Eu amo futebol. Eu amo o Paysandu.
E ontem eu fui ver um jogo de futebol em um estádio pela primeira vez na minha vida.
Só que isso não é exatamente verdade. Meu tio é narrador (Guilherme Guerreiro, porra!) e foi com ele que eu fui a um estádio pela primeira vez. Era o Barão de Serra Negra, XV de Piracicaba e Remo, acho que era 1999. Só não risco essa experiência da minha memória por amor ao meu tio, porque estrear vendo o Remo ninguém merece. Então faz de conta que eu só fui acompanhar meu tio no trabalho dele, ok?
Aí teve aquele Brasil x Argentina no Mangueirão em 2011, Superclássico das Américas. Eu fui. Eu considero que aquilo foi minha estreia no Mangueirão. E só.
Uma amiga me perguntou agora: por que vc nunca foi ao estádio? "Vc mora aí, o seu time tá aí, achei que vc ia sempre."
Eu nunca tinha ido porque nunca ninguém me levou, pra começar. Meus pais não iam. Eu sou menina, então meus primos e tios não me chamavam pra ir. Eu fui me apaixonando por futebol sentada confortavelmente num sofá, e enquanto vc não sabe o que tá perdendo num estádio, vc não se incomoda de continuar confortável. Acabei por me acomodar. Mas no fim acabei por me incomodar. Mais do que pelo amor pelo futebol. Pelo amor pelo Paysandu. Porque se vc não é bicolor, meu amigo, vc não sabe que esse amor não se instala quieto. Ele cresce, e cresce, e sempre continua crescendo. Aí meu filho nasceu. Ele me deu muito mais coisas do que dores nas costas e sono. Ele me deu vontade de levá-lo ao estádio. Mas a primeira dívida era comigo, e eu fui. Me sentindo velha pra essa estreia, não sabendo os rituais, perdida nos caminhos, guiada por gente mais nova que eu, eu fui.
E foi a primeira vez que eu fui assistir um jogo de futebol num estádio. Era o Mangueirão, era o Paysandu. Agora sim tava tudo certo. Porque, sejamos honestos, ver jogo da seleção é outra coisa, de outra natureza, é quase outro esporte. Seleção vc vai pela festa, a coisa toda é festiva. Não tem nervosismo, não tem a intensidade daquela paixão devoradora de entranhas, suadouros, tremedeiras, raivas e melancolias. Sabe aquela pessoa que tem uma casa e aluga a casa dela para veranistas quando ela sai de férias? É isso. Ver a seleção no Mangueirão é o veranista. Ontem eram os donos da casa.
Toda a dinâmica é de outra ordem. Mesmo que algumas pessoas estejam presentes nos dois tipos de evento, são outras pessoas. A relação entre elas é outra, é outro o barro de que são feitas. Estamos transitando em outra camada de nossas vidas. É mais basal, é mais essência.
Eu não consegui assistir o jogo. Só presenciei. Eu não conseguia prestar atenção racionalmente ao jogo. Tipo "tá ruim aqui, melhore ali, fulano isso, beltrano aquilo". Os primeiros 45 minutos foram de frio na barriga o tempo inteiro. Juro, sem exagero. O tempo inteiro. Parecia que a minha vida tava se decidindo ali, um teste de compatibilidade de doação de órgão, se tudo der errado minha morte é certa.
Claro que não é. Tô bem viva aqui. O final foi melancólico, mas não houve mortes. O que houve foi futebol, com paixão e melancolia, festa e ressaca. Hino do Pará cantado pela multidão. Porque, afinal, como diz o Guerreiro, "é Pará, isso!".
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27 de ago. de 2015
29 de set. de 2011
Testemunho torcedor
Isto não é uma crítica esportiva, e às vezes até me meto a fazer uma ou outra, acho até que dou conta. Mas não hoje. Isto é um testemunho de uma experiência de torcedora.
Paraense tá habituado a engrossar caudalosos rios humanos, fazemos isso todo mês de outubro. E a poucas semanas do Círio, com o clima nazareno já se espalhando pela cidade, fomos levar nossas águas a correr rampa acima no Mangueirão. Um leito de povo de amarelo fluía constante e pacífico em direção às arquibancadas do Estádio Olímpico Edgar Proença. Do lado de fora já era um espetáculo arrepiante: era minha primeira ida ao estádio, ao Mangueirão, e estreei num jogo do Brasil. Contra a Argentina. Tinha de ser de gala.
Minha euforia surpreendia até a mim mesma. Lugares escolhidos, família instalada, eu olhava praquele estádio lotado-lotando com expressão apalermada. A galera já ensaiava gritos, mas por enquanto o clima era mais local: de um lado um empobrecido "Reeeemoooo", donde vinha a resposta, cheia de conteúdo e esperança "Vamo subir Papãããão!". Engrossei o coro da resposta com gosto! Eu não ia provocar, mas se os azulinos começam, a gente é obrigado a lembrá-los da diferença de perspectivas, né? ;P
Vaias para os argentinos que vieram se aquecer antes, vestindo tenebrosos uniformes azul marinho. Queriam agradar a quem? Aos poucos, começando pelos goleiros, a Seleção começa a se apresentar ao Manga. Só consigo imaginar que a única sensação que ultrapassaria o êxtase de estar ali deveria ser a de entrar pelo campo num estádio como aquele e ver aquele povo gritando por sua causa. Espero que pelos menos alguns jogadores tenham sentido isso naquele momento.
Pensei em puxar o grito de "Ganso! Ganso!", mas me bateu aquela timidez de estreante.
O hino era favas contadas, eu já sabia que ia chorar. Mas daquele jeito foi covardia... Minhas pernas bambearam, minhas mãos tremiam, os braços arrepiaram.
E o pacote foi completo. Não bastasse a vitória, fiz ola, gritei gol duas vezes (e não sofri nenhum!), gritei "olé!", mandei juiz tomar no cu (depois o Emerson até me disse que naquele lance o juiz tinha razão, mas eu sinto muito; eu lá podia perder a oportunidade de xingar juiz no meu primeiro jogo?), gritei "É campeão!". Tudo o que eu podia esperar de um jogo, como torcedora (talvez não como comentarista esportiva, mas eu nem sou...). Teve chapéu, teve pedaladinha do Neymar, teve Ronaldinho Gaúcho, meu maior ídolo do futebol, teve muito jogador com garra e vontade. Foi lindo. Só posso dizer que foi lindo, que foi uma das noites mais memoráveis da minha vida. Podem chamar de pão e circo, podem chamar de ópio do povo. Eu chamo de paixão. Aquilo ali é natural, aquela veneração pela camisa amarela, aquilo é real, vem de berço, de sangue, de nação.
Foi lindo.
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