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11 de nov. de 2014

Um desabafo sobre a patética questão de gêneros em bebês

Então vc está grávida, então vc descobre o sexo do seu bebê e então vc decide que não tem a menor intenção de enfiar o seu filho num modelo engessado de meninos x meninas desde a mais tenra idade, porque isso é ridículo, é claro. Então o quarto onde ele vai viver, que já antes tinha uma parede rosa, continuará tendo. Então vc compra kits de berço com motivos de bichos e lençóis de cores variadas: verdes, lilases, rosas, azuis, xadrezes, listrados, floridos. Então vc compra uma mala de maternidade vermelha e bege. Então vc compra mamadeiras rosas, azuis, vermelhas, verdes, roxas. Roupas lilases, laranjas, amarelas, brancas, azuis, meias rosas, roxas.

Parece fácil, mas não é. Volta e meia vc olha pro berço e se dá com um menino (LINDO) vestido de azul dos pés à cabeça. Como isso aconteceu? Fora os presentes (porque as pessoas dão quase tudo azul mesmo pra ele), existe uma grande dificuldade na decisão de um bebê neutro, livre de estereótipos de gênero. A falta de opção.

Eu vou comprar roupa pro meu bebê e a primeira coisa que me perguntam, obviamente, é se é menino ou menina. Isso será o divisor de águas na hora da compra. Meias, por exemplo. Menino, eu respondo, sempre acrescentando que não tenho a menor frescura em ver tb os itens para meninas, por favor. Mas existem lojas onde NÃO HÁ ITENS NEUTROS. Ou seja, ou vc compra meias de carrinhos de polícia e bolas de futebol americano ou meias com rendas, glitter e fitas de sapatilha de bailarina. Acontece que se eu decidi não engessar meu filho nos modelos preconcebidos de gênero eu tb não tenho o direito de determinar q ele vai ser crossdresser, certo? Não sou do tipo que se ofende se perguntam "qual é o nome dela?", porque já li em fóruns de mães que muitas se ofendem! Li coisas do tipo "mesmo que esteja vestido dos pés à cabeça de azul, me perguntam qual é o nome dela! que raiva! tenho vontade de mostrar o pinto do meu filho!". Juro, li isso. Eu simplesmente respondo o nome e digo, "é menino". "Ah, desculpe", me disse um dia a vizinha que se confundiu. Que é isso, amiga, não peça desculpas, vc não ofendeu meu filho!

Bebês são muito semelhantes, pouco cabelo, nenhum dente, não tem barba, voz grossa ou fina, peitos ou pelos pra te ajudar a dar uma pista do gênero. Mas por que isso teria que ser um problema? Algumas décadas atrás, todos se vestiam igualzinho, com camisolões e camisinhas. Quando eu nasci não existia ultrassom pra determinar o sexo, e as roupas de bebê eram, obrigatoriamente, neutras. Então por que diabos agora eles já têm que ir na primeira consulta da pediatra parecendo bolotas de pano rosas ou azuis? Criou-se um verdadeiro desespero por poder determinar o sexo dessas pessoinhas no primeiro olhar. Nem com crianças mais velhas é assim! As roupas já ficam mais coloridas, democráticas. Sim, claro, pois àquela altura vc já furou a orelha da menina, o cabelo dela já está comprido, ela já foi ensinada a brincar de boneca, já aprendeu um certo número de comportamentos femininos, e já não precisa andar de rosa dos pés à cabeça, pobrezinha. Ganhou direito às cores. Embora, é claro, os meninos jamais ganhem direito ao rosa. Na primeira consulta do meu filho na pediatra ele foi de cinza. Ele era a única criança de colo ali que vc não conseguia identificar o sexo só de olhar. A única. Quer saber? Eu me orgulhava disso. Ele saiu da maternidade de laranja. Lindo de morrer. Mas é difícil, é uma luta diária.

Eu queria um short, e os shorts para bebês mais velhos (tamanhos a partir de 9 meses, por exemplo) já estão muito caros, porque imitam em tudo as roupas de homens adultos, até passador de cinto e bolsos a porcaria já tem. Sessenta reais num negócio que ele vai usar menos de dez vezes?? Aí vc vai no setor feminino (eu SEMPRE vou nos dois) e tem umas peças de malha super fresquinhas e confortáveis por vinte e poucos reais, completamente floridas ou de oncinha. E aí? Levo ou não levo? Me achei numa arara de shorts supostamente femininos por menos de vinte reais e que só tinham duas cores, roxo e branco, azul e branco, e até hoje não entendi por que eram femininos.

No dia que eu fui comprar o cercadinho do meu filho escolhi um amarelo muito muito lindo. Eu ia tb levar chupetas, e peguei um kit com duas chupetas rosa. Atenção: só tinha kit com chupetas rosa e kit com chupetas azuis. Somente. Nenhuma outra cor. Peguei a rosa porque achei mais bonita mesmo. Na hora de pagar pelo cercadinho, vi que só tinha o amarelo com a caixa toda aberta e arrebentada, e eu odeio comprar produto assim. Disse que não queria, e a vendedora disse que então só tinha rosa. Ok, me dê o rosa. Enquanto ela buscava o rosa, voltei na gôndola das chupetas e troquei pelo kit azul, achando que já tava ficando rosa demais aquela compra, pq tb não quero vestir meu bebê "de menina" tanto quanto não quero vesti-lo "de menino". Achei q estava ficando louca, achei que dava um trabalho encaralhado tentar equilibrar as compras, as escolhas, será que não era mais fácil fazer como todo mundo? Só que se eu fizesse como todo mundo eu voltaria pra casa naquele dia com um cercadinho numa embalagem violada ou sem cercadinho ou ainda com um cercadinho muito mais caro (pq aquele lá tava super em oferta). Sei q tem gente (muita gente) q faria isso mesmo. Q não compraria o cercadinho rosa para o menino nem q fosse pela metade do preço. Eu comprei. Mas tenho uma certa vergonha de admitir ter voltado pra trocar as chupetas (e fui burra, devia ter levado os dois kits, um rosa e um azul, q o preço tb tava ótimo).

Mas é ótimo poder reconhecer que nem todo lugar é assim. No caso das meias, na Puket tive dificuldade para achar meias neutras, mas na Lupo não. Pretas, brancas, beges, xadrezes, fiz a festa por lá. Alguém me explica, por exemplo, por que uma meia de tubarões não pode ser de menina? Porque é azul? E por que uma meia de corujas de óculos (sim!! pode mais Harry Potter que isso??) tem que ser de menina? Só por ser rosa e roxa? Um body com desenho de passarinho e uma camisa do Brasil que são "de menina" porque têm um elástico no pescoço que faz um "franzidinho". Hein?

Gente... Que mundo é esse?

Isto não é daqueles posts bonitos nem nada, é só um desabafo. Por que tem horas que pensar dá no saco.

10 de set. de 2014

O preconceito nosso de cada dia

Vivemos numa época em que a pior coisa que te pode acontecer é ser tachado de preconceituoso. Usamos de todo tipo de subterfúgio e explicação para não aceitar a alcunha. Há casos óbvios demais, quase risíveis, como o da torcedora do Grêmio, que mesmo tendo sido filmada aos gritos chamando o goleiro do Santos de "macaco" conseguiu achar cara pra dizer aos prantos que não era racista. É óbvio que ela é racista. E é óbvio que todos somos preconceituosos.

Claro que há níveis e níveis de preconceito, e tipos e tipos também. Mas é virtualmente impossível uma pessoa não ter preconceito algum. O preconceito se baseia na sua experiência anterior de vida, naquilo com que vc já se acostumou, naquilo que te ensinaram e que vc ainda não foi convidado pela vida a questionar, e que, portanto, ainda é o que é válido. Preconceito é quando vc faz um julgamento de valor sobre algo ou alguém não baseado nas qualidades daquele algo ou alguém, mas sim em informações que vc já traz anteriormente. É como quem diz que não é gordofóbico, só acha que gordo não é saudável, não é preconceito, é questão de saúde. Sem saber se aquele gordo é saudável ou não, feliz ou não, vc apenas acha que se a obesidade é uma epidemia, deve ser banida da face da terra e todo mundo tem que ser magro.

Mas o curioso mesmo é quando chegamos nesse grupo de pessoas de onde tiro meus amigos, essas pessoas esclarecidas que não são gordofóbicos, homofóbicas, não são racistas, não se prendem a velhos modelos sociais, são feministas, não acham que casar e ter filhos é obrigatório. Pessoas como eu. Essas pessoas são as mais sensíveis a serem tachadas de preconceituosas. Mas nós somos, sim. Quantos de nós não fazem(os) julgamentos de valor com aquela mulher que sonha em casar e que vira dona de casa, que para de trabalhar pra cuidar dos filhos, e ainda assim contrata babá? Não a conhecemos, não sabemos os motivos dela, não sabemos se ela é boa mãe, mas na maioria das vezes nossa primeira reação é julgar negativamente. Uma garota magra, gostosa, de roupa de academia, cabelo liso com mechas loiras é alvo de tantos pré-julgamentos negativos quanto eu, gorda, flácida, sedentária. Só que somos alvos de grupos diferentes de pessoas. Alvos, talvez, uma da outra. Eu julgo que ela fez todas as escolhas erradas na vida. Ela julga que eu sou um nojo, feia, e que eu deveria ficar em casa até perder setenta quilos.

Ou não. Talvez ela não julgue. Talvez ela tenha me achado bonita e simpática ali na rua. Talvez ela nem tenha parado pra ter um pensamento a meu respeito. Porque colocar pensamentos na cabeça da garota tb é julgá-la. Escrever uma história e meio que automaticamente só colocar as personagens bonitas e gostosas como meio burras e do lado antagonista da história é preconceito. "Catarina" me ensinou a dar valor real à garota mais gostosa da escola. Ela também pode ser a mocinha do livro.

Preconceito religioso, algo que tem sido muito debatido. Nesse grupo de pessoas a que pertenço, preconceito contra ateus é uma constante. Preconceito contra as religiões afro está se tornando um problema nacional. Mas e o preconceito de ateus contra católicos? E de todo mundo contra evangélicos? Vai dizer que vc não tem, de cara, um preconceitozinho contra alguém que segue a Universal?

Dentro do mundo nerd, geralmente composto de uma horda de gente que sofreu todo tipo de bullying, o preconceito grassa, com destaque para o machismo. Mas também encontramos homofobia e até gordofobia vinda de um monte de gordos, que não se aceitam de verdade e, na hora que uma garota gorda faz um cosplay, eles acham um horror.

