Disclaimer: este não é um post que vai falar mal do 50 Shades of Grey. Se isto for contra a sua religião, tchau e bença.
Pois então, conversemos, meninas. Girl's literature. Enchendo expositores de livrarias neste fim de ano, de Austen a James, passando por Brönté e Meyer. Calma, não me linchem por colocar estas quatro moças na mesma frase. Na minha modestíssima opinião, estudam todas na mesma escola, em séculos diferentes, com personalidades e qualidades diferentes. Mas a escola, meu bem, é a mesma.
A escola que prega que:
1) Meninas querem amar e ser amadas. Muito. Intensamente. Loucamente.
2) Meninas precisam ler e pensar e sentir desejo. De preferência podendo dar mil asas ao desejo dentro da imaginação, e aí a literatura ajuda muito.
3) Meninas que leram contos de fadas e viram muito filme da Disney - mesmo aquelas que um dia perceberam ou perceberão que preferem as princesas - sonharam com um príncipe encantado bem XY mesmo.
Algum problema com isso? Absolutamente nenhum. Literatura escrita por mulher, para mulher, acho lindo, louvável, bato palmas, leio e gasto meu dinheiro com elas.
O tempero fundamental das quatro moças citadas acima é o seguinte mote, aparentemente irresistível:
- "Eu não devia me apaixonar por este cara, mas..."
E essa frase é igual aquele momento do insone, quando deita na cama e diz pra si mesmo: "tomara que eu consiga dormir hoje". Batata, não dorme.
"Eu não devia me apaixonar por este cara." Batata, já tá de quatro.
Heathcliff, Darcy, Cullen, Grey => perigo e/ou animosidade + carinha irresistível de "eu sou um perturbado, me salva!"
= Todas ama.
Que outro resultado essa equação poderia ter? Muitas vezes adicionada do elemento "história narrada na primeira pessoa por moça que se acha sem graça e é inexperiente (aka "virgem"). Esta moça pode passar o resto do livro, ou boa parte dele, se perguntando "o que é que este homem leeeeeeendo viu em mim?"
Ah, o homem tem que ser lindo, é claro. Não estamos lendo Émile Zola, gente, estamos falando de girl's literature, e não de Germinal, não de mineiros sujos de carvão e morrendo de fome.
Se bem que... leiam Au Bonheur des Dames e ousem não se apaixonar por Octave Mouret, o lindo-rico-poderoso Christian Grey do Émile Zola. I dare you, girls.
A opção menina sem graça tem muito apelo, visto que a maior parte de nós, mulheres, confrontadas com um universo midiático que nos bombardeia com imagens de mulheres perfeitas (curti a referência a Stepford no 50 Shades), tendemos a ter nossos momentos de "eu sou uma sem graça, feia, ninguém nunca vai me amar" (ou "querer me foder desesperadamente", se vc pensar em tons de cinza). O homem lindo-gostoso-tesudo-gentleman (escolha o adjetivo de acordo com século, autora, enfim) encontra, debaixo de camadas de histeria e baixa auto-estima, a beleza estonteante da menina sem graça, que só ele vê (ok, pode ser que depois ela seja vampirizada, e aí todos verão). É possível acrescentar a essa equação (e funciona muito bem) um terceiro elemento macho (o beta, minha gente, o necessário macho beta). O contraponto, que já era previamente afins da menina, mesmo ela sendo meio sem graça, mas ele mesmo não vai dar pro gasto na comparação com o Mr. Alfa-Male-todas-ama. Se o macho beta for delicinha, melhor.
A riqueza é opcional, mas acrescenta no poder. Porque eu nunca tive grilo com essa história de atração pelo poder. Você veja bem: no mundo animal, machos saem na porrada por uma fêmea, e ela dá praquele que vence a pancadaria. Qual é a pancadaria do ser humano? Geralmente é a vida profissional. Caras bem-sucedidos fizeram por merecer (ergo bem-sucedidos, aka Grey, vou ter que incluir Mouret aqui tb), ou caras ricos pq têm famílias podres de ricas (aka Cullen, Darcy), ou ainda caras fisicamente poderosos (aka Heathcliff, Cullen, Grey), tudo isso apela lááááá no âmago da nossa porção fêmea-bicho, a que escolhe um parceiro resistente e confiável para o futuro.
Não digo que vc tenha que levar isso para vida real. Homens não tão lindos, não tão fortes, nem tão ricos podem te fazer muito mais feliz que o Eike Batista ou o Brad Pitt, but again, we're talking fiction here, ladies. Fiction.
Ninguém fala muito mal de Brontë ou Austen, né? (Fox, o personagem do Tom Hanks em You've Got Mail meio que fala mal do Mr. Darcy, mas é só charme). Ambas as moças já têm muitos anos nas costas, angariaram público e respeito, fizeram lindas literaturas, embala(ra)m sonhos de gerações de moças de todas as idades (vai dizer que eu não sou mais moça porque tenho 34?). Mas a galera desce o cacete em Stephenie Meyer (me included, sometimes) e em E L James.
