Páginas

27 de out. de 2014

ouve, Dilma

não me verão gritar CHUPAAAA
não me lerão bradar VAZA PLAYBA CHEIRADOR
nada disso me alegra, nada disso me embala o coração valente
a vitória foi apertada, porque há muito pra melhorar
ouve, Dilma, ouve os votos críticos, ouve quem está à tua esquerda, ouve as ruas, recorda as Jornadas de Junho, ouve até a voz rouca da tua oposição
mas ouve, antes de tudo, teu coração valente
tua alma guerreira, tua mente de brava, tua história de luta, teu povo cheio de carinho por ti
leva meu voto, minha confiança, meu carinho, meu respeito, minha admiração
e meus olhos atentos
a tudo

porque hoje, de novo, és musa, és mãe, és presidenta, ÉS DILMA

10 de set. de 2014

O preconceito nosso de cada dia

Vivemos numa época em que a pior coisa que te pode acontecer é ser tachado de preconceituoso. Usamos de todo tipo de subterfúgio e explicação para não aceitar a alcunha. Há casos óbvios demais, quase risíveis, como o da torcedora do Grêmio, que mesmo tendo sido filmada aos gritos chamando o goleiro do Santos de "macaco" conseguiu achar cara pra dizer aos prantos que não era racista. É óbvio que ela é racista. E é óbvio que todos somos preconceituosos.

Claro que há níveis e níveis de preconceito, e tipos e tipos também. Mas é virtualmente impossível uma pessoa não ter preconceito algum. O preconceito se baseia na sua experiência anterior de vida, naquilo com que vc já se acostumou, naquilo que te ensinaram e que vc ainda não foi convidado pela vida a questionar, e que, portanto, ainda é o que é válido. Preconceito é quando vc faz um julgamento de valor sobre algo ou alguém não baseado nas qualidades daquele algo ou alguém, mas sim em informações que vc já traz anteriormente. É como quem diz que não é gordofóbico, só acha que gordo não é saudável, não é preconceito, é questão de saúde. Sem saber se aquele gordo é saudável ou não, feliz ou não, vc apenas acha que se a obesidade é uma epidemia, deve ser banida da face da terra e todo mundo tem que ser magro.

Mas o curioso mesmo é quando chegamos nesse grupo de pessoas de onde tiro meus amigos, essas pessoas esclarecidas que não são gordofóbicos, homofóbicas, não são racistas, não se prendem a velhos modelos sociais, são feministas, não acham que casar e ter filhos é obrigatório. Pessoas como eu. Essas pessoas são as mais sensíveis a serem tachadas de preconceituosas. Mas nós somos, sim. Quantos de nós não fazem(os) julgamentos de valor com aquela mulher que sonha em casar e que vira dona de casa, que para de trabalhar pra cuidar dos filhos, e ainda assim contrata babá? Não a conhecemos, não sabemos os motivos dela, não sabemos se ela é boa mãe, mas na maioria das vezes nossa primeira reação é julgar negativamente. Uma garota magra, gostosa, de roupa de academia, cabelo liso com mechas loiras é alvo de tantos pré-julgamentos negativos quanto eu, gorda, flácida, sedentária. Só que somos alvos de grupos diferentes de pessoas. Alvos, talvez, uma da outra. Eu julgo que ela fez todas as escolhas erradas na vida. Ela julga que eu sou um nojo, feia, e que eu deveria ficar em casa até perder setenta quilos.

Ou não. Talvez ela não julgue. Talvez ela tenha me achado bonita e simpática ali na rua. Talvez ela nem tenha parado pra ter um pensamento a meu respeito. Porque colocar pensamentos na cabeça da garota tb é julgá-la. Escrever uma história e meio que automaticamente só colocar as personagens bonitas e gostosas como meio burras e do lado antagonista da história é preconceito. "Catarina" me ensinou a dar valor real à garota mais gostosa da escola. Ela também pode ser a mocinha do livro.

Preconceito religioso, algo que tem sido muito debatido. Nesse grupo de pessoas a que pertenço, preconceito contra ateus é uma constante. Preconceito contra as religiões afro está se tornando um problema nacional. Mas e o preconceito de ateus contra católicos? E de todo mundo contra evangélicos? Vai dizer que vc não tem, de cara, um preconceitozinho contra alguém que segue a Universal?