O preconceito não é só contra pessoas, mas contra hábitos e coisas. Preconceito contra vegetarianismo e contra carnivorismo, ou contra essa história de começar a se preocupar com o que come, fulano deixou de beber, de comer MacDonalds e tomar refrigerante, que mané, virou um chato! Preconceito contra andar de ônibus sem nunca ter andado, preconceito contra exercício físico, sem nunca ter tentado fazer (só pra manter a minha fama de sedentário, odeio mesmo e pronto). Tudo isso eu não só já vi, como muitas dessas coisas eu já senti. E hoje acho que o melhor modo de tentar ter menos preconceitos é admitir que os tem.

p.s.: A ideia deste post me veio quando tive que explicar a uma amiga muito querida e muito não-preconceituosa que, na minha opinião, a rejeição dela ao ebook era um tipo de preconceito porque achava que não era causada por características do próprio ebook, mas porque ela amava muito o livro de papel. Será que sentia como se fosse uma traição a toda a história de amor que tinha com o papel? Como se não coubesse dentro dela gostar de outro formato? O medo do novo, a recusa de experimentar são tipos de preconceito também, um pré-julgamento de que o velho, aquilo a que vc já está habituado, é melhor pra vc, mesmo sem ter dado uma chance real ao novo na sua vida. E eu já senti esse tipo de preconceito muitas e muitas vezes, por exemplo contra publicar em ebook, durante muito tempo. Hoje eu gosto. Ah, e também parei de tomar de refrigerante há um ano, e não sinto falta. :)

9 de ago. de 2014

Forma e conteúdo: uma defesa (im)parcial do ebook

Já há um tempo eu vinha querendo escrever um post sobre ebooks e livros de papel, mas pensava que ninguém ia me levar a sério porque eu publico em ebook e ia parecer uma apologia com fins de propaganda pessoal. Mas o fato é que publicar em ebook me levou a refletir mais sobre isso, e também me colocou em contato com a resistência de muitas pessoas ao ebook.

Pra começar, eu gostaria de dizer que acho uma bobagem esse tipo de dicotomia. Uma coisa não tem (nem vai) excluir a outra. Mas ainda assim me lançarei ao debate.

Quando o ebook entrou na minha vida, teve uma função muito específica. Eu fazia bicicleta ergométrica e gostava de ler enquanto pedalava, mas era pouco prático ter que virar as páginas, e pior ainda quando o livro era pesado. Eu estava lendo Próxima Estação: Paris, do Lorant Deutsch. Aí meu marido baixou pra mim o epub do original em francês (o que já foi um avanço também) e instalou o Aldiko no meu celular. Pedalei e li às mil maravilhas. Métronome foi o primeiro ebook que li.

Mas eu ainda tinha aquele ranço do passado. "Prefiro livro de papel, prefiro ter no que pegar, olhar a estante". Dizia isso com orgulho, citando Caetano: "os livros são objetos transcendentes, mas podemos amá-los do amor táctil". E então eu fui fazer um curso de um mês em Paris, e duas coisas lá me fizeram mudar de perspectiva em relação aos meus livros de papel. Eu via aquelas banquinhas infinitas nas calçadas vendendo livros a um euro, ou até menos (comprei um livro a cinquenta centavos) e pensava: por quanto este cara terá comprado este livro para vendê-lo tão barato? Comecei a achar que aqueles livros eram dados pra ele. Ou quase dados, se fosse um lote grande a um preço muito muito baixo. Quem faria isso com seus livros?

O episódio definitivo foi quando minha professora levou livros para nós. Livros dela. Disse que podíamos pegar o que quiséssemos e levar para ler. Acontece que o curso era de módulos semanais, então sempre tinha alguém se despedindo do curso a cada semana. E alguém perguntou: "mas, professora, como é que eu vou lhe devolver o livro se já estou indo embora?" Ao que ela respondeu: "pra que eu quero esse livro de volta? eu já li."

Fiquei passada. Tinha tanto sentido que fiquei envergonhada. O que afinal a gente quer de um livro? Não é o conteúdo? Não é até mesmo assim que a gente diz, de alguém culto, que lê bastante? A pessoa tem conteúdo.

O resultado foi que, quando cheguei em casa, não havia espaço para acomodar os livros que eu tinha comprado na viagem,e eu tomei uma decisão: começar a doar meus livros. Meus critérios são simples: livros que eu e meu marido já lemos e que não pretendemos reler (hoje em dia eu incluo um pensamento para o meu bebê, e guardo os livros que eu quero mostrar pra ele). Se o livro passa por essa peneira: RUA! Mandei fazer um carimbo com os dizeres "sou um livro viajante / leia-me e passe adiante", mas é claro que não tenho nenhum controle se estão sendo passados adiante ou se estão só aumentando a biblioteca acumuladora de alguém. Não importa. Já deixei livros em banco de shopping, banheiro de restaurante, sala de espera de médico, na escola de idiomas onde dou aula e na portaria do meu prédio. Não diminuiu muito a minha biblioteca, ainda. Sou uma pessoa que relê, e ainda tenho muitos livros que nunca li. Talvez um dia eu aumente o critério para "livros que eu comprei mas não vou ler mesmo, deixa de se iludir, inocente", e mande esses pra rua também.

E o ebook não ocupa espaço, né? Pelo menos, não físico. Comecei a ver as vantagens em filas. Na fila da lotérica, sempre quilométrica, eu sacava o celular e pronto: adeus tédio! Eu que sempre levei livro na bolsa, agora podia levar vários dentro do celular. E ler antes de dormir? É leve e não precisa de abajur! Eu sempre tinha problemas para ler antes de dormir, porque o abajur incomoda o marido e os livros mais pesados eram desconfortáveis para segurar deitada. Comecei a baixar epubs da Agatha Christie adoidado. Ganhei de uma amiga o epub do primeiro livro do Robert Galbraith, The Cuckoo's Calling. Com o melhor livro do ano de 2013 devorado em formato ebook, eu estava definitivamente cativada como leitora. Mas ainda faltava um passo. O maior. Faltava a escritora.

Como a maioria das pessoas que sonha publicar um livro, eu via o processo de seleção de originais como uma maratona de meritocracia. Só quem merecia estaria numa prateleira, teria seu nome numa lombada, assinaria autógrafos. Quando uma editora aceita o seu original, está te atribuindo valor. Conforme eu ia terminando de escrever meus livros, comecei a ler e pensar mais sobre mercado editorial, mergulhada na preguiça e na inaptidão completa de "me vender" para editoras. Você nunca leu um livro muito ruim? Publicado por uma editora, em papel, com lançamento e tarde de autógrafos? Não falo de um livro que não te agradou pessoalmente, mas um livro ruim mesmo. Mal construído, mal escrito, um livro que te faz pensar "mas quem diabos aprovou essa bosta nesta editora?" Eu já. E comecei a questionar os critérios dessa meritocracia e a me perguntar quem são afinal essas pessoas que escolhem quem merece ou não ser publicado. Critérios que excluem muitos autores novatos e publicam qualquer coisa que seja escrita por alguém famoso (mesmo que seja um livro infantil escrito por uma cantora de MPB ou atriz de novela, porque o nome vende). Isso sem falar em publicações pagas, onde não há seleção ou mérito envolvido, modalidade que tem crescido imenso nas editoras. Ou seja. Se fosse pra pagar (e eu tive esse tipo de proposta de uma editora física), por que eu não publicaria por conta própria, gratuitamente, em ebook?

Não foi uma decisão fácil. Desistir de algo sonhado num velho modelo é doloroso, rescende a fracasso. Mas não é. É coragem. Nos Estados Unidos, o mercado da autopublicação em ebooks é forte e alimenta o mercado editorial tradicional, que procura nos autores independentes bem-sucedidos os seus novos autores. mas nos Estados Unidos as pessoas leem muito ebook, e aqui no Brasil não.

Há aqui um orgulho de se prender ao passado. "No meu tempo era melhor", quantas vezes vc já ouviu isso? Ou mesmo disse? (já escrevi um post sobre isso) E é tão bobo, porque presume que você deve abandonar o livro de papel pelo ebook, ou que você está traindo os seus livros de papel ao ler ebooks. O que é ainda mais bobo. O livro de papel continua tendo inúmeras vantagens. Livros bonitos, ilustrados, livros de arte, livros de consulta, tudo isso é infinitamente melhor em papel. Você não vai comprar a obra completa de Degas em ebook, é claro, e nem mesmo a História da Arte do Gombrich eu compraria em ebook, a princípio (porque pesa pra cacete, então o ebook ainda teria essa vantagem). Mas eu comprei as obras completas de Edgar Allan Poe no original por menos de R$3, sem frete, sem ter que esperar semanas pela entrega. Menos de um minuto, e eu tinha tudo ali. Toda a história, todo o conteúdo. O papel? Que me interessa o papel nesse momento? A história um dia foi oral, as histórias um dia foram contadas, e nem por isso todos somos ferrenhos defensores e consumidores de audiobook, somos? (a mim, me fazem dormir). O que me faz pensar numa frase que vi um dia destes nas redes sociais e que dizia algo mais ou menos assim:

"Tudo o que foi inventado antes de vc fazer dez anos faz parte do mundo, é normal. Tudo o que foi inventado entre os dez e os trinta e cinco anos é inovador e apaixonante. Tudo o que foi inventado depois que vc tem trinta e cinco anos não é normal, é contra a ordem natural das coisas."

Essa carapuça não serve em todo mundo, e eu sempre uso meus pais como exemplo. Papai tem 67 anos, tem twitter (reconheçamos, ele é viciado mesmo nisso), blog (e ele bloga SEMPRE, muito mais do que eu), smartphone, tablet. Minha mãe ainda se dá melhor com email que com Facebook, mas está sempre no whatsapp, resolve toda a vida no internet banking e já leu alguns ebooks no tablet do papai. E por isso mesmo é que eu acho tão triste e limitador ver gente mais nova do que eles, gente mais nova do que eu, aferrando-se ao livro de papel como se nunca tivesse ouvido rádio e visto televisão, como se nunca tivesse falado em telefone fixo e depois no celular, como se nunca tivesse mandado cartas e depois emails.

"Ah, mas não é a mesma coisa!"

Claro que não é, nem é pra ser! Na carta, vc tem a letra da pessoa, mas o email chega mais rápido. A televisão tem imagem, cara, mas nem por isso o rádio morreu, e vc continua ouvindo no carro.

Dê uma chance ao ebook. Não perca oportunidades de ler histórias porque a forma é nova, quando o que deveria te atrair é o conteúdo.

p.s.: Sim. É claro que escrevi tudo isto com o objetivo de fazer vcs lerem meus livros. Eu tenho tanta história pra contar que vcs nem imaginam. Por enquanto são quatro (clique aqui pra ver uma pesquisa pelo meu nome no site da Amazon, com todos os títulos lançados), mas é só o começo. Deve sair mais ainda este ano.



2 de ago. de 2014

Liberdade de expressão e redes sociais, ou "Ninguém pediu sua opinião"

Aqui em casa tem o #teamFacebook, representado por mim, e o #teamTwitter, defendido ardorosamente pelo meu marido. Ambos estamos em ambas as redes sociais, mas temos nossas preferências, de acordo com o uso que fazemos da internet. Meu marido consome informação e opiniões. Eu dou minha opinião, escrevo e converso. Sempre tive, na vida, muito pouco interesse pela opinião alheia, sobre as coisas, sobre o mundo e sobre mim. Na internet não tem muita opção. A não ser que você esteja no twitter e não siga ninguém, esteja no Facebook e já tenha tirado todo mundo do seu Feed de notícias, você será invariavelmente alcançado pela opinião alheia sobre tudo.

