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19 de dez de 2010

Clube da Esquina e outras mineirices musicais

Há dez anos, graças ao Emerson, comecei minhas incursões na mineiridade (e ele no paraensismo), o que inclui nos carros-chefe comida (minha sogra faz por onde) e música. Aí tem uma parada que me fascina: o Clube da Esquina.

Rapaziada, o Clube da Esquina é ou não é a galera mais emaconhada da MPB? Eu acho uma gracinha, sem hebismos. Sexta ganhei num amigo invisível (secreto, oculto, enfim, regionalismos à parte) daqueles de surpresa mesmo, sorteio na hora, o cd "Miltons Minas e Mais", do Emmerson Nogueira. Quais as chances de alguém levar pruma festa um presente unissex, te sortear e te dar um cd de um cara que vc gosta tanto a ponto de ter quatro cds do cabra, mas não ter justo aquele? E era de música mineira.

Eu tenho um outro cd de galera coletaneando música mineira, é do Roupa Nova, que eu amo também, é o "Ouro de Minas", que é ótemo, aquele estilão vozes do Roupa Nova, e com convidados. Os dois cds, enfim, são excelentes, estilos diferentes, recomendo ambos. Duas canções se repetem apenas: Fé Cega, Faca Amolada; Nada Será Como Antes. Ryca esta música mineira, hein? Achei que ia repetir mais. Que nada!

Daí que fiquei, domingo de manhã, ouvindo a voz agradável e os bons arranjos do Emmerson Nogueira na companhia agradabilíssima e insuperável do Emerson Santana Pardo e continuei a desenvolver toda uma teoria meio canalha - sem nenhuma base válida! - sobre música mineira. Vai mais ou menos assim (desliguem suas cronologias, fazfavô). Eu vou botar toda a mineirada na esquina e pronto.

Numa Esquina com E maiúsculo, um plácido rapaz negro de boné fazia música. Ele viu que era boa. Ok, todo mundo via que era boa. Seu penteado era um pouco esquisito, mas a música e a voz compensavam. O penteado foi perdoado, e o boné cobria. Ele se chamava Milton.

Aí tinha o Beto. O Beto morava numa colônia hipponga chamada Lumiar, e fez um jingle pra chamar a galera emaconhada pra ir pra lá comer, jantar, farrear, caçar sapo, contar causo, acordar, levantar e fazer café pra curar a ressaca da cachaça mineira que rolava na Esquina, que a esta altura já era um buteco, como toda esquina de Beagá tem que ser.

Lô era um caso à parte. Jogava RPG até altas madrugadas, estava convencido de que era um cavaleiro marginal lavado em ribeirão, que viveu mistérios, cavaleiro negro, senhor de casa e árvore (ecologia já tava na moda e tals). Lô era caso grave, tinha visões com igrejas, sinais de glória, muros brancos, voos pássaros, grades e sinais. Provavelmente o cigarrinho do demo era brincadeira de criança pra ele. Corria à boca pequena na Esquina que ele já tava com a Lucy no "Séu" entre Diamantes. Falava de todas essas paradas, dos homens sórdidos, das cores mórbidas, mas ninguém escutava nem queria acreditar. Por pouco não foi internado, coitado.

Flávio era romântico. Tinha futuro na doidice com Linda Juventude, aquela parada de zabelê-zumbi-besouro-vespa fabricando mel (abelha não cabia na rima, pô) era bem esquinosa. Mas quando ele me apareceu na Esquina com aquela rasgação pela dançarina de flamenco que lhe apresentou a espanhola, rapá, foi uma zoação. Um tal de "Flávio, vai te criar, toma uma cachaça, vai virá macho, 'se for chorar, te amo?'" Sempre assim. Amigo arruma mulher, os outros dão pinote.

Milton olhava tudo de cima (levantando um pouco a aba do boné, senão lhe cortava meia visão), jogando bola de meia, bola de gude, porque tinha uma certa magia, uma força que alertava a rapaziada. Não perguntava onde ia dar a estrada, e deu que uma molecada doida numa bola chegou na Esquina, não se sabe muito bem se na base das #dorgas, mas talvez àquela altura já nem precisasse pois no sangue corria a falta de juízo necessária para a produção de música-mineira-esquineira. De cara havia coveiros gemendo e realejos ancestrais jurando, o que apenas prenunciava, comandante capitão tio brother camarada chefia amigão (por acaso essa é a folha de pagamento atual do Clube da Esquina F.C., o Buteco), que os meninos eram adeptos do clássico embebedamento mineiro. Desce maaaaaais. Desce maaaaais que aqui homem vira macaco e mulher vira freira. Milton acabou respondendo na mesmo moeda e dando-se a gravar música dos moleques e tudo. E ele viu que era bom.

Daí que eu acho que em Minas é assim. Se fizer muuuuito sentido, se você estiver muuuuuito sóbrio, ih.... não vai pegar.

Um comentário:

  1. Doidimais! :)

    Convido-a a explorar a obra musical do Milton. Na íntegra. Se ainda não o fez, irá se surpreender. Se já o fez, sabe do que estou falando. ;)

    Grande abraço,

    Madson

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