sim. nós, a esquerda, estamos perplexos. porque, décadas depois do fim da ditadura militar, a direita foi novamente às ruas. parece que a ressaca da ditadura passou.
e eu que sempre achei que a direita deveria mostrar a sua cara neste país, assisti hoje um verdadeiro espetáculo de horrores. alguns amigos meus, alguns compreensivelmente indignados com erros do governo atual, ajudaram a dar número a um movimento que, por ingenuidade,inocência, ignorância, eles desejam apartidário. suprapartidário. é uma gente (sim, até esses meus amigos) que até 2013 se declarava apolítica. é uma gente cuja paixão política nasceu, ali sim, num movimento de organização espontânea, o junho de 2013. mas é sempre bom lembrar como nasceu o junho de 2013. preços das passagens de transporte público. reações violentíssimas das PMs. revolta nacional. como aquilo virou o trailer disto que vimos hoje? não faço ideia. mas eu que fui pra rua em 2013, cheguei a me arrepender quando vi, depois, os apolíticos se lambuzando de prazer infantil na rua, no processo democrático (e político!) q eu sempre amei.
o que esta direita não entendeu é que política sem partidos é chamada de ditadura. ok, alguns entenderam, e querem mesmo isso (votar dá muito trabalho, prefiro q alguém decida tudo por mim). o que a direita ainda não entendeu, também, é que ela é DIREITA. vc é contra os programas sociais? acha tudo bolsa-esmola? é a favor das privatizações? deixa eu te explicar uma coisa então: VC É DA DIREITA. ok? tá entendido isso?
beleza, continuemos.
o movimento de hoje tem interesses políticos e partidários, mesmo q vcs não queiram. fora Dilma? alguém vai entrar no lugar, e vai ser um POLÍTICO, essa raça q vcs acham q abominam. não abominam de fato, são apenas seletivos. pois durante anos vários outros escândalos já tinham vindo à tona (sim, não tantos, muita muita coisa era abafada rapidinho), e vcs não estavam assim tão indignados.
mas, confesso. vossa indignação nos estarrece. nós, da esquerda. a gente curte política. a gente frequenta a rua. a gente se lambuza de prazer também, mas geralmente nosso prazer é um sonho. é uma paixão. é um amor, uma crença, uma alegria, uma esperança. o que uniu esta gente hj na rua foi o ódio. sim. ficamos estarrecidos ao ver vcs no que sempre consideramos "nossa área". pois bem. a rua é pública, sejam bem-vindos.
mas, por favor, limpem a merda que deixaram pelo chão.
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15 de mar. de 2015
27 de out. de 2014
ouve, Dilma
não me verão gritar CHUPAAAA
não me lerão bradar VAZA PLAYBA CHEIRADOR
nada disso me alegra, nada disso me embala o coração valente
a vitória foi apertada, porque há muito pra melhorar
ouve, Dilma, ouve os votos críticos, ouve quem está à tua esquerda, ouve as ruas, recorda as Jornadas de Junho, ouve até a voz rouca da tua oposição
mas ouve, antes de tudo, teu coração valente
tua alma guerreira, tua mente de brava, tua história de luta, teu povo cheio de carinho por ti
leva meu voto, minha confiança, meu carinho, meu respeito, minha admiração
e meus olhos atentos
a tudo
porque hoje, de novo, és musa, és mãe, és presidenta, ÉS DILMA
não me lerão bradar VAZA PLAYBA CHEIRADOR
nada disso me alegra, nada disso me embala o coração valente
a vitória foi apertada, porque há muito pra melhorar
ouve, Dilma, ouve os votos críticos, ouve quem está à tua esquerda, ouve as ruas, recorda as Jornadas de Junho, ouve até a voz rouca da tua oposição
mas ouve, antes de tudo, teu coração valente
tua alma guerreira, tua mente de brava, tua história de luta, teu povo cheio de carinho por ti
leva meu voto, minha confiança, meu carinho, meu respeito, minha admiração
e meus olhos atentos
a tudo
porque hoje, de novo, és musa, és mãe, és presidenta, ÉS DILMA
28 de ago. de 2014
O eleitor desiludido que não perdoa & a política virgem concebida sem pecado
Brasileiro é chegado numa tragédia, né? Vidas sofridas, superação, mortes trágicas, gente chorando. A tv e o Facebook estão cheios disso. Mas isso é só introdução. Eu quero é chegar na Marina.