Muitas vezes isso é algo muito legal. Já fiz amizades por redes sociais ao encontrar pessoas que compartilhavam comigo gostos (costuma ser o primeiro atrativo) e opiniões (só assim é que as pessoas vão ficando na minha vida). Eu gosto de trocar opiniões com essas pessoas sobre assuntos que nos interessam ou descobrir novos assuntos seguindo-as nas redes sociais, porque temos muito em comum e muitas vezes acabo descobrindo algo novo que também me interessa.

Essa é a parte boa.

Como já dizia o Tio Ben, "with great power comes great responsibility", e ele deveria ter acrescentado aí a liberdade também. A liberdade exige responsabilidade. Sim, você tem liberdade de dizer o que quiser nas internetes (e eu tenho direito de ouvir ou não, thanks God for the block). E o grande atrativo e perigo da internet é que, na imensa maioria das vezes, você jamais será responsabilizado pelo que disse. E ultimamente, tudo tem sido confundido com "opinião". E nem tudo é opinião. Existe ofensa e existe julgamento. E existe coisa pior: ameaça e violência verbal.

Vou explicar como se você fosse uma criança de três anos.

Você viu um filme.

Opinião: "Eu achei esse filme mais ou menos. Acho que Beltrana atuou bem, mas Fulano me pareceu meio fraco para o papel. E o roteiro deixou a desejar."

Julgamento: "O filme é horrível, não vão ver essa porcaria. Beltrana está velha e gorda e Fulano nunca mais vai ser o mesmo depois das drogas. Esse povo de Hollywood pode fazer 500 rehabs que não adianta, sempre voltam."

Ofensa: "Essa vaca da Beltrana é uma puta mesmo. Bosta de filme, o diretor é aquele imbecil filho da puta que já tinha acabado com aquele outro livro que eu adorava. E o Fulano, aquele viadinho cheirador,  não merecia aquele papel!"

Deu pra notar? Pode ficar pior.

"Porra, Fulano devia ter levado uma surra só de ter aceitado o papel! Viado! Se meterem uma bala na cabeça dele eu vou achar é pouco por ter destruído meu personagem favorito! Se passar na minha frente agora eu mesmo meto a bala! Morraaaaaaaa!! Bora acabar com a carreira desse filho da puta!!"

"Como é que alguém ainda dá algum papel pra essa ridícula da Beltrana? Ela não se enxerga?? Velha ridícula!! Não admira que o marido tenha trocado ela por outra novinha, essa gorda velha e caída ninguém mais vai querer! ahahahahahaha!"

*suspiro*

Qual a diferença?

Você tem TODO o direito de não gostar de alguma coisa. Não gostou? Não veja mais.

"Mas isso é inofensivo, é só na internet, eu nunca vou ver essa pessoa, menos ainda meter uma bala nele!"

Então vamos transferir o discurso do ator do filme para um jogador de futebol. Agredido por membros de uma torcida organizada, insatisfeitos com o desempenho dele em campo. Ele trabalha, se esforça, ganha o salário dele, deve ser tratado com respeito. Não é pago pra divertir você, não é seu empregado nem seu palhaço. Ele trabalha praquele clube, e se vc gosta daquele clube, bom pra vc, mas isso não lhe dá direito algum sobre a vida do cara. E as merdas que vc escreve sobre ele na internet serão lidas pela família dele, pelos filhos e por ele mesmo.

E vamos transferir esse trashing da rica atriz de Hollywood para qualquer mulher cuja foto fica sendo repassada sem critério nem permissão para ser alvo de piadas de gente que ela nunca viu porque ela é feia, gorda ou qualquer coisa que te desagrada e que vc se dá o direito de achar engraçado. Aí depois todo mundo fica indignado com aquelas tristes histórias de adolescentes que se matam por serem vítimas de cyberbullying. Isso que vc está fazendo É CYBERBULLYING. Aquela pessoa na foto que vc ridiculariza e compartilha, aquela pessoa existe, aquela pessoa tem família, tem amigos, trabalha, estuda, aquela pessoa tem internet, sua besta. Vc acha que ela não vai acabar vendo isso? Ela tem tanto direito a ser feliz quanto vc e não lhe deu o direito de rir dela nem de ofendê-la. Não faça dela uma piada.

Isso não é opinião. Isso é ofensa, e é crueldade. Isso é um perigo.

Eu não quero mais tolerar esse tipo de coisa. Estão avisados.

31 de mar. de 2014

Todos somos tolerantes

Eu me considero feminista. Não é algo que nasce na gente, muito pelo contrário. Nascemos TODOS numa sociedade onde manda o homem, onde a mulher é segunda classe, onde os papeis são SIM AINDA repartidos desigualmente pois há uma diferença de importância e hierarquia entre o papel da mulher e o papel do homem. Para minha sorte, nasci numa família onde mulher tem vez e voz (somos muitas) e nunca vi nem vivi situações em que fui discriminada nem diminuída por ser mulher. Minha mãe sempre trabalhou fora e por muito tempo ganhou mais do que meu pai. Ele nunca demonstrou ressentimento com isso e eu e minha irmã não fomos criadas "pra casar". Fomos criadas pra fazermos o que quiséssemos. Ambas casamos. Eu trabalho e minha irmã é dona de casa. E ela teve que enfrentar um tanto de preconceito da nossa geração por causa dessa escolha. Não esqueça que isso também é cruel, cada um faz o que quer de sua vida, e quando vc critica uma mulher que escolheu não trabalhar fora e ser dona de casa e mãe você também está corroborando a ideia de que essa é uma função "menor". E não é.

Anyway. Acontece que dias atrás eu li este post do Sakamoto e confesso que num primeiro momento me perguntei se a moça não tinha sido meio agressiva demais na resposta. Não que ela não tivesse razão, mas porque eu às vezes acho que dependendo do modo como você responde a esse tipo de comentário ("Já pode casar!"), essas coisinhas repetidas há séculos, sem pensar, você pode ou fazer a pessoa parar pra pensar no que disse ou fazer a pessoa reagir com uma agressividade que nem estava presente de início, achando que vc é chata e cricri e tal. Não é questão de q vc tenha q evitar passar por chata. É questão de resultado. De acreditar no seu poder de fazer pelo menos aquele cara parar pra pensar uma vez só nessa frase que ele repete como papagaio. É o que eu penso, nem sempre o que faço.

Mas é difícil. Porque dói na alma (porque pra mim nunca doeu na carne, o que é sorte minha) confrontar uma cena de machismo corriqueira como essa, essas coisas que vc ouve da sua tia quando leva uma sobremesa gostosa pro almoço de família, que nem dói, mas vai criando ninho, vai se repetindo, com outras cenas. Estupros em transporte público, coisa de quadrilha, gente que se organiza pra violentar mulheres em trens e metrôs. E a maldita pesquisa do Ipea, noticiada à exaustão, a exposição de uma verdade medonha que vemos e ouvimos todo santo dia, no salão, em família. Mulher que não se dá o respeito. Mulher pra casar. Mulher que "tá pedindo".

Mulheres são vítimas de julgamento CONSTANTE. O tempo todo, em todos os aspectos. Como falam, como se vestem, como se sentam. Quando fiquei grávida, eu queria muito ter uma menina. Eu coleciono bonecas e, apesar de não ver problema algum caso meu filho queira brincar com minhas bonecas, julguei que uma menina poderia aproveitar melhor as centenas de Barbies que tem nesta casa. Daí que estou esperando um menino, e não foi uma decepção, de verdade. O pior foi a quantidade de vezes que já suspirei aliviada por saber que, SÓ POR SER MENINO, eu vou ficar mil vezes menos preocupada quando for andar de ônibus, andar à noite sozinho. Não vou ter que ensinar a "fechar as pernas" quando estiver de saia. Ficar ensinando a se cobrir, vestir uma blusa no calor, mesmo quando os meninos, todos ainda crianças, meu deus!, estão só de shortinho. Que mundo, meus amigos. Que mundo. Por isso é que discordo daquela bonita frase "não se nasce mulher, torna-se". Não. Você nasce mulher, sim. É a sua primeira condição nesta sociedade, o seu gênero. E a letra dos seus cromossomos determina o perigo que você corre, a forma como será vista, do que será cobrada, o que esperarão de você. Te joga em estatísticas assustadoras, te faz ouvir merda pela vida afora e, invariavelmente, te coloca no papel de repetir muita dessa merda que te oprime com a tua própria boca, porque a gente não nasce toda cheia de senso crítico, e aos 12, 15 anos o que vc faz mesmo é reproduzir muito do que vc escuta dos adultos.

Em algum momento da minha vida eu certamente "elogiei" alguma mulher que cozinhava bem dizendo que ela "já podia casar". Peço desculpas a ela, e a mim, que também sofri ao dizer isso. Com certeza eu disse isso antes de casar. Eu não sabia nem fazer arroz. Meu marido nunca achou que eu tinha obrigação de saber fazer arroz. Nem de fazer o arroz. Ele fazia. Minha sogra foi dona de casa a vida toda, meu sogro da PM. Todas as desculpas pra um marido de cabeça tacanha? Pois não é.

O que, SIM, é sorte minha também. Não sejamos hipócritas. Um homem que se cria fora do machismo é uma raridade, e isso não é "culpa deles". A reprodução do discurso da sociedade machista, mesmo quando um discurso não violento, está em todas as bocas, não dá pra excluir todo mundo. Amar um homem, casar com ele, também é dar a ele a oportunidade de VER uma mulher, de VIVER com uma mulher. Uma mulher que vai sangrar, gerar filhos, que vai gostar de sexo (e ele vai adorar isso, nunca vai achar que é desaconselhável e despudor!), que talvez adore futebol (meu deus, dei muita sorte com essa mulher!) e discuta política, que elogie a comida dele a ponto de ele se sentir orgulhoso e se permitir gostar de fazer isso, que lhe bote em pé de igualdade nas escolhas e decisões sobre o filho e a casa, que lhe traga suas questões e reclamações do trabalho, como as que ele também tem, e que ao longo dos anos deixe muito claro que o universo feminino não é o que ensinaram pra ele. É mais amplo, menos limitado, mais interessante.

Criar homens para o feminismo é uma missão muito muito recente, talvez só a minha geração é que já esteja atenta a isso. Porque ensinar a uma menina o que é o feminismo, visto que ela é quem cresce sob a opressão, é mais fácil. Ela enxerga. Ela tem medo. Ensinar ao opressor sobre a opressão é muito mais difícil. A vida dele é mais fácil. Ele pode usar camisa ou não. Ninguém vai achar que ele é um despudorado. Ele pode se barbear ou não. Ninguém vai achar que é falta de higiene. Nunca ninguém disse pra ele fechar as pernas quando as cruza. Nunca ninguém disse pra ele que "pra ficar bonito tem que sofrer mesmo", enquanto lhe arranca um bife da unha ou a cera quente da virilha. Como é que ele vai entender? Como é que ele vai entender que isso (fazer unha, depilar) não são exatamente coisas que escolhemos fazer? Na melhor das hipóteses, são coisas que escolhemos NÃO fazer, mas fomos ensinadas que era preciso fazer, que fazia parte do nosso pacote. A gente sangra todo mês, e isso é nojento e cheira mal e vc nunca deve ficar falando sobre isso. É feio mulher fumando, falando palavrão. Pelos pubianos aparecendo pelos cantos do biquíni, que horror! Se for da sunga, tudo bem. Aquela trilhazinha que chamam até de "caminho da felicidade", porque pica todo mundo quer, né? Claro.