Senão vejamos.
Eu critico Stephenie Meyer basicamente por estas razões:
1) Ela criou um Macho Alfa ótimo, e o fez se apaixonar por uma menina que infelizmente não parecia, mas era mesmo uma sem graça, que não sabe se defender e é toda cheia de mimimi. Para fazer isso durar quatro livros, o Macho Alfa virou um bobo. Isto é um pecado imperdoável, e eu não a perdoei.
2) Ela sambou e sapateou na literatura vampírica, fazendo os vampiros virarem motivo de chacota. Aí perdeu ponto demais comigo.
Mas no quesito love story? Ela é boa.
Ah, porque tem um outro elemento que ela usa que é nitroglicerina pura. O homem que fica perturbado de desejo. Ele quer a moça, e sabe que não devia, e sabe que vai foder com a vida dela, e sabe que pode feri-la, matá-la, sei lá. Mas quer, e fica todo perturbado entre desejo e culpa. Minha gente, isso é poderoso à beça. Quem viveu uma única cena dessas na vida pregressa, sabe.
Quesito opcional: virgindade. Largamente empregado, e por razões até bastante óbvias nos séculos passados, né? Maaaas porém contudo entretanto todavia, ainda há muito mais moças virgens acima de 18 anos do que você possa imaginar (eu fui virgem até os 21), e a discussão sobre o desejo feminino na virgem é, a meu ver, necessária e muito interessante. É no desejo da virgem que a gente vai se achando, porque é o desejo que é só nosso ainda, não compartilhado. Não acho ruim ter perdido a virgindade tarde. Dá um outro tipo de experiência. (Acho isso hoje, é claro. Me pergunte aos 18 anos o que eu achava!)
A virgindade pode ser usada na literatura atual de um modo casual e até interessante (ainda não sei se James vai ser assim, mas até agora achei que foi bem empregado o recurso "moça virgem", porque a moça virgem não foi puritana; ponto pra ela) ou forçado, como no caso de Meyer. Não há NENHUMA razão plausível para, depois de mais de um ano juntos, Edward e Bella não transarem antes do casamento. Isso é irreal e inverossímil, com todo aquele desejo. Forçou.
Sobre E L James, ainda tô no (deixeu ver, pq acordei cinco e meia da manhã hj pra ler essa desgraçada), acabei de acabar o capítulo 8. Já tenho algumas críticas, bem leves. Acho o estilo dela infantil (o tema não, néam?), é escrito para a adolescente que mora dentro da adulta, mas até aí ok, afinal eu tenho uma. No que tange ao estilo da literatura erótica em si, ainda sou mais Agent Provocateur, que tem um vocabulário lindamente sexy. Mas James construiu o Macho Alfa, e o Macho Alfa dela tem todos os elementos: lindo, rico, perturbado pa porra e, como disse uma amiga minha, pirocudo. (Essa parte é opcional também. ;D) Então até agora me parece que o forte dela são as cenas de sedução, mais que de sexo. É o observar o quanto aquela moça fica ma-lu-ca, destemperada, desesperada, cruzando as pernas, suando frio, ficando sem voz e sem palavras por causa daquele Macho Alfa. Aí eu pergunto a vocês, a pergunta que justifica a vendagem deste livro:
QUEM NUNCA??
A resposta é, é claro: TODAS JÁ!
E pronto.
p.s. de autora: O que eu faço é Girl's Literature. Não só, mas também. Por essa razão essas porra toda aí me pega de jeito. Me dá gosto compor personagem macho, e eu só faço minha fêmea se apaixonar por um macho pelo qual eu me apaixono também. Entretanto, a recíproca é verdadeira. Trato meus machos com o mesmo carinho e respeito, e minha fêmea tem que ser tão interessante e irresistível quanto meu macho. São as vantagens de ser bi. ;)
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14 de dez. de 2012
10 de abr. de 2011
O galã incômodo
Vou descrever um carinha pra vocês: ele tem o corpo sarado, é um excelente ator, respeitado em teatro, tv e cinema, jovem, bonito, elegante, gostoso, simpático, carismático, tem um sorriso lindo, é inteligente, já trabalhou com comédia e drama. Está casado com uma atriz belíssima igualmente bem-sucedida que já protagonizou novela das nove, e o casal está grávido. Ele tem 32 anos, já foi indicado ao Emmy, mas só agora está fazendo seu primeiro papel de galã.
É que esse cara é negro.
Lázaro Ramos, como diria o clichezento Faustão, é um dos ícones da sua geração de atores. E é lindo. Vibrei com seu papel em Insensato Coração (novela fraca pra diabo), o designer pegador André Gurgel, pois enfim fariam jus ao potencial mega-gato do Lázaro.