Eu gostava da Marina quando ela era ministra do Lula. Depois eu fui cada vez entendendo menos a Marina. No PV eu ainda a via comprometida com sua história, mas agora... Eu a vejo aproveitando-se da morte do Eduardo Campos, sim. É a mão de Deus que a salvou, mas não o salvou, é convite para a viúva fazer a chapa com ela... Eu a vejo confusa e sem direção, sem ideologia, sem estofo. Eu não confio no quanto ela muda de partido e aliados. Eu respeito a história dela, mas não confio nela pra governar o meu país. E nem comecei a falar nas ideias moralistas medievais que ela defende ferrenhamente por causa de sua religião. Isso é muito preocupante.
Mas o caso é que Marina tem sido vista e vendida como a tal da terceira via. Pra começar, eu acho terceira via uma piada no Brasil. Essa história de polarização é um teatrinho de fantoches, a política brasileira não está dividida entre PSDB e PT. O tamanho do PMDB é colossal, e outros como PSD, PP, PR, DEM, PDT não são nada menosprezáveis, basta ver a composição do Congresso. A ideia de polarização vem da recente alternância desses dois partidos no governo federal e a facilidade de, com isso, identificar neles alguma ideologia desenhada. Porque na maioria dos outros não se enxerga ideologia alguma, e isso é também preocupante. Vejam bem: eu considero isso um ponto a favor do PSDB. Eu entendo o que eles querem pro Brasil. Eu só não quero o mesmo que eles. Eu entendo o que o PT quer pro Brasil, e é o que eu quero. Mais do que isso, eu entendi o que o PT queria, votei no PT por querer a mesma coisa e o PT ENTREGOU O QUE EU QUERIA. Diminuiu radicalmente a desigualdade social, e continua diminuindo. E por isso eu continuo votando no PT.
Declarado meu voto, prossigo.
Não andei estudando o programa de governo da Marina. Tenho meu voto decidido e estou satisfeita com minha decisão (federal, ok? estadual tá uma bosta...). Mas tenho visto muita gente comentando a Marina, como em 2010, como a opção válida. Sabe o que me incomoda? Eu acho que muita gente aí não se pergunta POR QUE A MARINA? Vejo muita gente que declara voto na Marina porque se decepcionou com o PSDB quando esteve no governo e se decepcionou com o PT. Não está escolhendo a Marina pelo que ela quer pro país, mas está "contra tudo o que está aí". O desiludido que prefere a virgem, sabem? Ela nunca foi governo, então ainda não te decepcionou. Aquela história do "não reeleja ninguém", que é a maior preguiça que um eleitor pode ter. A busca da perfeição só é deletéria na política, pois não haverá perfeição nunca. Partidos errarão, pessoas errarão, você também. Se for votar em Marina, vote por motivos de Marina, não porque tá de mal com PT e PSDB.
(pausa)
Aí eu tava escrevendo este post e, de repente, lembrei disto e disto. De modo que o post ficou muito menor quando me dei conta de que já tinha falado deste assunto em 2010, e continuo pensando e percebendo a mesma coisa, o mesmo motivo distorcido para escolher Marina.
Com dois agravantes desta vez:
1) A morte trágica de Eduardo Campos. Então hoje, se você escolhe Marina pelos motivos errados, pode estar acrescentando aí nesse balaio de ressentimento político e ilusão uma homenagem póstuma a um bonito homem que morreu jovem e deixou cinco filhos, entre eles um bebê, e uma linda esposa mas que, no fundo, você nem conhecia direito (exceto a galera do PE) e menos ainda sabia o que ele queria pro Brasil. Que motivo mais distorcido que esse?
2) Ela pode acabar sendo eleita.
Eu gostava da Marina quando ela era ministra do Lula. Depois eu fui cada vez entendendo menos a Marina. No PV eu ainda a via comprometida com sua história, mas agora... Eu a vejo aproveitando-se da morte do Eduardo Campos, sim. É a mão de Deus que a salvou, mas não o salvou, é convite para a viúva fazer a chapa com ela... Eu a vejo confusa e sem direção, sem ideologia, sem estofo. Eu não confio no quanto ela muda de partido e aliados. Eu respeito a história dela, mas não confio nela pra governar o meu país. E nem comecei a falar nas ideias moralistas medievais que ela defende ferrenhamente por causa de sua religião. Isso é muito preocupante.