Aí aqueles mesmo homens que já um dia disseram sobre alguma feminista chata (gente, existe feminista chata, ok?) "isso é falta de pica" ou "é mal-comida", ficam genuinamente chocados com uma pesquisa feito essa do Ipea. Eles nunca estupraram ninguém! Isso é crime, porra! É onde se traça o limite. Na lei. (Porque não existe lei que o impeça de encher o saco da namorada ou da irmã porque a saia dela é curta, né?) E é quando começam a surgir frases como "isso não é homem de verdade, é um monstro,é um bicho, é um doente"... Coitados. É o desespero desses homens, a necessidade urgente de se dissociar dos que praticam essa violência última, o estupro. "Não, eu não sou como eles. Eu nem mesmo corro o risco de um dia ser um deles, porque são doentes, têm problemas, são animais". É o mesmo que ocorre com o ser humano em geral diante de outras violências chocantes, diante de assassinos cruéis, mães que abandonam ou torturam filhos. A sentença é rápida, e provoca alívio: "um monstro". Você retira a natureza humana daquele sujeito e de repente se sente seguro. Você nunca fará nada daquilo.

Mas talvez você veja um vídeo pornô que contenha violência contra a mulher. Talvez você fique excitado, ainda que à sua revelia. Talvez você bata uma punheta, talvez até chore de culpa no chuveiro depois disso. Não é melhor você enfrentar? Entender que a tolerância à violência contra a mulher está dentro de todos nós? De você, de mim? Só assim temos alguma chance de erradicar a tolerância e tornarmo-nos, finalmente, completamente intolerantes.

26 de mar. de 2014

Uma nostalgia tão cega

O presente tem sido sempre tão cruel consigo mesmo. Incomoda-me muito o excesso de nostalgia, algo recorrente sempre, mas tão difundido nas redes sociais. Os antigamentes sempre parecem melhores do que os hojes, e não entendo por quê. Você veja bem o filme Meia-Noite em Paris, é bem isso, né? Cada qual achando que o melhor dos tempos é um tempão atrás. Pipocam no Facebook coisas do tipo "se vc fez isso vc teve infância", acompanhados de comentários do tipo "as crianças de hoje blablabla-qualquer-merda".

Será que vc se dá conta do quanto está sendo cruel? Não só com as crianças de hoje, decretando que elas não têm infância ou têm uma infância de segunda categoria, se comparada à sua. Mas com vc mesmo. Com a sua idade adulta, que por acaso é a fase da sua vida em que vc há de passar mais tempo. E por quê? Pra quê?

Por alguma razão foi ficando gravado nas leis tácitas desta sociedade que a infância deveria ser encarada como uma fase doce e encantada, e a transição para a idade adulta deveria ser um conjunto de desilusões e endurecimentos de alma e caráter. Porque fomos convencidos de que era preciso abandonar certos gostos e prazeres infantis para nos tornarmos adultos, e então é claro que isso gera nostalgia. Porque em determinado momento nos fizeram sentir vergonha de brincar de boneca, não era mais coisa pra nossa idade. Ou de chorar quando dói, porque "vc já é uma mocinha/um rapazinho". A gente vai engolindo isso e vai achando a vida uma merda, e de repente a infância parece tão distante e tão linda e perfeita.

Só que, pra começar, não era. Do mesmo jeito que na idade adulta, a gente era obrigado a fazer coisas que não queria, como ir à escola, tomar banho, ir dormir cedo, parar de brincar pra fazer a lição, tomar injeção. A gente sofria com as desilusões e dores da vida, como separação dos pais, morte dos avós ou animais de estimação, briga com amiguinhos, um brinquedo favorito quebrado ou quando nosso time perdia vergonhosamente na escola. E se tudo isso era compensado pela magia da infância, eu vos pergunto: onde morava essa magia da infância?

Dentro das nossas cabeças. Na nossa visão do mundo. Na nossa esperança, na nossa fé nas pessoas, nos nossos sonhos.

Quem te mandou abrir mão de tudo isso? Quem te disse que vc não tinha mais direito a sonhar acordado, a fantasiar a realidade à sua volta? 

Você tem direito. Dentro da sua cabeça, ninguém manda, só você. E se hoje você tem que trabalhar e pagar contas, lembre-se de que, muito mais do que na infância, os sapos que você engole são muitas vezes decorrências de escolha que VOCÊ  fez, e não que alguém fez por você, o que torna (ou deve tornar) o sapo bem mais deglutível. Um relacionamento, um emprego, o que seja. Na idade adulta a sua escolha tem papel muuuuuuito maior na sua vida do que tinha quando vc era criança! Hoje você pode conhecer uma nova cidade e pensar "cara, que lugar fantástico, eu queria morar aqui!", e isso PODE acontecer. Vc não tem q pedir permissão a ninguém, vc tem apenas q se programar, se planejar, estudar, trabalhar, fazer o que for necessário, mas vc pode. Ninguém te impede.

Vc pode brincar, vc pode sonhar, vc pode comer brigadeiro se estiver doente, chorar de dor e de tristeza e de vergonha, vc pode. Reveja tudo o que a idade adulta te "tirou", reflita se vc realmente tem q viver sem isso. Se devolva. Se devolva uma boneca, se devolva um desenho animado. O que vc tinha de seu quando era criança era seu, não era emprestado, vc não tinha que devolver a ninguém. E creia, nunca devolveu. Tá tudo aí dentro, ainda. Saudoso e nostálgico, só esperando por você.


10 de mar. de 2014

O oitavo mês

Eu não sei se vocês sabem, mas eu tô grávida. Oitavo mês. À parte todo o "oh my god cacete já é mês que vem porraaaaaaa!", como era de se esperar, pensei algumas coisas novas durante esse período da minha vida. Como EU esperava, pensei coisas novas que continuavam cabendo na MINHA cabeça. Ao contrário do que muitos esperam, gravidez não é lobotomia. Continuei sendo eu, não estou vomitando arco-íris nem chorando glitter.

Uma das coisas que eu mais tenho pensado é como é chato que algo da sua vida PESSOAL tenha que ser SOCIAL. Social como um patamar, sabe? Como uma conquista, um degrau, um status, sei lá. Não sinto que tenho que compartilhar mais com todo mundo os sentimentos em relação à minha gravidez do que os sentimentos em relação, por exemplo, ao meu casamento, minha família. Mas há uma expectativa social em volta. De que minha vida gire toda em torno dessa "bênção", desse "milagre", desse "sonho". Uma das grandes dificuldades das pessoas é justamente entender que ser mãe não é um sonho para todas as mulheres. Há as que nunca sonharam com isso, e não se tornaram mães. Há as que não sonharam e acabaram sendo mães por acaso, sorte, azar, sei lá, pela vida, pelo sexo. Há as que não sonhavam com isso, mas decidiram fazê-lo. Sou eu. De um casamento muito legal, de um homem que amo, resolvi ter um filho. Que tal se fizéssemos isso? Que tal se incluíssemos essa aventura na nossa vida? Bora se meter nisso? Bora! Foi assim comigo. E de cara tinha gente que ficava até na dúvida se eu estava realmente feliz por estar grávida, porque não anunciei da maneira como se espera que seja anunciada uma gravidez, com frases do tipo "sou abençoada! uma vida floresce dentro de mim!".

Gente. Sou eu ainda, ok? Contei no Facebook por meio de uma piadinha tola e uma referência nerd, nunca mudei meu avatar pra uma barriga ou um sapatinho, não paguei book, não contratei arquiteto, não estou contando cada semana nem relatando cada chute. Conto algumas coisas, até faço perguntas aos universitários, faço piadas e reclamo (não é pra isso que serve a internet??), porque estar grávida é muito legal e uma das coisas mais doidas que já vivi, mas super tem montes de partes chatas, incômodas e até dolorosas. Basicamente, como eu já vos disse aqui algumas vezes: continuo sendo eu.

Não critico quem faz essas coisas, de modo algum. Pra muita gente é mesmo um sonho, então ótimo! Tem que curtir ao máximo o momento em que você realiza algo que sempre quis fazer. Só não faz sentido achar que esse é o único modelo aceitável, o único comportamento esperável. Eu nem entendo direito que me deem parabéns por estar grávida. Tá, eu entendo o que querem dizer, estão me desejando felicidades e saúde (quero ambas, podem me desejar!), mas se vcs pensarem bem não é exatamente uma conquista impressionante ter prole, fêmeas de todas as espécies fazem isso o tempo todo desde que o mundo é mundo. É a natureza. É muito muito legal, sim! Mas, minha gente, é natural. Não acho que uma mulher é menos mulher ou menos completa se nunca for mãe. Mulher tem que ser mãe se quiser ser mãe. Não pode ser obrigação.

E aí tem uma coisa que vem povoando minha cabeça desde o começo da gravidez. Estar grávida me fez ainda mais defensora da descriminalização do aborto. Mulher nenhuma merece ter de levar adiante uma gravidez fruto de violência, desrespeito, desespero, desesperança. Mulher nenhuma merece seguir uma gravidez já pensando em jogar uma criança no lixo. Carregar dentro do seu corpo por quase um ano a lembrança e o DNA de um momento horrível, de um homem horrível, NÃO. Ninguém deve ser obrigada a passar por isso. Porque, minha gente, há risco envolvido, em qualquer gravidez. Tudo vai bem e, de repente, pá! Aparece uma coisinha de nada num exame, e aí é repouso, dieta, remédio, vc fica com medo pela sua vida, pela vida do bebê. Passar por isso sem querer? Não, ninguém merece.

A quem interessar possa, sim, estou feliz, curiosa, cheia de medos e expectativas, dúvidas, desejos, vontades, e, na fase atual, sendo chutada vigorosamente pelo menino que deve estar habitando esta casa - do lado de fora da minha barriga - a partir do final do mês que vem. Conquanto seja bacana trocar algumas experiências com quem já passou por isso, cada experiência é única,sim, porque cada grávida é uma pessoa individual.

É, gente... Mãe NÃO é tudo igual. ;)

8 de mar. de 2014

pode me dar parabéns - dia internacional da mulher


o dia internacional da mulher não tem que ser feliz. ele tem é que ser desnecessário. mas não é.

vai ser desnecessário quando todos entenderem que homens não têm o direito de não deixar a namorada ou mulher cortar o cabelo e usar saia curta. que mulher não tem que "se dar ao respeito". que uma mulher não vale menos pela roupa que usa ou pelo jeito que dança (sim, vc tem o direito de achar a roupa feia, só não tem o direito de desrespeitá-la ou julgar seu caráter por isso, ok?). vai ser desnecessário quando vc não tiver mais medo que sua filha saia sozinha na rua do que seu filho. vai ser desnecessário quando vc não brigar com sua filha pq ela tava se agarrando com o namorado, enquanto que seu filho pode fazer o que quiser com a namorada dele. vai ser desnecessário quando meninas pequenas não tiverem que ficar ouvindo toda hora dos pais "fecha as pernas, menina!" quando estiverem de saia.

quando meninas não forem mais vendidas, exploradas sexualmente, exploradas como domésticas sem idade nem direitos. quando não morrerem mais pelas mãos dos seus companheiros por serem mulheres. quando uma mulher não tiver que esconder quantos parceiros já teve pra não passar por puta, enquanto um homem pode se vangloriar da sua lista. quando uma mulher não for julgada por outra mulher porque a casa está suja ou a roupa do marido está mal passada. quando a sociedade toda entender que pai não "ajuda" com as crianças, porque os filhos tb são dele e não é favor. que marido não "ajuda" com as coisas da casa, porque também mora lá e não é favor.

o dia de hoje é pra lembrar que tudo isso existe, que as conquistas foram muitas mas ainda insuficientes, que é preciso estar atenta e forte, que é preciso educar as crianças, meninos emeninas, para uma sociedade mais justa com todos os gêneros. não dê parabéns porque as mulheres são "emotivas", "delicadas", "sensíveis", "amorosas", "lindas". as mulheres são o que quiserem ser. estereotipá-las é diminuí-las. dê parabéns porque nasceram mulheres e enfrentam sem perder a vontade um mundo que não é feito pra elas, embora seja igualmente feito por elas.