Dentro do mundo nerd, geralmente composto de uma horda de gente que sofreu todo tipo de bullying, o preconceito grassa, com destaque para o machismo. Mas também encontramos homofobia e até gordofobia vinda de um monte de gordos, que não se aceitam de verdade e, na hora que uma garota gorda faz um cosplay, eles acham um horror.

O preconceito não é só contra pessoas, mas contra hábitos e coisas. Preconceito contra vegetarianismo e contra carnivorismo, ou contra essa história de começar a se preocupar com o que come, fulano deixou de beber, de comer MacDonalds e tomar refrigerante, que mané, virou um chato! Preconceito contra andar de ônibus sem nunca ter andado, preconceito contra exercício físico, sem nunca ter tentado fazer (só pra manter a minha fama de sedentário, odeio mesmo e pronto). Tudo isso eu não só já vi, como muitas dessas coisas eu já senti. E hoje acho que o melhor modo de tentar ter menos preconceitos é admitir que os tem.

p.s.: A ideia deste post me veio quando tive que explicar a uma amiga muito querida e muito não-preconceituosa que, na minha opinião, a rejeição dela ao ebook era um tipo de preconceito porque achava que não era causada por características do próprio ebook, mas porque ela amava muito o livro de papel. Será que sentia como se fosse uma traição a toda a história de amor que tinha com o papel? Como se não coubesse dentro dela gostar de outro formato? O medo do novo, a recusa de experimentar são tipos de preconceito também, um pré-julgamento de que o velho, aquilo a que vc já está habituado, é melhor pra vc, mesmo sem ter dado uma chance real ao novo na sua vida. E eu já senti esse tipo de preconceito muitas e muitas vezes, por exemplo contra publicar em ebook, durante muito tempo. Hoje eu gosto. Ah, e também parei de tomar de refrigerante há um ano, e não sinto falta. :)

28 de ago. de 2014

O eleitor desiludido que não perdoa & a política virgem concebida sem pecado

Brasileiro é chegado numa tragédia, né? Vidas sofridas, superação, mortes trágicas, gente chorando. A tv e o Facebook estão cheios disso. Mas isso é só introdução. Eu quero é chegar na Marina.

Eu gostava da Marina quando ela era ministra do Lula. Depois eu fui cada vez entendendo menos a Marina. No PV eu ainda a via comprometida com sua história, mas agora... Eu a vejo aproveitando-se da morte do Eduardo Campos, sim. É a mão de Deus que a salvou, mas não o salvou, é convite para a viúva fazer a chapa com ela... Eu a vejo confusa e sem direção, sem ideologia, sem estofo. Eu não confio no quanto ela muda de partido e aliados. Eu respeito a história dela, mas não confio nela pra governar o meu país. E nem comecei a falar nas ideias moralistas medievais que ela defende ferrenhamente por causa de sua religião. Isso é muito preocupante.

Mas o caso é que Marina tem sido vista e vendida como a tal da terceira via. Pra começar, eu acho terceira via uma piada no Brasil. Essa história de polarização é um teatrinho de fantoches, a política brasileira não está dividida entre PSDB e PT. O tamanho do PMDB é colossal, e outros como PSD, PP, PR, DEM, PDT não são nada menosprezáveis, basta ver a composição do Congresso. A ideia de polarização vem da recente alternância desses dois partidos no governo federal e a facilidade de, com isso, identificar neles alguma ideologia desenhada. Porque na maioria dos outros não se enxerga ideologia alguma, e isso é também preocupante. Vejam bem: eu considero isso um ponto a favor do PSDB. Eu entendo o que eles querem pro Brasil. Eu só não quero o mesmo que eles. Eu entendo o que o PT quer pro Brasil, e é o que eu quero. Mais do que isso, eu entendi o que o PT queria, votei no PT por querer a mesma coisa e o PT ENTREGOU O QUE EU QUERIA. Diminuiu radicalmente a desigualdade social, e continua diminuindo. E por isso eu continuo votando no PT.

Declarado meu voto, prossigo.