Mas o caso é que Marina tem sido vista e vendida como a tal da terceira via. Pra começar, eu acho terceira via uma piada no Brasil. Essa história de polarização é um teatrinho de fantoches, a política brasileira não está dividida entre PSDB e PT. O tamanho do PMDB é colossal, e outros como PSD, PP, PR, DEM, PDT não são nada menosprezáveis, basta ver a composição do Congresso. A ideia de polarização vem da recente alternância desses dois partidos no governo federal e a facilidade de, com isso, identificar neles alguma ideologia desenhada. Porque na maioria dos outros não se enxerga ideologia alguma, e isso é também preocupante. Vejam bem: eu considero isso um ponto a favor do PSDB. Eu entendo o que eles querem pro Brasil. Eu só não quero o mesmo que eles. Eu entendo o que o PT quer pro Brasil, e é o que eu quero. Mais do que isso, eu entendi o que o PT queria, votei no PT por querer a mesma coisa e o PT ENTREGOU O QUE EU QUERIA. Diminuiu radicalmente a desigualdade social, e continua diminuindo. E por isso eu continuo votando no PT.
Declarado meu voto, prossigo.
Não andei estudando o programa de governo da Marina. Tenho meu voto decidido e estou satisfeita com minha decisão (federal, ok? estadual tá uma bosta...). Mas tenho visto muita gente comentando a Marina, como em 2010, como a opção válida. Sabe o que me incomoda? Eu acho que muita gente aí não se pergunta POR QUE A MARINA? Vejo muita gente que declara voto na Marina porque se decepcionou com o PSDB quando esteve no governo e se decepcionou com o PT. Não está escolhendo a Marina pelo que ela quer pro país, mas está "contra tudo o que está aí". O desiludido que prefere a virgem, sabem? Ela nunca foi governo, então ainda não te decepcionou. Aquela história do "não reeleja ninguém", que é a maior preguiça que um eleitor pode ter. A busca da perfeição só é deletéria na política, pois não haverá perfeição nunca. Partidos errarão, pessoas errarão, você também. Se for votar em Marina, vote por motivos de Marina, não porque tá de mal com PT e PSDB.
(pausa)
Aí eu tava escrevendo este post e, de repente, lembrei disto e disto. De modo que o post ficou muito menor quando me dei conta de que já tinha falado deste assunto em 2010, e continuo pensando e percebendo a mesma coisa, o mesmo motivo distorcido para escolher Marina.
Com dois agravantes desta vez:
1) A morte trágica de Eduardo Campos. Então hoje, se você escolhe Marina pelos motivos errados, pode estar acrescentando aí nesse balaio de ressentimento político e ilusão uma homenagem póstuma a um bonito homem que morreu jovem e deixou cinco filhos, entre eles um bebê, e uma linda esposa mas que, no fundo, você nem conhecia direito (exceto a galera do PE) e menos ainda sabia o que ele queria pro Brasil. Que motivo mais distorcido que esse?
2) Ela pode acabar sendo eleita.
29 de out. de 2012
De que lado você samba? (Você samba de que lado?)
Ah, política, sua ingrata. Atraente, linda, vistosa, irresistível. Aquela de quem todos falam, mal ou bem, que amam ou odeiam. Todo mundo tem alguma opinião sobre essa entidade feminina controversa, necessária feito mãe, meio madrasta por vezes, é verdade. Mas cá estamos todos nós, envoltos nela mesmo aqueles que não querem, que resistem. Ser apolítico também é uma posição política.
Desperta paixões, talvez nem devesse, mas assim o faz. Seria melhor que fosse refletida, racional? Pode ser, mas nem sempre é. É que mete no meio a esperança, o sonho, e aí o coração bate mais forte, e aí a gente se joga de cabeça e com tanta vontade que muitas vezes quebra a cara no fundo da piscina. E lá no fundo acabamos por ver um mundo submerso não muito bonito.
Desiludir faz parte da política, é aprendizado, é abrir os olhos, é amadurecimento. É na marra, é doído, como quando a gente termina o primeiro namoro, leva o primeiro chifre. Mas fortalece, esclarece. Descobrir que a utopia só está, e só pode estar, nas nossas cabeças é necessário, é preciso. O sonho, sim, este a gente deve levar diante dos olhos, pra seguir como objetivo, pra não perder a mira. A utopia, porém, essa não existe. Ela é que pode levar a desilusões tão fortes capazes de criar o ser apolítico, o que prefere desacreditar de tudo e de todos, já que não há a perfeição.