1 de fev. de 2014

Vocês viram a novela ontem?

Tão comum essa pergunta... "Viu a novela ontem?"

Pois eu espero que vocês tenham visto. Ontem dois homens se beijaram na boca pela primeira vez numa novela brasileira.

Isso é imenso. A novela, especialmente a das 8, que virou a das 9, é o carro-chefe da ficção popular neste país. Se você tem algum apreço pelo objetivo de inserir definitivamente a homoafetividade no contexto do "normal" nesta sociedade, você com certeza torceu pelo beijo de Félix e Niko, como eu torci, mesmo sem ter assistido Amor À Vida.

[Entre dois homens. Entre duas mulheres já tinha acontecido no SBT, mas de verdade vcs sabem que existe uma diferença gigante de preconceito, né? Sem falar de impacto, líder de audiência, novela das oito. Então tá. Sigamos.]

Folgo em dizer que a maioria avassaladora dos comentários nas redes sociais foram de "viva!!" até "que lindo!!" passando por "finalmente!!" e alguns "shoray!". Porque foi mesmo muito, muito bonito, emocionante, coroando o trabalho maravilhoso de Mateus Solano que, pelo que sei, foi quem salvou a novela. Tenho uma quantidade descomunal de restrições ao trabalho do Walcyr Carrasco nessa novela, porque no que tange a trabalhar pelas minorias, ele prestou um desserviço nível Zorra Total com as mulheres obesas, com aquele personagem da Fabiana Karla, e eu faço parte dessa minoria muito discriminada. Mas reconheço que, não só pelo beijo no final, mas por toda a criação e trajetória do personagem Félix, ele merece o reconhecimento e o aplauso.

Como sou uma pessoa sortuda e bem-relacionada, não vi um único comentário homofóbico nas redes sociais!  Mas gostaria de comentar algumas reações de pessoas não homofóbicas que me deixaram incomodada por uma série de razões.

1) Teve gente que disse "Ah, mas essa novela foi horrível!"

E foi mesmo! Mas novela ruim tem toda hora, beijo gay na tv aberta em horário nobre, foi a primeira vez! Vc queria que tivesse sido numa produção de alta qualidade cultural? Vá ver o Canal Brasil e não vai faltar cena gay. É aqui que tá a transformação, meus queridos, é entretenimento popular, não é cult. É um casal homoafetivo sendo levado romanticamente a sério na rede aberta, e não virando chacota de novela das 7 ou Zorra Total.

2) Teve gente que disse "Não entendo essa polêmica, acho muito normal dois homens se beijarem"

E eu quis bater na cara da pessoa. Parabéns pra vc por não ser homofóbic@, mas sua atitude forçadamente cool está lhe cegando para o problema que você julga não existir. Como muito bem disse o editor do site Os Entendidos na página do Facebook, "se existia a chance de não acontecer, é porque o acontecer faria uma transformação". Você vê dois garotos se beijando no restaurante, na lanchonete, na escola, no ponto de ônibus com tanta frequência e naturalidade quanto um casal garoto + garota? Não, né? Então não é "normal", não pra sociedade em geral. A luta é pra tirar os gays da condição de exceção, esperteza, então sai pra lá com a sua displicência descolada que vc não entendeu nada da luta e só tá atrapalhando.

Minha única ressalva ao status d'Os Entendidos é quando eles acrescentam ao "faria uma transformação" a pequena frase "e fez". Infelizmente, queridos amigos desse excelente site, não sabemos ainda se fez a transformação. Saberemos no futuro, se não demorarem dez anos para mostrar um próximo beijo gay, sempre em último capítulo, com medo do ibope cair. Saberemos quando tiver beijo gay na Malhação, meu próximo objetivo global! ahahahaha! ;)

3) Teve (MUITA!!) gente que disse "Só isso?? Que beijo chocho, nem foi de língua!"

E eu igualmente quis bater. Eu sou bem implicante com gente que se engaja numa determinada luta com tanto sangue nuzói que acaba demonstrando mais interesse em chocar o lado oposto do que realmente conquistar um avanço na situação que tenta mudar. Na minha modesta opinião, o objetivo não é travar uma guerra com homofóbicos. É esvaziá-los! De argumentos, primeiro, e depois esvaziar suas fileiras mesmo! Eu não quero arrancar a pele de cada um dos homofóbicos (de alguns eu quero, sim) com óleo quente. Eu quero que eles não existam mais! É preciso entender que é muito difícil extrair o preconceito que já está instalado numa pessoa (mas não é impossível!!), então a verdade é que o grosso do avanço será feito em gerações. Se a geração do meu filho vir suficientes vezes gays e lésbicas namorando na tv, no cinema, no shopping, em qualquer lugar ou situação, assim como qualquer casal hétero, e sem ser perturbados, eles não terão base pra achar que isso é "errado" ou "anormal". Isso vai ser a (r)evolução.

Nota pessoal: uma vez,ainda morando em SP, eu estava esperando a Parada Gay passar descendo a Consolação pra poder ir pra casa. Passou uma moça com uma camiseta que lia "Sou bi". Meu marido me perguntou se eu gostaria de ter uma camiseta daquelas. Eu disse que não. Que o que eu queria mesmo era viver num mundo em que ninguém tivesse que vestir aquela camiseta. Ser "obrigado" a ter "orgulho" da sua orientação sexual, a meu ver, já é uma violência. Isso deveria ser completamente natural. Ninguém deveria ter nada com isso, não deveria ser uma "questão" fulana ser bi ou lésbica ou fulano sair do armário.

É preciso também entender que, no caso específico de uma novela das 8, estamos lidando com um produto que vende, talvez o melhor produto deste país. Esse produto tem um público, e é muita ingenuidade achar que a Globo até hoje não tinha colocado um beijo gay na novela porque é boba-feia-chata & homofóbica.  Nunca tinha colocado porque ainda julgava que o efeito seria mais negativo do que positivo com o seu público. Apenas isso. Colocou quando sentiu que o clima estava lá, propício, que a situação exigia, e que poderia, enfim, agradar o novo público que exigia o beijo gay sem repelir o público antigo, porque já estavam mesmo todos apaixonados pelo Félix. Genial, não? Ainda bem! Porque nem eu, que não sou executiva da Globo, gostaria de ter logo de cara chocado as vovozinhas de 80 anos que assistem novelas há décadas e tirá-las do público desse produto que, enfim, agora parece que vai acertar o pé nesse quesito. Seria igualmente um desserviço. Elas desligariam a tv falando mal de tudo, chocadas, horrorizadas, tornadas ainda mais preconceituosas. Por outro lado se elas continuarem vendo novelas e outros beijos acontecerem, naturalmente, esses beijos naturalmente evoluirão e ela talvez até sorria pro novo namorado do neto dela. Afinal se na novela tem, né? Então tudo bem.

6 de jan. de 2014

Luxo e necessidade

Eu fico realmente impressionada (e entristecida, e preocupada, e chocada) com a dificuldade que certas pessoas têm de diferenciar luxo e necessidade. Achar que a cidade tá o cão de quente e sonhar com um ar-condicionado central na sua sala, meu amor, todo mundo, né? Mas daí a achar que é item de primeira necessidade, achar que não dá pra viver sem carro, sem ar-condicionado, que é PRECISO trocar o seu iPhone só porque saiu o novo? Se vc quer e pode trocar, viva, beleza! Se vc quiser me dar um split de presente pra minha sala, serei eternamente grata. Assim q eu puder, o farei eu mesma! Mas juro que sobrevivo com ventilador. Banho é de graça e refresca q é uma beleza.

Juro que já teve gente que me perguntou se as pessoas ainda andavam a pé pros lugares aqui em Belém, porque, porra, é quente demais. Não, meu bem, aqui TODO MUNDO tem carro com ar-condicionado.Vem pra K q nosso PIB é dinamarquês!

E tem realmente MUITA gente que acha que babá e/ou empregada e/ou enfermeira (!!) são NECESSÁRIAS quando se tem um bebê. Gente. Hello, né? Necessário pra ter um bebê é sexo e leite, nessa ordem. Eu não tenho absolutamente nada contra quem contrata toda a ajuda possível, mas convencer-se de que é impossível passar por esse momento sem "enfermeira noturna pelo menos nas duas primeiras semanas" é viver numa realidade tão irreal, num mundinho de tão tão poucas pessoas, que sem perceber você está alijando do seu mundo todo mundo que consegue ter um filho sem essa ajuda extra. Por exemplo, a sua babá, a sua enfermeira noturna, a sua empregada, a sua mãe, a sua avó!

O pior é que geralmente essas pessoas acham admirável que europeias e norte-americanas tenham suas proles sem essas porra tudo. "Não sei como as americanas vivem sem empregada e babá". Ah, sim, porque as brasileiras TODAS têm empregada e babá.

Eu fico sem fala...

É claro que ninguém vai deixar um bebê sozinho em casa, não se trata disso. Se vc trabalha fora (tenho perfeita consciência de que meu caso é um luxo e uma exceção, já que eu e meu marido trabalhamos em casa), vai precisar de um esquema pro seu bebê. Uma babá, uma creche, escolinha, enfim. Mas acreditar que vc não consegue ir ao supermercado ou ao shopping ou viajar sem a babá...Aí, desculpa, vc me preocupa um pouco como mãe. Leve a babá pra onde vc quiser, contrate sua enfermeira noturna e durma todas as noites tranquilas, de boa. Mas, amiga, entenda que isso é LUXO, e não necessidade. Garanto a você que é possível ir ao shopping só vc e seu bebê ou seu filho que já anda, corre e grita aos dois anos e meio feito a pestezinha duzinferno mais adorável. Dá mais trabalho, é óbvio, mas acredite: é possível.

16 de fev. de 2013

Querer, poder, saber, conseguir

É tão difícil receber críticas. Pra mim é. Especialmente de quem eu gosto e admiro. Talvez eu também não saiba criticar, me omita, por medo de magoar. Talvez seja preciso aprender.

