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9 de mai de 2014

Um assunto que é um parto

"E tu já tens uma doula?"

Eu ouvi isso de uma amiga ainda no primeiro trimestre de gravidez e me perguntei se isso já tinha se tornado obrigatório...

Sim, eu sabia o que é uma doula. Mas qualquer pessoa que me conheça o mínimo saberia que eu não escolheria ter bebê em casa, numa banheira, piscina, ou nada semelhante. Eu quero hospital, que tenha uti neonatal e adulta. Eu quero um profissional em quem eu confie. Eu sou alopata, eu quero anestesia.

O fato é que há "causas" que se tornam modas, e isso é um perigo. Redes sociais contribuem enormemente para isso. É verdade que a quantidade de cesarianas injustificadas no Brasil é preocupante. É ainda mais verdade que o caso da Adelir é um ultraje,e que é preciso gritar contra a violência obstétrica.

Porém...

Eu acredito que a mulher é dona do seu corpo. Sou a favor da descriminalização do aborto. Acho, portanto, que a mulher tem o direito de decidir como vai parir (NÃO ME DIGAM QUE EU NÃO PARI PQ FIZ CESARIANA, pra mim eu pari, e foda-se). E não deve ser julgada por isso, da mesma forma como não deve ser julgada pelo que veste ou pra quem ela resolve dar a buceta. O corpo é dela.

Mas a causa do parto natural está na moda. E ativistas sabem ser intransigentes, e como! Há logo muitas que julgam fracas e burras mulheres que preferem cesarianas. A gravidez é um momento de vulnerabilidade, também. Não é justo que se pressione uma mulher grávida a entrar em conflito com o médico que acompanha seu pré-natal e que fará seu parto, mas é o que se faz. Existe essa pressão. Se um médico diz, por causa disso, disso e disso, que a cesariana é mais segura pra vc e pro seu bebê, eu, como leiga, vou discutir como? Com base em quê?

Confiei na minha médica desde o princípio. Ela sempre foi honesta, franca, e confiei na competência dela. Não me arrependo. Tudo correu muito bem na minha cesariana. O bebê tinha duas circulares de cordão, e além disso seria difícil usar o fórceps em mim caso a necessidade aparecesse durante o parto, pois por causa da obesidade eu tenho menos espaço de manobra. E mais: eu perdi um monte de líquido, e no final já tinha mecônio. Cesariana foi a opção melhor na opinião da profissional que me acompanhou durante toda a gestação. A minha opção foi a de confiar nela. E os resultados foram ótimos.

Adianta que venham me dizer agora que "ah, mas dava pra ter sido normal, isso não é motivo" e bla bla bla? Sinceramente, o que uma pessoa que me diz isso esperava que eu fizesse? Ali, perdendo líquido,sem dilatação, ficasse batendo boca com médico? O que eu sempre me pergunto é: o que essas pessoas esperam que a grávida faça? Discorde do médico na hora H? Ou mantenha um conflito com ele durante toda a gravidez?

Meu ponto é: a campanha está sendo feito no público errado. O problema não está nas mães, mas nos médicos. Se há técnicas no mundo para, por exemplo, fazer parto normal até de criança sentada,em pé, do avesso, mas se essas técnicas sequer são ensinadas aqui nas faculdades de medicina no Brasil (eu soube disso lendo algum artigo, não me lembro onde), quem é a mulher maluca que vai dizer pro seu médico: "não, doutor, mas é possível fazer esse parto normal, faça aí!", mesmo que ele nunca tenha feito isso?? Tá doida? Eu quero que ele faça em mim algo que ele sabe fazer!! Então é na formação e na orientação dos profissionais que precisam focar pra reduzir o número de cesáreas injustificadas. Na remuneração justa dos planos de saúde também (15 anos sem reajuste pra parto, gente!! quem vai querer ficar horas esperando menino nascer pra ganhar o mesmo que ganhava no século passado, podendo fazer o mesmo em 40 minutos? não que isso justifique, mas é a realidade!). Não basta informar as gestantes se os profissionais forem ficando todos em desacordo com suas pacientes. Isso só gera estresse nesse período delicado da vida da mulher.

Amiga que defende o parto natural, vc tem todo o direito de escolher como parir. Eu também. Se minha escolha difere da sua, eu não estou errada, não sou fraca nem burra. Eu sou diferente de você. Isso sim é liberdade e respeito.

6 comentários:

  1. Obrigada por dizer tudo o que sinto! Tanto a Juliana quanto a Vanessa atrasaram. Na cesárea da Ju eu fui fazendo acompanhamento até a data limite, quando fui para o hospital. Sem dilatação, contração, nada. Só soube o que era dor de contração quando a Vanessa estava para nascer. Ela também estava atrasada, mas me socou tanto que tive uma ruptura na parte de cima da bolsa. No hospital, romperam o resto e tentaram induzir o parto normal, mas depois de horas a minha dilatação novamente era nenhuma e lá fui eu para a mesa da cesárea. Morrendo de medo daquela agulha da anestesia que tinha doído tanto quando tomei na gravidez da Ju. Mas sabendo que não podia ficar falando depois do parto para não morrer de dor depois, hahaha. Não me sinto menos mãe por ter duas cesáreas. Beijão, querida!

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    1. e não nos digam que não parimos, né Luciana?? pois parimos, sim!

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  2. sou mais uma do time "pari de cesárea e sou mãe, sim senhor"; aliás, duas vezes. Concordo com você, Bruna, cada caso é único e cabe ao médico e aos pais decidirem o que é melhor para a mãe e a criança. E seu ponto é bem válido, boa parte dessas cesáreas desnecessárias no Brasil são por conta da comodidade e/ou do despreparo dos médicos e/ou da falta de reajuste para PN; não tinha pensado nisso, mas faz todo o sentido.
    Quanto ao parto normal e natural, acho lindo mesmo, mas tem casos em que simplesmente não é possível.
    E Feliz Dia das Mães para todas nós!

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    1. Cris, parto em casa não é muito minha praia, mas eu adoraria ter feito parto normal. Mas tb não me incomodei, não. Não deu, ok. E minha recuperação está sendo bem boa.

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  3. Bruna, com todo respeito, vc entendeu td errado...

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  4. que foi que eu entendi errado, Dani? "tudo" é muita coisa...

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tá com você!