Porque não há a perfeição. Não é só na política, a perfeição simplesmente não há. Tê-la como objetivo já é um perigo, pois a frustração é certa. Não há homens e mulheres perfeitos, portanto não há políticos e governos perfeitos.
Dito isso, e parafraseando o D2, pergunto-vos: de que lado você samba?
Engana-se quem pensa que a direita e a esquerda morreram. Não morreram. Hoje em dia o ranço da ditadura esvaziou muito a direita, e quase ninguém tem coragem de se admitir na direita, seja partido, seja eleitor. É natural, a ditadura ainda é muito recente, os que a viveram formam hoje boa parte dos quadros dos partidos políticos, de ambos os lados (sem esquecer, é claro, o centro). Imagino que o mesmo deva acontecer em países que viveram ditaduras de esquerda, sei lá.
Às vezes penso que gostaria de ter vivido algumas décadas atrás, onde era muito mais bonito ser de esquerda. Sempre fui de esquerda, nunca fui socialista nem comunista. Sim, isso é possível. A esquerda existe desde antes de Marx, e eu tinha 11 anos quando caiu o muro, ou seja, me formei como ser político já num mundo onde o socialismo era uma opção testada e falhada.
Onde é que você vê a diferença entre a esquerda e a direita? De minha parte, acho que não é tão difícil ver. O caboco que vota na direita é aquele cara que respeita o "mercado" como uma entidade superior, que tem vida própria e leis próprias, e que o certo, o natural mesmo é "laissez faire, laissez passer". Pra ele, o governante é gerente, é gestor, o país é uma empresa, que tem que funcionar azeitada, pererê parará. Investir no social é investir na educação, porque só povo educado vai conseguir bom emprego, votar direito, subir na vida.
Eu sambo do lado da esquerda. Pra mim, função de governo não é somente organizar, gerir. É gerar também, é cuidar. Governo tem obrigações com o povo, tem que cuidar pra que tenham o que comer, remédio, o que vestir, oportunidade, aula, escola, casa. Estranhamente, acredito que a esquerda é o único modo de fazer funcionar o capitalismo. O capitalismo é, por si só, excludente, é da natureza do sistema. Não cabem todos no topo dessa pirâmide, não pode haver topo sem haver a base imprensada, espremida, arroxada. Como também não acredito que haja, hoje, opção ao capitalismo, governos de esquerda são a única solução para que o grosso da galera, que tá na base, tenha o que comer, vestir, beber, como viver. É preciso essa atenção, essa prioridade é absolutamente essencial. É preciso adaptar o capitalismo à humanidade.
A não ser que se esteja disposto a abrir mão de algumas vidas, a sacrificar os mais fracos porque é assim mesmo que funciona. Não estou disposta a isso. Entendo que o sistema econômico não é justo e luto para eleger governos cuja prioridade seja compensar esse desequilíbrio, dando a mão mesmo, dando ajuda mesmo. Sou a favor do que se chama de assistencialismo. Não acho "normal" que haja os que morrem de fome. É isso que deve ser combatido. É pra isso que serve a esquerda.
A esquerda no governo, eleita democraticamente, está fadada a decepcionar aqueles que, no fundo no fundo, sonhavam-na revolucionária. Sonhavam-na lutada, sangrada. Quando ela é lutada e sangrada, desculpem-me os meus amigos que assim a preferem, ela mata antes, durante e depois. Ela mata no poder. Ditadura não me serve, nem de direita nem de esquerda. Me alegra viver num país em que posso escrever este texto e publicá-lo, que eu possa vaiar alto nas ruas um candidato a quem me oponho se eu quiser, porque sei que não vão me prender por chamar um prefeito, governador ou presidente de filho da puta. Sei que a revolução faz parte, muitas vezes é necessária pra fazer a ruptura, sou historiadora e não sou inocente. Mas pessoalmente, o meu eu político não apoiaria um Robespierre. Taxas baixas de analfabetismo ou excelentes números de saúde em Cuba não justificam prisões, cala-bocas, falta de liberdade de imprensa e de opinião.