Não andei estudando o programa de governo da Marina. Tenho meu voto decidido e estou satisfeita com minha decisão (federal, ok? estadual tá uma bosta...). Mas tenho visto muita gente comentando a Marina, como em 2010, como a opção válida. Sabe o que me incomoda? Eu acho que muita gente aí não se pergunta POR QUE A MARINA? Vejo muita gente que declara voto na Marina porque se decepcionou com o PSDB quando esteve no governo e se decepcionou com o PT. Não está escolhendo a Marina pelo que ela quer pro país, mas está "contra tudo o que está aí". O desiludido que prefere a virgem, sabem? Ela nunca foi governo, então ainda não te decepcionou. Aquela história do "não reeleja ninguém", que é a maior preguiça que um eleitor pode ter. A busca da perfeição só é deletéria na política, pois não haverá perfeição nunca. Partidos errarão, pessoas errarão, você também. Se for votar em Marina, vote por motivos de Marina, não porque tá de mal com PT e PSDB.

(pausa)

Aí eu tava escrevendo este post e, de repente, lembrei disto e disto. De modo que o post ficou muito menor quando me dei conta de que já tinha falado deste assunto em 2010, e continuo pensando e percebendo a mesma coisa, o mesmo motivo distorcido para escolher Marina.

Com dois agravantes desta vez:

1) A morte trágica de Eduardo Campos. Então hoje, se você escolhe Marina pelos motivos errados, pode estar acrescentando aí nesse balaio de ressentimento político e ilusão uma homenagem póstuma a um bonito homem que morreu jovem e deixou cinco filhos, entre eles um bebê, e uma linda esposa mas que, no fundo, você nem conhecia direito (exceto a galera do PE) e menos ainda sabia o que ele queria pro Brasil. Que motivo mais distorcido que esse?

2) Ela pode acabar sendo eleita.

9 de ago. de 2014

Forma e conteúdo: uma defesa (im)parcial do ebook

Já há um tempo eu vinha querendo escrever um post sobre ebooks e livros de papel, mas pensava que ninguém ia me levar a sério porque eu publico em ebook e ia parecer uma apologia com fins de propaganda pessoal. Mas o fato é que publicar em ebook me levou a refletir mais sobre isso, e também me colocou em contato com a resistência de muitas pessoas ao ebook.

Pra começar, eu gostaria de dizer que acho uma bobagem esse tipo de dicotomia. Uma coisa não tem (nem vai) excluir a outra. Mas ainda assim me lançarei ao debate.

Quando o ebook entrou na minha vida, teve uma função muito específica. Eu fazia bicicleta ergométrica e gostava de ler enquanto pedalava, mas era pouco prático ter que virar as páginas, e pior ainda quando o livro era pesado. Eu estava lendo Próxima Estação: Paris, do Lorant Deutsch. Aí meu marido baixou pra mim o epub do original em francês (o que já foi um avanço também) e instalou o Aldiko no meu celular. Pedalei e li às mil maravilhas. Métronome foi o primeiro ebook que li.

Mas eu ainda tinha aquele ranço do passado. "Prefiro livro de papel, prefiro ter no que pegar, olhar a estante". Dizia isso com orgulho, citando Caetano: "os livros são objetos transcendentes, mas podemos amá-los do amor táctil". E então eu fui fazer um curso de um mês em Paris, e duas coisas lá me fizeram mudar de perspectiva em relação aos meus livros de papel. Eu via aquelas banquinhas infinitas nas calçadas vendendo livros a um euro, ou até menos (comprei um livro a cinquenta centavos) e pensava: por quanto este cara terá comprado este livro para vendê-lo tão barato? Comecei a achar que aqueles livros eram dados pra ele. Ou quase dados, se fosse um lote grande a um preço muito muito baixo. Quem faria isso com seus livros?

O episódio definitivo foi quando minha professora levou livros para nós. Livros dela. Disse que podíamos pegar o que quiséssemos e levar para ler. Acontece que o curso era de módulos semanais, então sempre tinha alguém se despedindo do curso a cada semana. E alguém perguntou: "mas, professora, como é que eu vou lhe devolver o livro se já estou indo embora?" Ao que ela respondeu: "pra que eu quero esse livro de volta? eu já li."

