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27 de dez de 2012

Onírico 3 - parte 4/6


A chegada em Murmansk foi caótica. Depois de trocar de aeronave no aeroporto de Moscou eles já imaginavam que sair na rua no que agora já era provavelmente o último dia antes do fim do mundo (só a viagem lhes comera um dia inteiro) não seria tarefa fácil. Os guichês de aluguel de carro e de táxis estavam às moscas, pessoas corriam, funcionários das companhias aéreas choravam atrás dos balcões, atendendo os que fugiam. Quando eles mesmos abandonariam tudo aquilo? Quem poria os fugitivos dentro de aviões? Quanto tempo até que leigos pusessem as mãos em todo tipo de veículo aéreo e se acreditassem capazes de voar, em meio a uma nuvem mundial de aviões de todos os portes e bandeiras, voando todos na mesma direção, o leste?
Enquanto essas perguntas passavam pela sua cabeça, Elisa percebeu que Peter tinha sumido. Nem chegou a temer que ele não fosse voltar, só queria que ele voltasse logo. E voltou. Peter apareceu na calçada em frente ao aeroporto estacionando um carro grande.
- O mais difícil foi escolher um. - dizia, enquanto tentava acomodar a todos dentro do utilitário. - Os carros estão largados no estacionamento, a maioria com a chave dentro, sem estacionar.
- Você roubou um carro?? - Carlos, o cunhado de Elisa, era o único que tinha mala, e Peter acabara de abri-la no chão, sob protestos, e procurava dinheiro, comida e roupas quentes. Elisa o mandou calar a boca. Sempre quisera fazer isso.
No telefone com Masha, Elisa dava instruções confusas a Peter, que tivera a lucidez de roubar um carro com GPS, o que ajudava um pouco.
- Quebrei três vidros de outros SUVs até achar um com GPS. O alfabeto tá me quebrando as pernas, mas as setas eu entendo. - falava, fazendo uma conversão proibida e desviando de alguns carros que, segundo indicava o GPS, estavam na contra-mão. Se Peter pudesse, estaria ele próprio na contra-mão, caso houvesse caminho melhor. Mas não sabia como programar um GPS para circunstâncias de fim do mundo.
Masha informara que o submarino já teria sido deslocado da base militar na véspera, antes do estouro da boiada, conforme combinado entre seu pai e um velho amigo da Marinha que ainda estava na ativa e que pretendia fazer algo semelhante com um veículo mais novo, em melhor estado porém menor, e já todo completo com sua família.
Peter parou o carro diante do portão de ferro da entrada de serviço do clube náutico indicado por Masha. Podiam ver uma movimentação atrás dos portões e Elisa se perguntou de quantas vagas ainda dispunha o submarino naquele momento. Outros amigos de Masha poderiam ter vindo de muito mais perto, parentes morariam na mesma cidade, ela sabia tão pouco sobre a russa! E se ela tivesse uma família enorme?
Peter mal desligara o carro, já estava escancarando o portão, enquanto Luciana e a mãe tiravam do carro a senhora idosa, com aspecto muito cansado. Elisa passou pelo portão puxando Peter pela mão, em direção a um pequeno grupo de pessoas em frente à marina que se avistava no fim do caminho de piso de madeira que rangia debaixo das seis pessoas que agora se apressavam sobre ele.
Pela atitude, era fácil identificar Masha. Falava alto, em inglês, e também em russo, e gesticulava em direção ao submarino cinza-chumbo que jazia na água. Ela era alta, loura, tinha os cabelos presos e não era muito bonita, mas transmitia calma e decisão, e não desespero. Seus gestos eram firmes e seu tom de voz impunha ordem. O homem de meia-idade perto dela, de barba grisalha e roupa grossa e pesada de viagem devia ser seu pai. Ele deixava a filha falar.
- Masha. - Elisa tocou em seu ombro.
Masha se virou.
- Elisa? - a brasileira confirmou com apenas um movimento da cabeça. O grupo começou a gritar protestos diante da chegada de mais gente, de um grupo de estrangeiros. Masha sobrepôs sua ordem de silêncio acima de todos. A partir dali só falou inglês.
- Só temos ainda dez vagas. - falou para Elisa, mas alto o suficiente para que todas as pessoas que ainda aguardavam entendessem. E então baixou o tom de voz - Lá dentro já temos 20 pessoas, entre marinheiros, duas enfermeiras, alguns amigos e parentes.