Pessoas que se gostam, respeitam, admiram, amam até, não precisam concordar em tudo. Quando começamos uma amizade ou um amor, sempre aparecerão novidades, novas descobertas sobre o outro, e algumas delas podem pôr em cheque todo o bom sentimento anterior. Você já está amiga daquela moça afetuosa e inteligente há mais de um ano. Numa conversa, descobre que ela é preconceituosa. O cristal se quebra. Nunca mais, nada será igual.

Talvez a amizade acabe, se for algo de grave (pra mim, preconceito é). Mas bom mesmo é quando você descobre uma diferença e você aprende a respeitar. Meu melhor amigo só gosta de azul. Ele é meio radical com azul, e eu adoro azul também. Quando estamos os dois vestindo azul, ele está feliz e lembra de porque me ama. Mas eu também visto verde, amarelo, roxo, e acho que gosto mais de rosa e branco do que de azul. Nessas horas acho que ele esquece um pouquinho do porque me ama. Talvez se questione. Não sei o quanto o azul é importante pra ele. Eu gostaria de ser mais importante que o azul e gostaria que ele não gostasse menos de mim quando uso rosa pink.

Eu uso rosa pink. Eu entendo o negro, o cinza, o bege, acho bonito, mas eu sou rosa pink. Eu sou alegre. Eu sou otimista pra caralho, eu faço jogo do contente, eu sou uma escritora que, quando mira pra cima, mira em JK Rowling. E não é que eu não possa mirar, sei lá, em Eça de Queirós. Eu adoro. Mas não é pra onde segue minha mira natural.

Por que é tão difícil compreender que uma pessoa que goste de Bach e Chico Buarque possa preferir compor sertanejo? Não, eu não gosto de sertanejo. Estou dando um exemplo. Estou falando de mim, de expectativas a meu respeito, não só minhas, mas também dos outros. Mas também minhas. Eu alcanço García Márquez, eu alcanço Eça, Zola, Tolstói, Balzac, Shakespeare. Eu os alcanço, eu gosto deles, mas eu, o meu eu mesmo, a minha estação de rádio toca na frequência de Rowling, Gaarder, Bantock, Christie, Doyle, comercial de margarina (eu sei, Ane! sou eu que estou dizendo, tá amore?) e de Coca-Cola. Eu sei que existe uma hierarquia de erudição, tenho plena consciência disso. Talvez eu simplesmente não queira ter uma multinacional e fique mais contente com uma bodeguinha de interior. Talvez eu prefira a vida de balconista à de CEO da literatura. Eu adoro a sensação eufórica da minha escrita, eu adoro a euforia na minha vida, das paixões sem motivo, porque paixão não tem que ter. Eu adoro procurar e criar alegria, provocar o riso, o heart racing, o inclinar da cabeça e o enternecer. Eu gosto de provocar o prazer imediato. Talvez eu queira vender chocolate, e não absinto.

Mas há muito a aprender. Há quem ache que vendedor de chocolate é uma coisa idiota de se almejar como carreira. E eu entendo perfeitamente as vantagens de vender ambrosia e absinto. Acho luxo. Acho glam. Eu compraria seu absinto e sua ambrosia. Um torrão de açúcar, uma colherinha de café do seu caviar. Eu não te acho besta, prometo. Eu acho do cacete você ser de raiz e preferir vender rapadura e pé de moleque. Na sua banquinha toca samba e não entra chocolate belga. Na minha entra e eu toco Adele, e eu adoro, então não me desculpe, porque não vou pedir desculpas pelo meu gosto.

Minhas preferências não me limitam, eu luto diariamente por isso, acreditem. É consciente, é uma escolha minha diária. Não me limitar pelos meus gostos, pelas minhas preferências. Mas são minhas, e são eu. Eu alcanço muitas estradas, eu poderia trilhar muitas, muitas delas. Mas eu escolho a minha.

Eu podia estar matando, eu podia estar roubando. Estou só me divertindo. É assim que sei viver. Pelo prazer.

29 de out. de 2012

De que lado você samba? (Você samba de que lado?)


Ah, política, sua ingrata. Atraente, linda, vistosa, irresistível. Aquela de quem todos falam, mal ou bem, que amam ou odeiam. Todo mundo tem alguma opinião sobre essa entidade feminina controversa, necessária feito mãe, meio madrasta por vezes, é verdade. Mas cá estamos todos nós, envoltos nela mesmo aqueles que não querem, que resistem. Ser apolítico também é uma posição política.

Desperta paixões, talvez nem devesse, mas assim o faz. Seria melhor que fosse refletida, racional? Pode ser, mas nem sempre é. É que mete no meio a esperança, o sonho, e aí o coração bate mais forte, e aí a gente se joga de cabeça e com tanta vontade que muitas vezes quebra a cara no fundo da piscina. E lá no fundo acabamos por ver um mundo submerso não muito bonito.

Desiludir faz parte da política, é aprendizado, é abrir os olhos, é amadurecimento. É na marra, é doído, como quando a gente termina o primeiro namoro, leva o primeiro chifre. Mas fortalece, esclarece. Descobrir que a utopia só está, e só pode estar, nas nossas cabeças é necessário, é preciso. O sonho, sim, este a gente deve levar diante dos olhos, pra seguir como objetivo, pra não perder a mira. A utopia, porém, essa não existe. Ela é que pode levar a desilusões tão fortes capazes de criar o ser apolítico, o que prefere desacreditar de tudo e de todos, já que não há a perfeição.

Porque não há a perfeição. Não é só na política, a perfeição simplesmente não há. Tê-la como objetivo já é um perigo, pois a frustração é certa. Não há homens e mulheres perfeitos, portanto não há políticos e governos perfeitos.

Dito isso, e parafraseando o D2, pergunto-vos: de que lado você samba?

Engana-se quem pensa que a direita e a esquerda morreram. Não morreram. Hoje em dia o ranço da ditadura esvaziou muito a direita, e quase ninguém tem coragem de se admitir na direita, seja partido, seja eleitor. É natural, a ditadura ainda é muito recente, os que a viveram formam hoje boa parte dos quadros dos partidos políticos, de ambos os lados (sem esquecer, é claro, o centro). Imagino que o mesmo deva acontecer em países que viveram ditaduras de esquerda, sei lá.

Às vezes penso que gostaria de ter vivido algumas décadas atrás, onde era muito mais bonito ser de esquerda. Sempre fui de esquerda, nunca fui socialista nem comunista. Sim, isso é possível. A esquerda existe desde antes de Marx, e eu tinha 11 anos quando caiu o muro, ou seja, me formei como ser político já num mundo onde o socialismo era uma opção testada e falhada.

Onde é que você vê a diferença entre a esquerda e a direita? De minha parte, acho que não é tão difícil ver. O caboco que vota na direita é aquele cara que respeita o "mercado" como uma entidade superior, que tem vida própria e leis próprias, e que o certo, o natural mesmo é "laissez faire, laissez passer". Pra ele, o governante é gerente, é gestor, o país é uma empresa, que tem que funcionar azeitada, pererê parará. Investir no social é investir na educação, porque só povo educado vai conseguir bom emprego, votar direito, subir na vida.

Eu sambo do lado da esquerda. Pra mim, função de governo não é somente organizar, gerir. É gerar também, é cuidar. Governo tem obrigações com o povo, tem que cuidar pra que tenham o que comer, remédio, o que vestir, oportunidade, aula, escola, casa. Estranhamente, acredito que a esquerda é o único modo de fazer funcionar o capitalismo. O capitalismo é, por si só, excludente, é da natureza do sistema. Não cabem todos no topo dessa pirâmide, não pode haver topo sem haver a base imprensada, espremida, arroxada. Como também não acredito que haja, hoje, opção ao capitalismo, governos de esquerda são a única solução para que o grosso da galera, que tá na base, tenha o que comer, vestir, beber, como viver. É preciso essa atenção, essa prioridade é absolutamente essencial. É preciso adaptar o capitalismo à humanidade.

A não ser que se esteja disposto a abrir mão de algumas vidas, a sacrificar os mais fracos porque é assim mesmo que funciona. Não estou disposta a isso. Entendo que o sistema econômico não é justo e luto para eleger governos cuja prioridade seja compensar esse desequilíbrio, dando a mão mesmo, dando ajuda mesmo. Sou a favor do que se chama de assistencialismo. Não acho "normal" que haja os que morrem de fome. É isso que deve ser combatido. É pra isso que serve a esquerda.

A esquerda no governo, eleita democraticamente, está fadada a decepcionar aqueles que, no fundo no fundo, sonhavam-na revolucionária. Sonhavam-na lutada, sangrada. Quando ela é lutada e sangrada, desculpem-me os meus amigos que assim a preferem, ela mata antes, durante e depois. Ela mata no poder. Ditadura não me serve, nem de direita nem de esquerda. Me alegra viver num país em que posso escrever este texto e publicá-lo, que eu possa vaiar alto nas ruas um candidato a quem me oponho se eu quiser, porque sei que não vão me prender por chamar um prefeito, governador ou presidente de filho da puta. Sei que a revolução faz parte, muitas vezes é necessária pra fazer a ruptura, sou historiadora e não sou inocente. Mas pessoalmente, o meu eu político não apoiaria um Robespierre. Taxas baixas de analfabetismo ou excelentes números de saúde em Cuba não justificam prisões, cala-bocas, falta de liberdade de imprensa e de opinião.

E igualmente aqui, no Brasil, o bom funcionamento de diversos setores infraestruturais durante a ditadura não justifica as torturas, as mortes, as perseguições. É fácil trabalhar num governo ditatorial, mais fácil do que num governo democrata. Não há jogo político, não há opções. Você senta e trabalha. Não tem que fazer acordo com outros partidos, não há partidos. Escolhe uns caras muitas vezes bastante competentes e os põe pra trabalhar nos cargos certos. Faz-se a mágica, tudo funciona, e aquela parcela da população que não tem opinião política acha que tudo vai bem. Mas é claro, ninguém discute, ninguém se opõe, e quem o faz: chumbo. Não quero pagar esse preço. Nunca mais.

Não posso, nem tenho por que, desejar que o passado do Brasil tivesse tido mais sangue. Que a Independência tivesse nascido de uma guerra, ou a República, enfim. Foi assim que se formou o meu país, e o passado já passou. Quero, e preciso, crer que é possível amadurecer politicamente através da democracia. E tenho tido recentemente boas razões para acreditar nisso.

19 de out. de 2012

Avenida: a mania do Brasil

Enfim me resolvi a escrever um post sobre Avenida Brasil. Mentira. Não é sobre a melhor novela do século, mas sobre a novela que se desenrola em cima da novela.

Acho que já discorri sobre este tema umas duzentas vezes, mas não me canso de bradar (escrevendo, que a voz já não pode) contra o patrulhamento cultural que grassa hoje nas redes sociais (antes pelo boca-a-boca, quando era menos eficaz e menos aborrecido).

Lembrete 1: sei que isso pode ser duro para muitas pessoas, mas não ver novela não faz de você uma pessoa mais inteligente. Dito isto, sigamos.

Novelas existem muitas. Algumas péssimas, muitas razoáveis, várias boas e poucas excepcionais. Não é preciso ser muito esperto para perceber que estamos diante de uma novela excepcional. Poderia discutir o que faz uma novela excepcional: autor, elenco, direção. Mas vcs já sabem de tudo isso, pipocaram artigos, posts, reportagens sobre Avenida Brasil, carinhosamente chamada de #oioioi. O que me interessa aqui, no que diz respeito a uma novela excepcional, é a excepcional onda que ela forma, é o público de novela multiplicado excepcionalmente, é a montanha de reações simultâneas nas redes sociais, botecos, salões de cabeleireiro. É seu efeito excepcional na galera.