E igualmente aqui, no Brasil, o bom funcionamento de diversos setores infraestruturais durante a ditadura não justifica as torturas, as mortes, as perseguições. É fácil trabalhar num governo ditatorial, mais fácil do que num governo democrata. Não há jogo político, não há opções. Você senta e trabalha. Não tem que fazer acordo com outros partidos, não há partidos. Escolhe uns caras muitas vezes bastante competentes e os põe pra trabalhar nos cargos certos. Faz-se a mágica, tudo funciona, e aquela parcela da população que não tem opinião política acha que tudo vai bem. Mas é claro, ninguém discute, ninguém se opõe, e quem o faz: chumbo. Não quero pagar esse preço. Nunca mais.
Não posso, nem tenho por que, desejar que o passado do Brasil tivesse tido mais sangue. Que a Independência tivesse nascido de uma guerra, ou a República, enfim. Foi assim que se formou o meu país, e o passado já passou. Quero, e preciso, crer que é possível amadurecer politicamente através da democracia. E tenho tido recentemente boas razões para acreditar nisso.
9 de nov. de 2011
Da USP e dos preconceitos que eu também tenho
Pois é. Eu vinha, até agora, abstendo-me de opinar publicamente (interneticamente, digo) sobre os episódios da USP, simplesmente porque não é o tipo de episódio em que eu acho que se possa confiar totalmente na versão da velha mídia (poucos são), e como era a fonte que eu tinha, abstive-me.
Mas agora resolvi falar. Ui. Nada grave, minha gente.
Fui FFLCH, antes disso fui CFCH, e pra quem não sabe, isso é a FFLCH da Federal do Pará. Tive duas experiências de universidades públicas, em Belém e em São Paulo, e só vou falar do que sei.
Não fiz parte do movimento estudantil (com isso digo que não me candidatei a nada), mas votei quando foi preciso, em diversos tipos de pleitos, tinha opinião, tinha amigos nas chapas, conheci vários tipos de pessoas, e posso dizer que a História da UFPA era muito mais ativa politicamente que a da USP. Na USP, já ia de longe avançando o processo (triste) de despopularização da universidade pública. Com esse floreio quero dizer que em Belém, quando eu era universitária, tinha muito mais gente pobre na universidade pública que na privada, e em São Paulo já era o contrário, porque via de regra o cara que tinha estudado no colégio pior não dava conta de passar na FUVEST e tinha que ralar pra pagar uma universidade privada. Isso já muda o perfil da galera.
O pessoal da UFPA já tava trabalhando, tinha que dar aula, estudei com gente que mal tinha dinheiro pra pagar o ônibus pra ir pra universidade, juro. Eu era uma das únicas pessoas com carro e celular em 97 na Federal. Já na USP, era difícil achar vaga pra estacionar no prédio da História.
Conheci sim, muito vagabundo. Engajados ou não, pq tb tem o cara que não tá nem aí pra estudar e nem por isso tá no movimento. Não liga pra nada. Infelizmente muita gente só quer balada, bebida e sexo. Não faz meu tipo. Também vagabundeei, mas meu estilo era mais a preguiça que o forró de sexta do Vadião (pra quem conhece a UFPA, dispensa apresentações).
Tem vagabundo no movimento estudantil? Claro que tem, né? Mas num tem em todo canto? Às vezes eu me irritava com a chatice do movimento, que pode ser muito chato sim senhor, e achava patético aquele povo fumando largado num sofá do Aquário (pra quem conhece a História-Geografia da USP, dispensa apresentações) em vez de estarem na aula. Bom, mas morei anos na frente do Mackenzie e achava igualmente patéticos os alunos bebendo cachaça direto da garrafa dentro de um saquinho do Pão de Açúcar, como se fossem mendigos. A juventude desperdiçada sempre me angustiou e irritou. Sim, eu sou CDF. Já perdi a vergonha disso faz tempo.
E eu tinha medo da violência. Houve casos de estupro tanto na UFPA quanto na USP no meu período de universitária. Em princípio, eu não veria mal algum em ter policiamento no campus, sinceramente. Repito: não sei como era a situação, não sei se havia reclamações fundamentadas dos estudantes a respeito dessa convivência antes do episódio virar notícia. Outra coisa que acho é que nada justifica a depredação do patrimônio público. Tem uma boa razão, quer ocupar, quer protestar? Tem todo o meu apoio. Esforce-se para não perder a razão e, com isso, o argumento. Quando se é jovem, porém (e eu não esqueço que já fui), pouca coisa é mais fácil do que perder o limite.