- Isso não é justo! - um homem gritou. - Ela colocou gente lá dentro que não tem utilidade alguma! Uma adolescente! Eu vi uma adolescente entrar.
- É minha irmã. - Masha falou alto, sem se alterar.
O tumulto ameaçava recomeçar, quando Peter subiu numa caixa de madeira e gritou.
- O critério é dela! Masha decide!
Masha agradeceu com o olhar, que deixou transparecer, por um segundo, o peso da responsabilidade sobre a vida e a morte, algo que era demais para uma moça que não devia ter muito mais de 25 anos.
- Meu pai vai entrar, é ele quem pilota. Mas precisa de par.
- Minha mãe... - Elisa começou.
Masha girou a cabeça levemente.
- Sua mãe é velha demais. Não pode nem ter filhos.
Elisa prosseguiu com frio no estômago sem deixar transparecer sua inquietude.
- Minha mãe é médica.
Masha pensou por alguns segundos.
- Não temos um médico a bordo ainda. Quantos anos ela tem?
A mãe de Elisa não compreendia inglês com perfeição, mas sabia que estavam decidindo sua vida.
- Só vou se minha mãe puder ir. - interviu, em português, com a voz trêmula.
- Você cale a sua boca, Ana Maria. - ralhou a avó. - Você vai entrar nesse negócio se lhe deixarem ir, nem que eu tenha que lhe empurrar.
- Ela tem 47 anos. - Elisa respondeu. A mãe calou-se.
- Especialidade?
- Cirurgia geral.
- Perfeito. Ela entra com meu pai. - a russa se decidiu.
Peter puxou a senhora pela mão, pondo-a mais perto do submarino. Não havia ainda um “setor de selecionados”, mas pareceu que Peter decidira criá-lo ali mesmo. Se Ana Maria ia gostar da ideia de fazer par com um marinheiro russo, pouco importava. A vaga já lhe pertencia.
- Masha, e estas pessoas que estão esperando? - Elisa perguntou, com a voz baixa.
- Alguns são funcionários do clube, outros são vizinhos, pessoas que não conheço. Mas já fiz uma pré-seleção, eles só iriam embarcar se você não chegasse a tempo. Não preciso de telefonistas, secretárias, manicures e garçons. - acrescentou.
O coração de Elisa deu um salto, ao pensar em Peter. Se preocupara tanto em convencer Masha a levar sua mãe que não pensara nele. Nem em si própria. Como passaria pelo critério?
- Devemos sair daqui a duas horas. Papai já fez e refez os cálculos. - Masha continuava. Seu inglês era bonito e com pouco sotaque - É o melhor modo de aproveitar ao máximo as reservas de combustível e ar dentro do submarino pelo maior tempo possível, por isso vamos esperar até que as ondas já estejam sobre as Américas.
Elisa pensou em todas as pessoas que conhecera sendo engolfadas pela água inclemente. Tentou imaginar o cenário de molhado deserto que ressurgiria depois da sequência de ondas gigantes que deveria exterminar a humanidade. E não conseguiu.
Na internet, vira um pouco mais cedo que já não chamavam de “ondas gigantes”, termo gasto com tsunamis anteriores que não se comparariam ao que era esperado. Chamavam-nas de “ondas colossais”.
- E você, Elisa?
A pergunta de Masha acordou Elisa do sonho.
- Hum? - perguntou, achando que já sabia o que a russa queria saber.
- O que você faz?
- Gastronomia. - respondeu na bucha, sem pensar, sabendo que seu trunfo era fraquíssimo - Cheguei a começar a trabalhar numa cozinha de restaurante.
Fez-se um silêncio tenso, no qual Masha parecia querer achar que era de alguma valia uma jovem especializando-se em cozinha dentro de um submarino ou num novo mundo destruído.
- Fiz um curso de aproveitamento de alimentos também! - Elisa acrescentou, sentindo pena de si mesma - Cascas e talos, essas coisas...
Masha demonstrou um pouco de interesse contido.
- Espera! - interpelou Luciana pela primeira vez. - Ela tem um hobby!
Elisa quis beijar a irmã.
- Sim! Carpintaria! - seu coração estava acelerado.