Lembrete 2: cultura produzida para poucos não é necessariamente melhor.

Salta-me aos olhos, daqui do meio desta alegre turba de brasileiros rendidos à sua mais popular forma de dramaturgia, um grupo de brasileiros com cara fechada, ofendidos com a empolgação dos fãs de Avenida Brasil, torcendo pra que esta merda de populacho acabe logo e o país possa voltar à sua habitual erudição, quando toca Villa-Lobos nas ruas e todos dançam valsas vienenses e discutem Barthes e Benjamin nos aniversários da sua família. Esse grupo é aparentado daquele outro grupo que torce pro Brasil ser eliminado na Copa do Mundo pra ver se as pessoas mudam de assunto. Alegria de populacho ofende, porque populacho é maioria e fala alto.

Eu sou noveleira pra cacete, daquelas que vê na internet o pedaço da novela que perdeu, que fica gastando banda em Paris pra ver vídeo de Avenida Brasil, que , se der, vê Vale a Pena Ver de Novo, Malhação, novela das seis, das sete (menos preferidas) e das nove. Gosto de ficção, novela, romance. Por esse mesmo gosto, leio Balzac, Shakespeare, Pessoa, Wodehouse, Leroux, Molière, Sartre, mas prefiro Camus, Dostoiévski, mas prefiro Tolstói. Leio mais de 20 livros por ano, e acho um horror de pouco. Não estou me gabando. Só queria que algumas pessoas pensassem que culturas nunca deveriam ser excludentes. Uma mesma pessoa pode gostar de ler Paulo Coelho e Eric Hobsbawm. Isso existe.

Lembrete 3: unanimidades podem ser burras, mas se vc tem como princípio que as maiorias estão sempre erradas, você é um babaca.

Não acho que todo mundo tem que gostar de novela, nem de Paulo Coelho. Mas acho, pessoalmente, um pouco pobre quem acho belo e bonito desmerecer produtos culturais nacionais de tão grande sucesso, tipo dizer que Paulo Coelho não é literatura. Que novela não é cultura. Que pagode não é música. Existe qualidade e existe gosto, mas, por favor, entendam que isso são conceitos PESSOAIS, e não absolutos. Alguém aí duvida que Shakespeare, Molière e Balzac eram os autores de novela de seus tempos e países? Dramas, comédias, paixões. A gente vê por aqui, na Globo, na Record, no SBT (ai que saudade d'As Pupilas do Senhor Reitor!), nos palcos do Globe e de Versailles, agora ou centenas de anos atrás.

Deixe de lado seu complexo de vira-lata, de achar que o que faz sucesso no Brasil é sempre porcaria porque brasileiro é burro. Porque, como dizia o filósofo, se brasileiro é burro, e você é brasileiro, logo, você é burro. E eu também. ;)

5 de abr. de 2012

Introversão não é timidez, e definitivamente não é defeito

Este artigo da Folha já é o segundo que leio sobre o trabalho de Susan Cain sobre a introversão. Estou fascinada com o que diz esta mulher e eu, que não sou chegada a livros de não-ficção, estou louca pra ler seu livro. Mal posso crer que realmente conseguiram fazer uma definição onde me encaixo.

Quem me conhece sabe que não sou tímida. Não tenho medo de falar em público, não tenho medo de abordar alguém que não conheço. Mas sou provavelmente conhecida como chata, antissocial, antipática, furona. Dou desculpas para não ir a encontros de amigos (pode ser uma única e grande amiga, podem ser dez ou vinte conhecidos, colecionadores de bonecas, por exemplo) desde que me entendo por gente e sempre preferi ficar em casa. E só. Eu amo ficar só. Não é que você seja chato (bom, às vezes vc até é), mas é que são raras as vezes em que vou preferir o contato social à quietude da minha casa, das minhas coisas. Enfim, da minha MENTE.

Eu sei trabalhar em grupo, mas não prefiro. E se for pra ser assim, acabo preferindo fazer logo tudo ou delegar tarefas e "tchau, cada um pro seu lado, depois a gente junta a tralha toda". Numa festa, se eu não participar da brincadeira, não é que eu "não tenho coragem", eu apenas NÃO QUERO. Nada é mais violento para um introvertido do que ser puxado para o trenzinho da festa de carnaval ou para uma introvertida ter um chá de panela inteiro gritando seu nome e lhe empurrando para as brincadeiras da animadora. Mesmo não sendo tímido, o introvertido não quer, simplesmente. Dá pra respeitar?

Vivemos numa ditadura de extroversão! Desde a escola temos que participar, fazer amigos, responder em voz alta. Apesar de ser uma introvertida, depois de começar a ler sobre o assunto percebi que, como professora, eu também agia errado, quando "impunha" trabalhos em grupo (eu não "impunha" realmente, mas não apresentava opção). Hoje em dia eu tenho apenas sugerido: quem quer faz sozinho. É impressionante o resultado: alguns alunos simplesmente abaixam a cabeça e começam a trabalhar: outros olham pro lado, buscam um colega que também está em busca de alguém e pronto, trabalham juntos. Algum está certo? Ou errado? Não. Errado é forçar a pessoa a aprender (ou a agir, ou a se divertir) de um jeito que lhe contraria.

Uma vez eu estava numa festa da empresa, lá em São Paulo. Era uma festa daquelas que duram um dia inteiro, num sítio, tem churrasco e centenas de pessoas. Eu tinha conseguido evitar ir a essa festa nos dois (ou três?) primeiros anos de trabalho. Quando eu fui, conversei um pouco, ri, comi e procurei um lugar confortável para sentar e ler o Luiz Fernando Veríssimo que eu estava lendo na época. Não demorou cinco minutos até a minha inocente atitude incomodar um extrovertido. E veio uma colega, falando alto: "ei, o que vc tá fazendo aí sozinha?? Hoje é Dia do Lazer!" (esse era o nome da festa). Ao que eu imediatamente tive que responder: "mas eu tô lendo Veríssimo e morrendo de rir, tu achas que eu não tô me divertindo??"

Gente puxando conversa em avião, sala de espera de médico, gente que tem alergia a duas pessoas em silêncio: por favor, respeitem os quietos. Ser quieto e ser feliz é possível, embora os extrovertidos achem improvável. Mas fica mais difícil ser feliz com esse povo puxando a gente pra pista de dança...

8 de mar. de 2012

Eu gosto de ser mulher, como dizia a canção

Não se assuste. Ninguém tem o objetivo de ser piegas aqui.

Por muito tempo eu tive bronca com este dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Porque achava que parecia um Dia das Mães subalterno, uma apologia a frescuras atribuídas ao gênero feminino, uma desculpa de encher rede social de mensagens piegas e fotos de flores e de mulheres grávidas e pra vender flor no semáforo. Hoje em dia, tô tentando pensar diferente.

Talvez seja porque eu nunca apanhei, nunca fui estuprada, não sou explorada em casa pelo meu marido. Nunca senti na pele o que muitas, muitas mulheres ainda sentem (e mais ainda são as que já sentiram, no passado): a discriminação de gênero.

Assim como a discriminação de raça, às vezes ela está bem escondidinha. Acho bacana uma cena do filme Little Women em que a Winona Ryder, no papel de Jo March, debate o voto feminino com uma série de homens. Alguns defendem o voto feminino, porque a mulher é doce e delicada e talvez seja justamente disso que a política esteja precisando. Como assim? Os homens votam porque são homens e as mulheres votam porque são fofas? Jo March não deixa barato.

Ainda tem muita coisa pra mudar. Ainda é preciso terminar a Revolução Feminista, equilibrar a divisão desigual de tarefas. A mulher chegou a postos anteriormente masculinos e vestiu calças, mas as tarefas consideradas femininas, como cuidar da casa, dos filhos, ainda são consideradas tarefas inferiores às masculinas. Uma mulher que resolve ser dona de casa é considerada menor do que uma que trabalha fora, um homem que faz as tarefas de casa em vez de trabalhar fora é um encostado. A mulher "ascendeu" aos postos masculinos, o que só prova que eles sempre foram considerados superiores!

Você já parou pra se perguntar por que homossexualismo feminino pode ser só um fetiche, coisa de cama, sem fazer da mulher que o pratica ocasionalmente uma lésbica "oficial"? O masculino, jamais. Beijou um homem, transou com um homem, é viado. É algo definitivo demais, cruzar essa fronteira. Por que o homossexualismo masculino é chocante, e o feminino é delicado? Atraente e excitante, até? Porque o mundo masculino não se flexibilizou. Não se permitiu cruzar a fronteira para o mundo feminino, pois este é "menor". Degradante.

Super Homem, a canção

Um homem que admite uma "porção mulher" pode logo ser taxado de viadagem, ao passo que a mulher, quando é "muito macho", é forte, corajosa. Gil e Madonna servem muito bem para o dia de hoje, para você pensar na sua porção mulher sem medo nem preconceito. E pra você, mulher, deixar de pensar que é característica sine que non de feminino ser sentimental, frágil, fazer as unhas, não entender de futebol, depilar, ser mãe. Mulher é tão livre quanto homem, ou tem que ser.


"Girls can wear jeans
And cut their hair short
Wear shirts and boots
'Cause it's OK to be a boy
But for a boy to look like a girl is degrading
'Cause you think that being a girl is degrading
But secretly you'd love to know what it's like
Wouldn't you
What it feels like for a girl"





What it feels like for a girl



O que é ser mulher?

Ora, caralho, o que é ser homem? Alguém fica definindo isso? Não, porque o homem é livre. Socialmente, historicamente, politicamente. O homem não precisa se partir em mil. Ele pode, ao mesmo tempo, ser macho, ser pai, ser profissional. Isso faz parte do homem. Pai não deixa de ser homem-macho. Homem-macho não deixa de ser profissional. Mas mãe parece que é menos mulher-fêmea. Se a mulher for bonita-sensual, já perde ponto no profissionalismo. As coisas não podem se confundir, porque sensualidade feminina é degradante. Do you know what it feels like for a girl, meu caro?




Este dia serve para não deixar esquecer o que já se conquistou nesta luta e o que falta conquistar. E não pra ganhar parabéns de taxista e rosa de gerente de banco.


E pra encerrar a discussão...


"Que diferença da mulher o homem tem?
Espera aí que eu vou dizer, meu bem
É que o homem tem cabelo no peito
Tem o queixo cabeludo
E a mulher não tem"

9 de nov. de 2011

Da USP e dos preconceitos que eu também tenho

Pois é. Eu vinha, até agora, abstendo-me de opinar publicamente (interneticamente, digo) sobre os episódios da USP, simplesmente porque não é o tipo de episódio em que eu acho que se possa confiar totalmente na versão da velha mídia (poucos são), e como era a fonte que eu tinha, abstive-me.

Mas agora resolvi falar. Ui. Nada grave, minha gente.