Fiquei passada. Tinha tanto sentido que fiquei envergonhada. O que afinal a gente quer de um livro? Não é o conteúdo? Não é até mesmo assim que a gente diz, de alguém culto, que lê bastante? A pessoa tem conteúdo.

O resultado foi que, quando cheguei em casa, não havia espaço para acomodar os livros que eu tinha comprado na viagem,e eu tomei uma decisão: começar a doar meus livros. Meus critérios são simples: livros que eu e meu marido já lemos e que não pretendemos reler (hoje em dia eu incluo um pensamento para o meu bebê, e guardo os livros que eu quero mostrar pra ele). Se o livro passa por essa peneira: RUA! Mandei fazer um carimbo com os dizeres "sou um livro viajante / leia-me e passe adiante", mas é claro que não tenho nenhum controle se estão sendo passados adiante ou se estão só aumentando a biblioteca acumuladora de alguém. Não importa. Já deixei livros em banco de shopping, banheiro de restaurante, sala de espera de médico, na escola de idiomas onde dou aula e na portaria do meu prédio. Não diminuiu muito a minha biblioteca, ainda. Sou uma pessoa que relê, e ainda tenho muitos livros que nunca li. Talvez um dia eu aumente o critério para "livros que eu comprei mas não vou ler mesmo, deixa de se iludir, inocente", e mande esses pra rua também.

E o ebook não ocupa espaço, né? Pelo menos, não físico. Comecei a ver as vantagens em filas. Na fila da lotérica, sempre quilométrica, eu sacava o celular e pronto: adeus tédio! Eu que sempre levei livro na bolsa, agora podia levar vários dentro do celular. E ler antes de dormir? É leve e não precisa de abajur! Eu sempre tinha problemas para ler antes de dormir, porque o abajur incomoda o marido e os livros mais pesados eram desconfortáveis para segurar deitada. Comecei a baixar epubs da Agatha Christie adoidado. Ganhei de uma amiga o epub do primeiro livro do Robert Galbraith, The Cuckoo's Calling. Com o melhor livro do ano de 2013 devorado em formato ebook, eu estava definitivamente cativada como leitora. Mas ainda faltava um passo. O maior. Faltava a escritora.

Como a maioria das pessoas que sonha publicar um livro, eu via o processo de seleção de originais como uma maratona de meritocracia. Só quem merecia estaria numa prateleira, teria seu nome numa lombada, assinaria autógrafos. Quando uma editora aceita o seu original, está te atribuindo valor. Conforme eu ia terminando de escrever meus livros, comecei a ler e pensar mais sobre mercado editorial, mergulhada na preguiça e na inaptidão completa de "me vender" para editoras. Você nunca leu um livro muito ruim? Publicado por uma editora, em papel, com lançamento e tarde de autógrafos? Não falo de um livro que não te agradou pessoalmente, mas um livro ruim mesmo. Mal construído, mal escrito, um livro que te faz pensar "mas quem diabos aprovou essa bosta nesta editora?" Eu já. E comecei a questionar os critérios dessa meritocracia e a me perguntar quem são afinal essas pessoas que escolhem quem merece ou não ser publicado. Critérios que excluem muitos autores novatos e publicam qualquer coisa que seja escrita por alguém famoso (mesmo que seja um livro infantil escrito por uma cantora de MPB ou atriz de novela, porque o nome vende). Isso sem falar em publicações pagas, onde não há seleção ou mérito envolvido, modalidade que tem crescido imenso nas editoras. Ou seja. Se fosse pra pagar (e eu tive esse tipo de proposta de uma editora física), por que eu não publicaria por conta própria, gratuitamente, em ebook?

Não foi uma decisão fácil. Desistir de algo sonhado num velho modelo é doloroso, rescende a fracasso. Mas não é. É coragem. Nos Estados Unidos, o mercado da autopublicação em ebooks é forte e alimenta o mercado editorial tradicional, que procura nos autores independentes bem-sucedidos os seus novos autores. mas nos Estados Unidos as pessoas leem muito ebook, e aqui no Brasil não.