Masha sorriu.
- Você está dentro. Vai cozinhar no submarino. E fazer móveis... depois. - e acrescentou mais baixo - Se houver depois.
O alívio de Elisa era imenso, mas não completo. Não podia advogar por Peter. Mal o conhecia.
- E seu parceiro?
Peter estendeu a Masha uma folha de papel dobrada que acabara de tirar de sua mochila vermelha.
- Já trabalhei como motorista, eletricista, bombeiro hidráulico e mecânico. Tenho curso técnico de mecânica e de hidráulica.
Elisa olhou pra ele impressionada.
- Excelente. - Masha devolveu aberto o certificado do curso técnico - Ninguém até agora tinha se dado ao trabalho de comprovar. - comentou, rindo.
Peter voltou-se para olhar o rosto iluminado de Elisa.
- O restaurante pagava melhor que a oficina do meu vizinho. Muito melhor. - esclareceu, passando o braço pelos ombros dela e trazendo-a para junto da mãe.
- Eu vou com meu primo. - falou Masha.
Um rapaz enorme saiu do meio do grupo, onde conversava com alguém, e, aceitando a criação do “setor dos selecionados” de Peter, posicionou-se próximo à embarcação. Alto, cabelos escuros bem curtos, musculoso, não passou pela cabeça de Elisa perguntar nem mesmo a si própria o que ele poderia oferecer a essa pequena comunidade que tentava sobreviver. Sua força física parecia óbvia e suficiente.
Ninguém pensou em indagar a Masha qual a função dela. Elisa, por acaso, sabia que Masha era química. E mesmo que fosse decoradora. Ela tocava aquela banda. O resto acompanhava, se pudesse.
- E nós? - perguntou um homem de cerca de 30 anos, que segurava com força a mão de uma mulher talvez um pouco mais nova. Eles estavam nas margens do grupo e ainda não tinham feito nenhuma reclamação. Aguardavam com a paciência de quem sabia que tinha chances.
- Sim, podem vir. - Masha assentiu, fazendo um gesto. Elisa não fez perguntas.
- Ainda tenho duas vagas. - disse, olhando para Elisa e em seguida para Luciana.
- Sou professora de crianças. - Luciana disse, baixinho. - Ensino matemática.
- Pode ser. - Masha balançava a cabeça - E seu marido? - apontou para Carlos, que suava.
- Ele é advogado, consultor de empresas. - respondeu, sem confiança.
- Não. - Masha foi taxativa. - Tem um rapaz ali no meio que já foi pedreiro. - os olhos de Luciana se enchiam d’água.
- Vá. - disse Carlos, sem espaço para argumentação. Luciana sacudia a cabeça, querendo dizer que não - Vá, não só por você, vá por nós. Eu estarei junto com você. - e pôs a mão na barriga de Luciana.
- Você está grávida?? - Elisa perguntou em português - Você tá mesmo grávida? Ou é...
- Eu estou, juro! - A irmã tinha lágrimas escorrendo pelas faces - Eu ia contar naquela noite, no restaurante, quando estávamos com papai. Você acha que ela vai me deixar ir assim mesmo?
- Deixar você ir?? Você tá brincando?
Elisa nem piscou.
- Masha, - retomou a lingua franca - Minha irmã está grávida.
- Que ótimo!! - Masha exultou - Dois a bordo no espaço de um. A professora de matemática está mais do que dentro.
- Você não pode me tirar o pai do meu filho. - Luciana murmurou, chorando muito.
- Querida, você não pode decidir em nome de todos. Ela tem razão. - Carlos estava absolutamente calmo.
Um rapaz se levantou do meio do agora muito pequeno grupo. Usava uma roupa clara e fresca, mesmo no que Elisa considerava um puta frio. Em russo, e com muita educação, ele pediu a palavra e disse umas duas ou três frases. Logo em seguida, e sem aguardar resposta, o rapaz de roupas claras foi embora com o semblante impassível. Masha respirou fundo.
- Ele abriu mão do lugar dele para você. - disse ela, olhando para Carlos. - Você deverá aprender a erguer paredes.
- Sim, eu aprendo! - Carlos apressou-se em dizer. Logo em seguida, sua testa vincou-se de compreensão - Mas o rapaz então vai... - fez menção de ir atrás do pedreiro altruísta.