Fui FFLCH, antes disso fui CFCH, e pra quem não sabe, isso é a FFLCH da Federal do Pará. Tive duas experiências de universidades públicas, em Belém e em São Paulo, e só vou falar do que sei.

Não fiz parte do movimento estudantil (com isso digo que não me candidatei a nada), mas votei quando foi preciso, em diversos tipos de pleitos, tinha opinião, tinha amigos nas chapas, conheci vários tipos de pessoas, e posso dizer que a História da UFPA era muito mais ativa politicamente que a da USP. Na USP, já ia de longe avançando o processo (triste) de despopularização da universidade pública. Com esse floreio quero dizer que em Belém, quando eu era universitária, tinha muito mais gente pobre na universidade pública que na privada, e em São Paulo já era o contrário, porque via de regra o cara que tinha estudado no colégio pior não dava conta de passar na FUVEST e tinha que ralar pra pagar uma universidade privada. Isso já muda o perfil da galera.

O pessoal da UFPA já tava trabalhando, tinha que dar aula, estudei com gente que mal tinha dinheiro pra pagar o ônibus pra ir pra universidade, juro. Eu era uma das únicas pessoas com carro e celular em 97 na Federal. Já na USP, era difícil achar vaga pra estacionar no prédio da História.

Conheci sim, muito vagabundo. Engajados ou não, pq tb tem o cara que não tá nem aí pra estudar e nem por isso tá no movimento. Não liga pra nada. Infelizmente muita gente só quer balada, bebida e sexo. Não faz meu tipo. Também vagabundeei, mas meu estilo era mais a preguiça que o forró de sexta do Vadião (pra quem conhece a UFPA, dispensa apresentações).

Tem vagabundo no movimento estudantil? Claro que tem, né? Mas num tem em todo canto? Às vezes eu me irritava com a chatice do movimento, que pode ser muito chato sim senhor, e achava patético aquele povo fumando largado num sofá do Aquário (pra quem conhece a História-Geografia da USP, dispensa apresentações) em vez de estarem na aula. Bom, mas morei anos na frente do Mackenzie e achava igualmente patéticos os alunos bebendo cachaça direto da garrafa dentro de um saquinho do Pão de Açúcar, como se fossem mendigos. A juventude desperdiçada sempre me angustiou e irritou. Sim, eu sou CDF. Já perdi a vergonha disso faz tempo.

E eu tinha medo da violência. Houve casos de estupro tanto na UFPA quanto na USP no meu período de universitária. Em princípio, eu não veria mal algum em ter policiamento no campus, sinceramente. Repito: não sei como era a situação, não sei se havia reclamações fundamentadas dos estudantes a respeito dessa convivência antes do episódio virar notícia. Outra coisa que acho é que nada justifica a depredação do patrimônio público. Tem uma boa razão, quer ocupar, quer protestar? Tem todo o meu apoio. Esforce-se para não perder a razão e, com isso, o argumento. Quando se é jovem, porém (e eu não esqueço que já fui), pouca coisa é mais fácil do que perder o limite.

Quem detém a força também pode perder o limite, todos podem, e eu também conheço um pouco do tamanho do preconceito que boa parte dos policiais aprende a ter contra os estudantes. Não esqueçamos de colocar isso na equação.

Conflito de gerações faz o mundo andar, mudar. É natural e saudável. Existe dentro do jovem a vontade de mudar alguma coisa, de questionar, e quando não aparece nada de realmente grave (sim, tipo, derrubar uma ditadura, como todos estão comentando), essa força pode sim acabar sendo usada pra coisas menores. Ela pode, no entanto, começar com algo menor (vide Maio de 68) e se desenvolver como algo imenso. O senso político não deve morrer durante a democracia, ok?

Lutar pelo direito de fumar maconha no campus? Sinceramente, acho isso uma bobagem. Mas quem disse que a coisa toda se encerra nisso? Eu não disse, porque eu não sei.

P.S.: Não falei dos meus preconceitos? Bom, eu desenvolvi um certo preconceito contra os estudantes envolvidos no movimento estudantil, porque a maioria dos que conheci não queriam saber de mais nada na vida, só de jubilar. Não procuravam entender outras opiniões e gostavam de se fazer de vítimas do mundo, coisa que acho das mais feias no mundo. Mas eu sempre estou atenta aos meus preconceitos. Ou tento estar.

4 de nov. de 2011

"A vida é uma loteria gigante, da qual só se vêem os ganhadores"


“- Você deve saber que metade da população da Noruega sucumbiu à peste.. Só que existe aí uma coisa de que nunca falamos.
Quando ele começava assim, eu já sabia que ia ter de ouvir uma longa explanação.
- Você tem consciência de que naquela época você tinha muitos milhares de antepassados? - perguntou meu pai.
Balancei a cabeça em sinal de dúvida sobre o que ele havia dito. Como aquilo podia ser possível?
- Todos nós temos um pai e uma mãe, quatro avós, oito bisavós, dezesseis tataravós, e assim por diante. Se você for fazendo as contas até voltar a 1349, vai chegar a um número bem grande.
Concordei.
- Então veio a peste. A morte rondava os povoados, um a um, e as crianças eram as suas maiores vítimas. Em algumas famílias morreram todas as crianças; em outras, uma ou talvez conseguiram sobreviver. Naquela época, Hans-Thomas, muitas centenas dos seus antepassados eram crianças. E nenhum deles morreu.
- Como é que você pode ter tanta certeza disso? - perguntei intrigado.
Ele deu uma tragada no cigarro e continuou:
- Porque você está bem aqui ao meu lado, olhando para o mar Adriático.
Essa foi mais uma daquelas conclusões surpreendentes , que me deixavam sem saber como reagir. Uma coisa era certa: meu pai tinha razão, pois se apenas um de meus antepassados tivesse morrido quando criança, ele ou ela não poderia ter sido meu antepassado.
- A probabilidade de nenhum dos seus antepassados ter morrido ainda criança era uma para muitos bilhões - prosseguiu ele. E a partir daí suas palavras começaram a jorrar como água de um dique que se rompe: - Pois não estamos falando aqui apenas da peste, entende? Todos, todos os seus antepassados cresceram e tiveram filhos em épocas que foram palco das mais terríveis catástrofes naturais e que, além do mais, possuíam índices assustadores de mortalidade infantil. É claro que muitos deles chegaram a ficar doentes, mas o fato é que todos sempre sobreviveram às enfermidades.. Assim, por muitas centenas de bilhões de vezes você esteve a um milímetro da morte, Hans-Thomas. Sua vida neste planeta foi ameaçada por insetos e animais selvagens, meteoros e raios, doenças e guerras, enchentes e incêndios, envenenamentos e tentativas de assassinato. Só na guerra dos Trinta Anos você deve ter se ferido muitas centenas de vezes, pois você deve ter tido antepassados de ambos os lados. Sim, no fundo, você travou uma guerra contra si mesmo e contra suas possibilidades de nascer três séculos mais tarde. E o mesmo vale para Segunda Guerra Mundial: se algum bom norueguês tivesse abatido o seu avô durante o período da ocupação, nem você e nem eu teríamos nascido. Estou falando de uma coisa que aconteceu muitos bilhões de vezes ao longo da história. Todas as vezes que uma seta cortou os ares sibilando, as chances de você nascer foram reduzidas a um mínimo. Mas aí está você, Hans-Thomas, sentado bem ao meu lado e conversando comigo. Entende?
- Acho que sim - respondi. Pelo menos achava que entendia o quanto tinha sido importante o pneu furado na bicicleta da minha avó durante aquele passeio em Froland.
- Estou falando de uma única e longa cadeia de acasos - prosseguiu meu pai. E essa cadeia pode ser acompanhada até chegarmos à primeira célula viva, que se dividiu e com isso deu o pontapé inicial para tudo o que cresce e medra hoje em dia no planeta. A probabilidade de que a minha cadeia não se interrompeu em algum ponto do passado ao longo de três ou quatro bilhões de anos é tão pequena que quase não podemos imaginá-la. Isso mesmo, diabos, aqui estou eu! E sei que sorte do cão eu tive para ter o prazer de desfrutar deste planeta na sua companhia. Sei da sorte que teve cada pequeno ser vivo deste planeta.
- E aqueles que tiveram azar? - perguntei.
- Eles não existem! - gritou ele. - Nunca nasceram. A vida é uma loteria gigante, da qual só se vêem os ganhadores.
[O dia do curinga, Jostein Gaarder, p. 139-142]

"Just" a spoonful of sugar

[achei o começo deste post escrito num arquivo por aí, e terminei hoje]

Prometi um dia que a escolha consciente de ter uma vida mágica e fantasiosa seria assunto pra mais um post, e cumpro. O filme “A Loja Mágica de Brinquedos” continua em pauta, mas o guia luxuoso da escolha desse mundo é uma obra-prima do cinema universal: Mary Poppins.


Deve ser a idade, que vai deixando a gente acreditar que as pessoas estão interessadas na nossa visão do mundo (Weltanschauung), e que foi me transformando nessa criadora de temas de auto-ajuda. Auto-ajuda mesmo, porque eu invento tudo pra mim. Só ajudo a mim mesma, vou logo avisando. Quem gostar, que goste. E quem quiser sorrir, que “sorra”. Eu “sorro”. E vamos lá.


A cena da Loja Mágica que mencionei no post sobre Molly Mahoney é ilustrativa da minha visão do que pode realmente ser a magia na vida real. A loja está toda cinza e sem vida depois da partida de Mr. Magorium, e o garoto pega um brinquedo pra brincar. Minutos depois, o brinquedo ganha cor de novo, porque não é mais “só” um brinquedo, é um brinquedo que tem uma pequena história com aquele garoto.


Todo mundo nesta vida pode tender a ser um Mutante, e achar que tudo é “só”. “Só” um filme, é “só” uma boneca, é “só” um gato, é “só” um desenho no chão. Mas eu, você e a Mary Poppins sabemos que não é. É um filme que te fez chorar e pensar, é uma boneca que você desejou muito e que agora te diverte e que é só sua, é um gato que você ama muito mais do que devia amar, é um desenho no chão feito por um cavalheiro divertidíssimo e que pode te render um dia alegre com sua babá perfeita. Não é “só” o que as coisas são que importa, mas o que você faz delas.


Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo, 
 
Aos homens e às pedras, às almas e às máquinas, 
 
Para aumentar com isso a minha personalidade.” (Álvaro de Campos)


Sim, por mais piegas que isso possa parecer, você detém o poder da magia. Quando você passa na frente da antiga casa do seu avô ou sente o cheiro de um xampu que você usou aos 15 anos, é a sua máquina do tempo que entra em funcionamento e te transporta pra momentos que já se foram. Quando você toma uma decisão importante ou se livra por muito pouco de um tombo que poderia custar a sua vida (mas que você acabou só com um estiramento de tendão e duas semanas de licença), não se pega pensando no universo paralelo em que você morreu no banheiro ou não teve coragem de largar o emprego?


Máquina do tempo e universos paralelos são apenas alguns dos truques de magia que você consegue realizar. Descubra os seus e deixe de ser “só” um “mutante”. Anime, empreste-se às coisas, aos homens, às máquinas, aos animais. Você verá que com isso você não se perde, mas se multiplica, porque passa a “possuir” um quinhão de tudo aquilo que animou.