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26 de dez de 2010

The Adventure of the blue carbuncle - Sherlock Holmes: O carbúnculo (o rubi) azul


"Meu nome é Sherlock Holmes, 
e é meu dever saber o que os outros não sabem."
(O carbúnculo azul, in As Aventuras de Sherlock Holmes vol. 2 - 
Um escândalo na Boêmia. Círculo do Livro)
É uma história favorita, que se passa quase inteiramente no dia 27 de dezembro e tem uma temática meio natalina.

Eu adoro essa história. Primeiro porque ela começa de modo tão inusitado, com um porteiro de hotel - Peterson - que aparece no 221B da rua Baker com um chapéu e um ganso abatido nas mãos que foram largados por um desconhecido Henry Baker numa rua qualquer. Holmes aconselha Peterson a levar o ganso pra casa e comê-lo, e fica com o chapéu.

E a segunda razão para gostar dessa história é que, a partir do chapéu, Holmes faz aquilo que faz melhor: ele deduz. Faz uma brilhante sequência dedutiva a respeito do proprietário da peça sem nunca tê-lo visto, a qual, claro, se confirmará mais tarde.

       - Então diga-me o que você pode deduzir desse chapéu...
       Holmes segurou-o e olhou- o daquele modo introspectivo que lhe era tão peculiar.
       - Sugere menos do que se poderia esperar; contudo, há algumas coisas muito claras, e outas que nos dão apenas alguns indícios. O homem é um intelectual, é mais do que evidente; acha-se atualmente em péssimas condições de vida, o que acontece de uns três anos para cá, pois antes disso vivia bem. Anteriormente, era cuidadoso, mas seu cuidado diminuiu de uns tempos para cá, o que é sinal evidente de decadência moral, a qual aliada ao declínio de seus bens, deve ter sido causada por alguma influência perniciosa, talvez a bebida, e essa pode ser a razão por que a mulher deixou de cuidar dele e talvez  já não o ame.
        - Meu caro Holmes!


Como sempre, podemos esperar que, após a explicação dos detalhes do chapéu que conduziram Holmes a cada uma das conclusões, o espanto de Watson se transforme em complacência, né? "Oh, é claro, é muito simples", dirá ele, ou algo semelhante. Sei, sei... 

O que não passava de uma distração matutina entre amigos torna-se um caso importante quando Peterson irrompe novamente no 221B tendo nas mãos uma pedra que fora roubada recentemente da Condessa de Morcar: o carbúnculo azul. Estava dentro do papo do ganso! E aí começa a brincadeira de verdade...

A grande sacada é que, pra chegar no ladrão, eles têm de refazer o caminho ao contrário. Do papo do ganso até o momento do roubo. É divertido!

Resolvi aproveitar o Natal e o carbúnculo azul para comentar a série The Adventures of Sherlock Holmes da Granada Television, que começou meio fraca, mas foi melhorando ao longo dos episódios, e o sétimo da primeira temporada, que corresponde a este de que vos falo, é bem legal. Nos papéis principais de Holmes e Watson temos Jeremy Brett e David Burke. É um bom Sherlock Holmes, acho que até conta com aquele toque afeminado na medida certa, porém a elegância máscula do cinismo também está presente (no entanto as lutas são muito mal coreografadas, senhor!). Ainda estou em busca da excelência no Dr. Watson*. Acho esse fraco. : (

Ponto fraco da série: direção e produção. Não mantêm um ritmo cativante, que prenda o telespectador. Ponto forte da série: fidelidade ao texto de Conan Doyle.

Pude comprovar isso assistindo ao episódio The Blue Carbuncle. Fiquei acompanhando com o original em inglês na Wikisource, e, gente, é fidelíssimo!! Os diálogos, tudo, uma lindeza! As lindas tiradas de Holmes, e na minha opinião, esse é o segundo melhor episódio da primeira temporada dessa série  (só perde para The Speckled Band), até em termos de produção. Vão ao detalhe de tentar reproduzir as cenas como nas ilustrações originais do The Strand!! Luxo!

Eu tenho adoração pelas ilustrações originais do The Strand, vejam só a cena clássica do estudo do chapéu:



E agora na série televisiva da Granada:


Meu povo, fiquei passada e engomada. Que coisa leeeeenda. Parece que o homem criou vida e saiu das amassadas páginas do periódico The Strand! Emocionante! Chuif... :`}

As necessárias adaptações são feitas, e uma sequência inicial é acrescentada ao episódio, explicando o roubo da joia antes de ela ser encontrada no papo do ganso pelo porteiro, mas achei bem feitinho, porque não "spoila" muito. Ah, a data também é transferida do dia 27 pro dia 24 de dezembro, pra acrescentar um clima mas natalino, fazendo mesmo como se fosse o Natal do Sherlock Holmes, mas ficou bom, pra justificar a surpreendente atitude dele no final.



Sem spoilar vocês, tem uma coisa do final que eu achei bem legal. Uma frase que foi usada idêntica ao texto original ("Afinal de contas, Watson, não sou empregado da polícia para suprir suas deficiências."), mas que, no livro, tem entonação leve e despreocupada e, na telinha, Brett carregou num drama que encaixou no momento. Aprovei! ;)

O vídeo abaixo é maior do que eu gostaria, mas pode matar a curiosidade de vocês.


A cena do estudo do chapéu começa a ficar bacana lá pelo minuto 7:10, mas a parte que eu citei em itálico acima está no minuto 8:46.


* Pensando bem, acho que o John Watson do Martin Freeman ("Sherlock", BBC) é o que mais me agrada porque guarda uma característica essencial do personagem: ele é fascinado pela habilidade de Sherlock Holmes. Não se pode travestir essa idolatria de desprezo, dê outro jeito de tornar uma série televisiva interessante. Um médico não iria se dar ao trabalho de contar as aventuras do melhor amigo detetive se não ficasse embasbacado com sua capacidade dedutiva.

2 comentários:

  1. Muito legal sua postura. Só acho engraçado porque insistem em colocar o Watson como tendo meia-idade. O Doyle dá algumas pistas de que ele era jovem quando conheceu Holmes.

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  2. Legal que vc gostou. :)

    Também não entendo essa mania, mas já vi mais de uma vez. Talvez pq ele seja o cara ponderado, mais família, o responsável, o bigode dá aquele arzinho mais velho tb. Mas o fato é que não me recordo de nada que indique uma diferença de idade entre eles.

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