- Não vá. Não o faça pensar duas vezes. - Peter o segurava com a mão no ombro.
- Ele se chama Ivan. - Masha disse. Carlos assentiu, como se entendesse algo.
O grupo estava completo. E Elisa sabia o que isso significava. Segurando firme a bola que só crescia dentro da sua garganta, caminhou até os bancos cimentados à direita da aglomeração de pessoas, e foi seguida pelo seu pequeno grupo agora a salvo. Sua mãe e sua irmã choravam.
- Estou tão feliz. - disse a avó - E tão orgulhosa de você, querida. Você conseguiu, salvou a todos.
- Todos não, vó. Faltou a senhora.
- Que foi que eu lhe disse, Elisa?
- Eu sei, vó. - Elisa não ia discutir, não ia fazer escândalo. Queria ser salva, e sabia que estava no lucro - Vou pensar sempre na senhora, vó. Até o fim.
- Até depois do fim, filha. Vocês estarão seguros, vão sobreviver. Tenho certeza.
E ela sorria com toda tranquilidade. A mãe e a irmã de Elisa a abraçaram, e Elisa virou para Masha, com lágrimas nos olhos.
- Masha...
- Elisa, não posso.
- Eu sei. Mas alguém poderia... ficar com ela, levá-la pra algum lugar, não deixá-la sozinha?
Masha queria ajudar, mas não sabia como. Uma senhora de uns 50 e poucos anos se aproximou e falou com Masha em russo.
- Esta senhora trabalha em um hospital. Perto de lá existe um abrigo antibomba. Ela acha que pode conseguir.
- Vó, a senhora quer ir?
- Eu preferia uma igreja. - ela disse, sorrindo - Mas vou. Posso rezar por vocês em qualquer lugar.
A avó abraçou Elisa com mais força do que achava que possuía. Então a senhora russa lhe deu o braço e tirou do bolso do casaco um terço roxo, colocando-o na mão da avó. Elisa sorriu, e as duas se foram.
Entre os não selecionados houve todo tipo de reação, do choro convulso à revolta, mas a maior parte das pessoas simplesmente saiu dali com pressa. O instinto de sobrevivência empurrava-os na busca de outra solução, ainda que não houvesse. Ficar parado não era opção.
O pai de Masha não falava inglês e organizava sua tripulação silenciosamente em fila para entrarmos no submarino. Por um tempo ninguém dizia nada. Elisa olhava para todos os rostos, pensando se havia chance, e se houvesse... O que colonizariam? Que humanidade resultaria daquela gente? Marinheiro, enfermeira, professora, mecânico, militar. Brasileiros e russos comunicando-se em inglês. Começou a imaginar o que teria dentro de cada bolsa e mochila.
Masha reuniu todos dentro do compartimento maior.
- Elisa, você vai pra cozinha, e quem mais souber cozinhar vá com ela, no máximo quatro pessoas, não cabe mais que isso e não quero tumulto. Peter, para a ponte, com meu pai. Os marinheiros também. O resto fica aqui comigo. Deixem todas as bolsas aqui. Vamos separar o que é útil.
Elisa e Peter se entreolharam.
- Trouxemos livros. - ela falou, receosa.
- Claro que você trouxe. - Masha sorriu - Você se surpreenderá ao ver quantos livros aparecerão do meio destas bolsas.
Elisa sentiu um estranho aperto ao se separar de Peter. Não se conheciam nem há 48 horas.
- Estamos dentro. Você nos salvou.
- O seu diploma é que salvou você. E Masha.
- Você me salvou. - ele disse mais uma vez, e a beijou - Vai dar tudo certo.
- Ou não.
Ele sorriu.
- É. Ou não.
As próximas horas foram frenéticas, mas espantosamente organizadas. Preparavam comida na cozinha, Masha havia enchido a despensa do submarino, e arrumaram as provisões que todos haviam trazido. Quando sentiram o submarino começar a se movimentar lentamente, as quatro pessoas se olharam, conhecidos e estranhos, e sem perceber se deram as mãos dentro da apertada cozinha. Uma mulher rezou, Elisa chorou lembrando da avó e a irmã de Masha a abraçou. Logo o momento passou. Era preciso pensar no futuro curto que tinham. Em algumas horas aquela solução passaria pelo teste definitivo. O fim do mundo.

***

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