Páginas

19 de out de 2012

Avenida: a mania do Brasil

Enfim me resolvi a escrever um post sobre Avenida Brasil. Mentira. Não é sobre a melhor novela do século, mas sobre a novela que se desenrola em cima da novela.

Acho que já discorri sobre este tema umas duzentas vezes, mas não me canso de bradar (escrevendo, que a voz já não pode) contra o patrulhamento cultural que grassa hoje nas redes sociais (antes pelo boca-a-boca, quando era menos eficaz e menos aborrecido).

Lembrete 1: sei que isso pode ser duro para muitas pessoas, mas não ver novela não faz de você uma pessoa mais inteligente. Dito isto, sigamos.

Novelas existem muitas. Algumas péssimas, muitas razoáveis, várias boas e poucas excepcionais. Não é preciso ser muito esperto para perceber que estamos diante de uma novela excepcional. Poderia discutir o que faz uma novela excepcional: autor, elenco, direção. Mas vcs já sabem de tudo isso, pipocaram artigos, posts, reportagens sobre Avenida Brasil, carinhosamente chamada de #oioioi. O que me interessa aqui, no que diz respeito a uma novela excepcional, é a excepcional onda que ela forma, é o público de novela multiplicado excepcionalmente, é a montanha de reações simultâneas nas redes sociais, botecos, salões de cabeleireiro. É seu efeito excepcional na galera.

Lembrete 2: cultura produzida para poucos não é necessariamente melhor.

Salta-me aos olhos, daqui do meio desta alegre turba de brasileiros rendidos à sua mais popular forma de dramaturgia, um grupo de brasileiros com cara fechada, ofendidos com a empolgação dos fãs de Avenida Brasil, torcendo pra que esta merda de populacho acabe logo e o país possa voltar à sua habitual erudição, quando toca Villa-Lobos nas ruas e todos dançam valsas vienenses e discutem Barthes e Benjamin nos aniversários da sua família. Esse grupo é aparentado daquele outro grupo que torce pro Brasil ser eliminado na Copa do Mundo pra ver se as pessoas mudam de assunto. Alegria de populacho ofende, porque populacho é maioria e fala alto.

Eu sou noveleira pra cacete, daquelas que vê na internet o pedaço da novela que perdeu, que fica gastando banda em Paris pra ver vídeo de Avenida Brasil, que , se der, vê Vale a Pena Ver de Novo, Malhação, novela das seis, das sete (menos preferidas) e das nove. Gosto de ficção, novela, romance. Por esse mesmo gosto, leio Balzac, Shakespeare, Pessoa, Wodehouse, Leroux, Molière, Sartre, mas prefiro Camus, Dostoiévski, mas prefiro Tolstói. Leio mais de 20 livros por ano, e acho um horror de pouco. Não estou me gabando. Só queria que algumas pessoas pensassem que culturas nunca deveriam ser excludentes. Uma mesma pessoa pode gostar de ler Paulo Coelho e Eric Hobsbawm. Isso existe.

Lembrete 3: unanimidades podem ser burras, mas se vc tem como princípio que as maiorias estão sempre erradas, você é um babaca.

Não acho que todo mundo tem que gostar de novela, nem de Paulo Coelho. Mas acho, pessoalmente, um pouco pobre quem acho belo e bonito desmerecer produtos culturais nacionais de tão grande sucesso, tipo dizer que Paulo Coelho não é literatura. Que novela não é cultura. Que pagode não é música. Existe qualidade e existe gosto, mas, por favor, entendam que isso são conceitos PESSOAIS, e não absolutos. Alguém aí duvida que Shakespeare, Molière e Balzac eram os autores de novela de seus tempos e países? Dramas, comédias, paixões. A gente vê por aqui, na Globo, na Record, no SBT (ai que saudade d'As Pupilas do Senhor Reitor!), nos palcos do Globe e de Versailles, agora ou centenas de anos atrás.

Deixe de lado seu complexo de vira-lata, de achar que o que faz sucesso no Brasil é sempre porcaria porque brasileiro é burro. Porque, como dizia o filósofo, se brasileiro é burro, e você é brasileiro, logo, você é burro. E eu também. ;)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

tá com você!