Quem detém a força também pode perder o limite, todos podem, e eu também conheço um pouco do tamanho do preconceito que boa parte dos policiais aprende a ter contra os estudantes. Não esqueçamos de colocar isso na equação.
Conflito de gerações faz o mundo andar, mudar. É natural e saudável. Existe dentro do jovem a vontade de mudar alguma coisa, de questionar, e quando não aparece nada de realmente grave (sim, tipo, derrubar uma ditadura, como todos estão comentando), essa força pode sim acabar sendo usada pra coisas menores. Ela pode, no entanto, começar com algo menor (vide Maio de 68) e se desenvolver como algo imenso. O senso político não deve morrer durante a democracia, ok?
Lutar pelo direito de fumar maconha no campus? Sinceramente, acho isso uma bobagem. Mas quem disse que a coisa toda se encerra nisso? Eu não disse, porque eu não sei.
P.S.: Não falei dos meus preconceitos? Bom, eu desenvolvi um certo preconceito contra os estudantes envolvidos no movimento estudantil, porque a maioria dos que conheci não queriam saber de mais nada na vida, só de jubilar. Não procuravam entender outras opiniões e gostavam de se fazer de vítimas do mundo, coisa que acho das mais feias no mundo. Mas eu sempre estou atenta aos meus preconceitos. Ou tento estar.
Mas agora resolvi falar. Ui. Nada grave, minha gente.
Fui FFLCH, antes disso fui CFCH, e pra quem não sabe, isso é a FFLCH da Federal do Pará. Tive duas experiências de universidades públicas, em Belém e em São Paulo, e só vou falar do que sei.
Não fiz parte do movimento estudantil (com isso digo que não me candidatei a nada), mas votei quando foi preciso, em diversos tipos de pleitos, tinha opinião, tinha amigos nas chapas, conheci vários tipos de pessoas, e posso dizer que a História da UFPA era muito mais ativa politicamente que a da USP. Na USP, já ia de longe avançando o processo (triste) de despopularização da universidade pública. Com esse floreio quero dizer que em Belém, quando eu era universitária, tinha muito mais gente pobre na universidade pública que na privada, e em São Paulo já era o contrário, porque via de regra o cara que tinha estudado no colégio pior não dava conta de passar na FUVEST e tinha que ralar pra pagar uma universidade privada. Isso já muda o perfil da galera.
O pessoal da UFPA já tava trabalhando, tinha que dar aula, estudei com gente que mal tinha dinheiro pra pagar o ônibus pra ir pra universidade, juro. Eu era uma das únicas pessoas com carro e celular em 97 na Federal. Já na USP, era difícil achar vaga pra estacionar no prédio da História.
Conheci sim, muito vagabundo. Engajados ou não, pq tb tem o cara que não tá nem aí pra estudar e nem por isso tá no movimento. Não liga pra nada. Infelizmente muita gente só quer balada, bebida e sexo. Não faz meu tipo. Também vagabundeei, mas meu estilo era mais a preguiça que o forró de sexta do Vadião (pra quem conhece a UFPA, dispensa apresentações).
Tem vagabundo no movimento estudantil? Claro que tem, né? Mas num tem em todo canto? Às vezes eu me irritava com a chatice do movimento, que pode ser muito chato sim senhor, e achava patético aquele povo fumando largado num sofá do Aquário (pra quem conhece a História-Geografia da USP, dispensa apresentações) em vez de estarem na aula. Bom, mas morei anos na frente do Mackenzie e achava igualmente patéticos os alunos bebendo cachaça direto da garrafa dentro de um saquinho do Pão de Açúcar, como se fossem mendigos. A juventude desperdiçada sempre me angustiou e irritou. Sim, eu sou CDF. Já perdi a vergonha disso faz tempo.
E eu tinha medo da violência. Houve casos de estupro tanto na UFPA quanto na USP no meu período de universitária. Em princípio, eu não veria mal algum em ter policiamento no campus, sinceramente. Repito: não sei como era a situação, não sei se havia reclamações fundamentadas dos estudantes a respeito dessa convivência antes do episódio virar notícia. Outra coisa que acho é que nada justifica a depredação do patrimônio público. Tem uma boa razão, quer ocupar, quer protestar? Tem todo o meu apoio. Esforce-se para não perder a razão e, com isso, o argumento. Quando se é jovem, porém (e eu não esqueço que já fui), pouca coisa é mais fácil do que perder o limite.
