com que vc já se acostumou, naquilo que te ensinaram e que vc ainda não foi convidado pela vida a questionar, e que, portanto, ainda é o que é válido. Preconceito é quando vc faz um julgamento de valor sobre algo ou alguém não baseado nas qualidades daquele algo ou alguém, mas sim em informações que vc já traz anteriormente. É como quem diz que não é gordofóbico, só acha que gordo não é saudável, não é preconceito, é questão de saúde. Sem saber se aquele gordo é saudável ou não, feliz ou não, vc apenas acha que se a obesidade é uma epidemia, deve ser banida da face da terra e todo mundo tem que ser magro.

Mas o curioso mesmo é quando chegamos nesse grupo de pessoas de onde tiro meus amigos, essas pessoas esclarecidas que não são gordofóbicos, homofóbicas, não são racistas, não se prendem a velhos modelos sociais, são feministas, não acham que casar e ter filhos é obrigatório. Pessoas como eu. Essas pessoas são as mais sensíveis a serem tachadas de preconceituosas. Mas nós somos, sim. Quantos de nós não fazem(os) julgamentos de valor com aquela mulher que sonha em casar e que vira dona de casa, que para de trabalhar pra cuidar dos filhos, e ainda assim contrata babá? Não a conhecemos, não sabemos os motivos dela, não sabemos se ela é boa mãe, mas na maioria das vezes nossa primeira reação é julgar negativamente. Uma garota magra, gostosa, de roupa de academia, cabelo liso com mechas loiras é alvo de tantos pré-julgamentos negativos quanto eu, gorda, flácida, sedentária. Só que somos alvos de grupos diferentes de pessoas. Alvos, talvez, uma da outra. Eu julgo que ela fez todas as escolhas erradas na vida. Ela julga que eu sou um nojo, feia, e que eu deveria ficar em casa até perder setenta quilos.

Ou não. Talvez ela não julgue. Talvez ela tenha me achado bonita e simpática ali na rua. Talvez ela nem tenha parado pra ter um pensamento a meu respeito. Porque colocar pensamentos na cabeça da garota tb é julgá-la. Escrever uma história e meio que automaticamente só colocar as personagens bonitas e gostosas como meio burras e do lado antagonista da história é preconceito. "Catarina" me ensinou a dar valor real à garota mais gostosa da escola. Ela também pode ser a mocinha do livro.

Preconceito religioso, algo que tem sido muito debatido. Nesse grupo de pessoas a que pertenço, preconceito contra ateus é uma constante. Preconceito contra as religiões afro está se tornando um problema nacional. Mas e o preconceito de ateus contra católicos? E de todo mundo contra evangélicos? Vai dizer que vc não tem, de cara, um preconceitozinho contra alguém que segue a Universal?

Dentro do mundo nerd, geralmente composto de uma horda de gente que sofreu todo tipo de bullying, o preconceito grassa, com destaque para o machismo. Mas também encontramos homofobia e até gordofobia vinda de um monte de gordos, que não se aceitam de verdade e, na hora que uma garota gorda faz um cosplay, eles acham um horror.

O preconceito não é só contra pessoas, mas contra hábitos e coisas. Preconceito contra vegetarianismo e contra carnivorismo, ou contra essa história de começar a se preocupar com o que come, fulano deixou de beber, de comer MacDonalds e tomar refrigerante, que mané, virou um chato! Preconceito contra andar de ônibus sem nunca ter andado, preconceito contra exercício físico, sem nunca ter tentado fazer (só pra manter a minha fama de sedentário, odeio mesmo e pronto). Tudo isso eu não só já vi, como muitas dessas coisas eu já senti. E hoje acho que o melhor modo de tentar ter menos preconceitos é admitir que os tem.

p.s.: A ideia deste post me veio quando tive que explicar a uma amiga muito querida e muito não-preconceituosa que, na minha opinião, a rejeição dela ao ebook era um tipo de preconceito porque achava que não era causada por características do próprio ebook, mas porque ela amava muito o livro de papel. Será que sentia como se fosse uma traição a toda a história de amor que tinha com o papel? Como se não coubesse dentro dela gostar de outro formato? O medo do novo, a recusa de experimentar são tipos de preconceito também, um pré-julgamento de que o velho, aquilo a que vc já está habituado, é melhor pra vc, mesmo sem ter dado uma chance real ao novo na sua vida. E eu já senti esse tipo de preconceito muitas e muitas vezes, por exemplo contra publicar em ebook, durante muito tempo. Hoje eu gosto. Ah, e também parei de tomar de refrigerante há um ano, e não sinto falta. :)

2 comentários:

  1. Verdade, todos temos algum tipo de preconceito. Quando vc mencionou o preconceito até mesmo ao hábito alimentar de outra pessoa, me lembrei de um desabafo desesperado de uma mulher no face dias atrás, que não estava conseguindo um bolo vegano a tempo da festinha da filha dela, que seria no dia seguinte. Pensei: " Ah, pelamor né? Tanta confeitaria ótima por aí, uma festa de criança, caramba, vai morrer por encomendar um bolo com leite e ovos ao menos pro aniversário da filha??? Frescura de quem não tem problema na vida e tá a fim de caçar um" kkkkk, lembro que fiquei com uma raiva do desespero dela... Como se ela não tivesse o direito de fazer questão do tal bolo vegano pra filha dela...

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  2. Ah, meus conceitos, preconceitos, julgamentos que faço do mundo, tão arraigados que explicam mais sobre mim, muito mais do que eu suspeito...Odradek

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