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5 de mai de 2015

parto real: o que teve

Eu até já falei de parto por aqui, e quis falar de novo já muitas vezes, mas me abstive. Não tava a fim de criar polêmicas. Mas meu filho fez um ano semana passada, e no dia seguinte à festinha dele nasceu a fofíssima Charlotte Elizabeth Diana, Sua Alteza Real a Princesa de Cambridge. Ninguém deu a mínima para Carlotinha Beth, a pequena Princesa Di. Todos os olhos se voltaram para Kate, que, maravilhésima, estava de pé (e no salto) poucas horas depois de parir. E dali simplesmente foi pra casa. Olha a ousadia dessa cunhã! O que teve? Teve muito recalque, teve viagem pesada, gente duvidando da data real do parto, duvidando da própria gravidez, as pessoas são muito doidas, né? Olha, eu achei tudo ótimo. Se Kate teve parto normal, já é o segundo filho, ela está bem de saúde e a bebê também e não lhe falta assistência em casa, Kate, minha filha, go home! Vá ser bonita assim lá em Kensington que é seu lugar, com seus dois filhotes e seu príncipe loiro, alto e careca.

Mas aí, como era de se esperar, a belíssima e irretocável experiência maternal de Kate começou imediatamente a ser usada como exemplo e como material de campanha para humanização do parto no Brasil. Muito natural que assim seja, só que eu tenho minhas ressalvas ao modo como essa campanha anda sendo conduzida, pelo menos aqui na internet. E às vezes esses bons exemplos são usados como uma forma de esfregar na cara de mães que fizeram cesáreas que elas são menos corajosas, ou menos mães. São, sim. Eu já vi (ninguém me contou) um álbum de fotos de celebridades que tinham feito partos normais e as legendas e comentários seguiam mais ou menos na linha "teve parto normal = mulher guerreira!". Tinha até os absurdos de dizer assim: fulana de tal, 3 filhos, 2 partos. Ah, um dos filhos foi chocado. Não foi parto, não. Hehe. Basicamente o que se via era JULGAMENTO JULGAMENTO JULGAMENTO.

No Brasil tem cesárea DEMAIS. Sim, tem. Esse comportamento deve mudar. Sim, deve! O parto normal é que deve ser o padrão, e a cesárea a exceção. Quem deveria saber orientar? MÉDICOS, PORRA. É evidente que a informação para a mãe é importantíssima, mas e o profissional? Sinceramente, não tenho visto muitos profissionais envolvidos nessa discussão. Daí vc cria um abismo. Mães que estão conhecendo outras realidades, outros partos, outros costumes, e que ou ficam absolutamente frustradas porque, no decorrer de sua gestação, percebem que não encontram estrutura pra ter um parto tão legal quanto o da Duquesa de Cambridge ou que vão lutar ferrenhamente contra médicos ao longo de toda uma gestação (testando, tentando), não conseguindo confiar em nenhum e talvez até insistirão pra ter um tipo de parto que nem seria recomendável para elas. Porque não é também que todo mundo pode parir em casa, e a informação que corre assim, em internet, não é suficiente, gente. Cria, sim, uma ilusão, um quadro fantasioso demais. É verdade que o parto é algo muito natural, sim, é. É verdade também que antes de séculos de evolução da medicina muitas parturientes e bebês morriam. Não dá pra demonizar o acompanhamento médico. Portanto é absolutamente necessário que a medicina acompanhe a humanização do parto, senão não vai servir PRA NADA. Está servindo pra criar frustrações, guerras entre mães, julgamentos e uma falta de empatia entre mulheres que é uma tristeza de se ver!

A mulher que faz cesárea não pode ser julgada ignorante, preguiçosa, medrosa, manipulada. Vc não julga uma mulher pelo que ela veste, não a julgue pelo parto. Vc quer garantir à mulher o direito de decisão sobre seu corpo, então dê-lhe igualmente o direito de escolher seu parto, inclusive se for cesárea. Vc quer garantir o direito à amamentação em qualquer local, dê a ela tb o direito de preferir dar mamadeira. NÃO JULGUE. Vc quer ajudar? Converse. Informe, até, mas se ela quiser. Ninguém tem que ser convertido a nada, isso não é religião. Esse tipo de ativismo simplesmente não pode ser agressivo, ou o resultado é o contrário. Tenho visto mães que fizeram cesáreas já tão cansadas de serem julgadas que estão quase se tornando ativistas... da cesárea! Elas não querem ser roubadas da experiência de maternidade que tiveram, como se fosse menor, desonrosa, e estão certas nisso!! É cruel pra caralho vc diminuir o valor da experiência de vida das pessoas, ainda mais um momento como esse! Aí aquela mulher viveu aquele parto, aquele momento que pra ela foi tão mágico, e depois ouve tantas coisas que fica achando "poxa, nem foi tão legal assim... podia ter sido daquele jeito... o parto de fulana foi mais legal...", e a alegria daquela mãe vai desinflando feito um balão furado. Quer saber? Isso é cruel.

Vamos tratar esse assunto como ele merece ser tratado. Com carinho, com cuidado, com empatia, sem julgamento. O caminho é longo, e não é uma guerra. A medicina fez muito pelas mulheres, pelas mães, pelas crianças. Pré-natal, vacinas, exames que detectam cedinho problemas que podem resultar em bebês prematuros e subdesenvolvidos, mas que se cuidados a tempo terão o melhor dos desfechos (foi o meu caso). Alienar a medicina do processo da gestação é irresponsável. Sim, gravidez não é doença, mas se a medicina só servisse na doença ninguém tomava vacina, nem fazia exames preventivos no ginecologista todo ano, né?

Digo, e repito. Menos julgamento. Mais carinho. Menos verdades absolutas. Mais empatia. Mais acolhimento. E sempre muito mais SORORIDADE.

Feliz Dia das Mães!

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