Quem detém a força também pode perder o limite, todos podem, e eu também conheço um pouco do tamanho do preconceito que boa parte dos policiais aprende a ter contra os estudantes. Não esqueçamos de colocar isso na equação.
Conflito de gerações faz o mundo andar, mudar. É natural e saudável. Existe dentro do jovem a vontade de mudar alguma coisa, de questionar, e quando não aparece nada de realmente grave (sim, tipo, derrubar uma ditadura, como todos estão comentando), essa força pode sim acabar sendo usada pra coisas menores. Ela pode, no entanto, começar com algo menor (vide Maio de 68) e se desenvolver como algo imenso. O senso político não deve morrer durante a democracia, ok?
Lutar pelo direito de fumar maconha no campus? Sinceramente, acho isso uma bobagem. Mas quem disse que a coisa toda se encerra nisso? Eu não disse, porque eu não sei.
P.S.: Não falei dos meus preconceitos? Bom, eu desenvolvi um certo preconceito contra os estudantes envolvidos no movimento estudantil, porque a maioria dos que conheci não queriam saber de mais nada na vida, só de jubilar. Não procuravam entender outras opiniões e gostavam de se fazer de vítimas do mundo, coisa que acho das mais feias no mundo. Mas eu sempre estou atenta aos meus preconceitos. Ou tento estar.
6 de out. de 2010
Um povo à espera do Sassá Mutema?
Mesmo tendo votado na Dilma, fiquei feliz com o resultado excelente da Marina domingo passado. Acho ótimo que as pessoas se dêem conta de que não vivemos num bipartidarismo e que há outras opções. Isso é saudável e democrático. Mas tem um tipo de argumento para votar na Marina, ou melhor, um aspecto desse argumento, eu diria, que, bom, que me deu o que pensar.
Tenho conversado muito sobre política ultimamente. O clima tá propício e no geral eu gosto. É um assunto que me interessa demasiado. E, assim como todos, ouço muita gente dizer que se desiludiu com o Lula e por isso não vota mais no PT.
Desilusão pressupõe ilusão. Eu também me desiludi com o PT, junto com vocês, com o mensalão. Mas aprendi com isso. Cresci com isso. Mudei com isso.
Entendi que ilusão nada tem a ver com política. O que não quer dizer que você não possa sonhar com um país melhor. Você deve. Mas com um governo perfeito? Que não erre? Que não te decepcione nunca? Com um partido perfeito? Sem ninguém mal-intencionado? Nenhum corrupto? Um político perfeito? Um presidente perfeito? Uma pessoa perfeita?
Discupaê: você não tá querendo demais?
Acorda, Alice, isso não existe.
Não estou defendendo corrupto. Tá provado? Não vote mais no cara e acabou. Mas entenda a natureza humana, por favor, cresça, e aprenda que é impossível garantir que todos no governo e no partido serão 100% honestos/competentes dia-e-noite, noite-e-dia quando se chega ao poder. O poder corrompe, ouviu falar? Esta frase não nasceu do nada. Nasceu da observação da natureza humana, a imperfeita e falha natureza humana.
Exija punição para os corruptos. Não vote mais nos que não forem suficientemente punidos. PT ou não PT, se é ficha suja, não votei e acabou. O PT não é pior ou mais corrupto que outros partidos, e quem acredita que este governo é o "mais corrupto da história" nasceu ontem e acredita em conto da Carochinha. Apenas se sabem mais das mutretas agora. O que, na verdade, é ótimo!
Decepcionar-se com um problema é normal. Desistir de um projeto porque ele não perfeito, ou porque as pessoas envolvidas não são perfeitas, a meu ver, desculpa, é querer sempre estar isento de qualquer responsabilidade. É querer se dar o direito de ser sempre contra o governo, votando num candidato que tem projeto vagos e bonitos e que você sabe que não vai ganhar.
Não estou dizendo que todos os eleitores da Marina pensaram assim. Mas percebi que alguns pensaram. Não escolheram a Marina, sequer se deram ao trabalho de estudar seu programa, suas propostas. Escolheram a via fácil e sem responsabilidade.
É fácil votar em sonhos, em partidos que nunca chegaram ao poder. Difícil é, de pedra, virar vidraça. De sonho, virar realidade. Criticar o que é pra criticar e, ainda assim, seguir defendendo o projeto do Partido dos Trabalhadores. Porque, com mais de 30 milhões de ascensões à classe média, o PT provou que esse sonho é possível.
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