Daí vi alguns comentários no Facebook, gente dizendo que ele não tinha nada a ver com o papel, fazendo piada como se vê-lo como galã fosse o fim do mundo. Não vi nada demais nisso, mas acabei comentando com uma amiga, e em outra ocasião, com meu marido. Ambos disseram que também ouviam muitos comentários desse tipo, de pessoas diferentes, na internet ou fora dela. Fomos, aos poucos, concluindo que as pessoas estavam incomodadas com um negro nessa posição: rico, bem-sucedido, pegador, o galã da novela (porque a história dele e da Camila Pitanga engoliu e deglutiu a do suposto casal principal Paola Oliveira-Eriberto Leão).
Não combina, esse papel não é pra ele. Claro que não. Não é escravo, não é pobre, não é cômico, não é estereotipado, feito Foguinho, Evilásio ou Roque, papéis de sucesso que ele teve antes, mas nos quais não desafiava o lugar do negro na televisão. A própria mulher dele já havia desafiado esse lugar, sendo a primeira protagonista negra de uma novela das nove, infelizmente uma novela chatíssima, mas eu geralmente não gosto de Manoel Carlos e, pra falar a verdade, acho a Taís Araújo chata, muito pessoalmente. Lázaro é um ator de MUITO mais calibre que sua esposa, mas nem é isso que vem ao caso. O que me surpreendeu com tristeza foi o preconceito velado que as pessoas têm e tantas vezes nem sabem. A maioria negará, dirá que não é porque ele é negro. Mas na verdade o primeiro desconforto vem daí. Do que não combina. Do que saiu do esquadro.
Reinventemos não só a realidade, mas também a ficção, que tanto serve de parâmetro. Não só porque há milhões de meninas e meninos negros no Brasil que precisam de referências, de beleza, sucesso, talento na mídia, que precisam enxergar negros, ver negros e sentir orgulho, sem ter que ficar procurando, mas porque estão mesmo por aí. Não. Façamos isso porque é assim que é. Porque ele É lindo, porque ele É charmoso, elegante, gostoso e talentoso. Lázaro Ramos não é galã por cota, minha gente. Ele É galã.
p.s.: Lázaro, meu bem, aqui em casa tu ruleia de cabo a rabo em meu insensato coração, seu lindo. Galã pode ser negro, nordestino e bom ator, não precisa ser canastrão. Viva!
p.p.s.: teu mano, Wagner Moura, tb tem grande aceitação, percebe? venham juntos, eu abro a porta, amores!
É que esse cara é negro.
Lázaro Ramos, como diria o clichezento Faustão, é um dos ícones da sua geração de atores. E é lindo. Vibrei com seu papel em Insensato Coração (novela fraca pra diabo), o designer pegador André Gurgel, pois enfim fariam jus ao potencial mega-gato do Lázaro.
Daí vi alguns comentários no Facebook, gente dizendo que ele não tinha nada a ver com o papel, fazendo piada como se vê-lo como galã fosse o fim do mundo. Não vi nada demais nisso, mas acabei comentando com uma amiga, e em outra ocasião, com meu marido. Ambos disseram que também ouviam muitos comentários desse tipo, de pessoas diferentes, na internet ou fora dela. Fomos, aos poucos, concluindo que as pessoas estavam incomodadas com um negro nessa posição: rico, bem-sucedido, pegador, o galã da novela (porque a história dele e da Camila Pitanga engoliu e deglutiu a do suposto casal principal Paola Oliveira-Eriberto Leão).
Não combina, esse papel não é pra ele. Claro que não. Não é escravo, não é pobre, não é cômico, não é estereotipado, feito Foguinho, Evilásio ou Roque, papéis de sucesso que ele teve antes, mas nos quais não desafiava o lugar do negro na televisão. A própria mulher dele já havia desafiado esse lugar, sendo a primeira protagonista negra de uma novela das nove, infelizmente uma novela chatíssima, mas eu geralmente não gosto de Manoel Carlos e, pra falar a verdade, acho a Taís Araújo chata, muito pessoalmente. Lázaro é um ator de MUITO mais calibre que sua esposa, mas nem é isso que vem ao caso. O que me surpreendeu com tristeza foi o preconceito velado que as pessoas têm e tantas vezes nem sabem. A maioria negará, dirá que não é porque ele é negro. Mas na verdade o primeiro desconforto vem daí. Do que não combina. Do que saiu do esquadro.
Reinventemos não só a realidade, mas também a ficção, que tanto serve de parâmetro. Não só porque há milhões de meninas e meninos negros no Brasil que precisam de referências, de beleza, sucesso, talento na mídia, que precisam enxergar negros, ver negros e sentir orgulho, sem ter que ficar procurando, mas porque estão mesmo por aí. Não. Façamos isso porque é assim que é. Porque ele É lindo, porque ele É charmoso, elegante, gostoso e talentoso. Lázaro Ramos não é galã por cota, minha gente. Ele É galã.
Pegael, tesouro!
p.s.: Lázaro, meu bem, aqui em casa tu ruleia de cabo a rabo em meu insensato coração, seu lindo. Galã pode ser negro, nordestino e bom ator, não precisa ser canastrão. Viva!
p.p.s.: teu mano, Wagner Moura, tb tem grande aceitação, percebe? venham juntos, eu abro a porta, amores!
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