Há aqui um orgulho de se prender ao passado. "No meu tempo era melhor", quantas vezes vc já ouviu isso? Ou mesmo disse? (já escrevi um post sobre isso) E é tão bobo, porque presume que você deve abandonar o livro de papel pelo ebook, ou que você está traindo os seus livros de papel ao ler ebooks. O que é ainda mais bobo. O livro de papel continua tendo inúmeras vantagens. Livros bonitos, ilustrados, livros de arte, livros de consulta, tudo isso é infinitamente melhor em papel. Você não vai comprar a obra completa de Degas em ebook, é claro, e nem mesmo a História da Arte do Gombrich eu compraria em ebook, a princípio (porque pesa pra cacete, então o ebook ainda teria essa vantagem). Mas eu comprei as obras completas de Edgar Allan Poe no original por menos de R$3, sem frete, sem ter que esperar semanas pela entrega. Menos de um minuto, e eu tinha tudo ali. Toda a história, todo o conteúdo. O papel? Que me interessa o papel nesse momento? A história um dia foi oral, as histórias um dia foram contadas, e nem por isso todos somos ferrenhos defensores e consumidores de audiobook, somos? (a mim, me fazem dormir). O que me faz pensar numa frase que vi um dia destes nas redes sociais e que dizia algo mais ou menos assim:

"Tudo o que foi inventado antes de vc fazer dez anos faz parte do mundo, é normal. Tudo o que foi inventado entre os dez e os trinta e cinco anos é inovador e apaixonante. Tudo o que foi inventado depois que vc tem trinta e cinco anos não é normal, é contra a ordem natural das coisas."

Essa carapuça não serve em todo mundo, e eu sempre uso meus pais como exemplo. Papai tem 67 anos, tem twitter (reconheçamos, ele é viciado mesmo nisso), blog (e ele bloga SEMPRE, muito mais do que eu), smartphone, tablet. Minha mãe ainda se dá melhor com email que com Facebook, mas está sempre no whatsapp, resolve toda a vida no internet banking e já leu alguns ebooks no tablet do papai. E por isso mesmo é que eu acho tão triste e limitador ver gente mais nova do que eles, gente mais nova do que eu, aferrando-se ao livro de papel como se nunca tivesse ouvido rádio e visto televisão, como se nunca tivesse falado em telefone fixo e depois no celular, como se nunca tivesse mandado cartas e depois emails.

"Ah, mas não é a mesma coisa!"

Claro que não é, nem é pra ser! Na carta, vc tem a letra da pessoa, mas o email chega mais rápido. A televisão tem imagem, cara, mas nem por isso o rádio morreu, e vc continua ouvindo no carro.

Dê uma chance ao ebook. Não perca oportunidades de ler histórias porque a forma é nova, quando o que deveria te atrair é o conteúdo.

p.s.: Sim. É claro que escrevi tudo isto com o objetivo de fazer vcs lerem meus livros. Eu tenho tanta história pra contar que vcs nem imaginam. Por enquanto são quatro (clique aqui pra ver uma pesquisa pelo meu nome no site da Amazon, com todos os títulos lançados), mas é só o começo. Deve sair mais ainda este ano.



2 de ago. de 2014

Liberdade de expressão e redes sociais, ou "Ninguém pediu sua opinião"

Aqui em casa tem o #teamFacebook, representado por mim, e o #teamTwitter, defendido ardorosamente pelo meu marido. Ambos estamos em ambas as redes sociais, mas temos nossas preferências, de acordo com o uso que fazemos da internet. Meu marido consome informação e opiniões. Eu dou minha opinião, escrevo e converso. Sempre tive, na vida, muito pouco interesse pela opinião alheia, sobre as coisas, sobre o mundo e sobre mim. Na internet não tem muita opção. A não ser que você esteja no twitter e não siga ninguém, esteja no Facebook e já tenha tirado todo mundo do seu Feed de notícias, você será invariavelmente alcançado pela opinião alheia sobre tudo.

Muitas vezes isso é algo muito legal. Já fiz amizades por redes sociais ao encontrar pessoas que compartilhavam comigo gostos (costuma ser o primeiro atrativo) e opiniões (só assim é que as pessoas vão ficando na minha vida). Eu gosto de trocar opiniões com essas pessoas sobre assuntos que nos interessam ou descobrir novos assuntos seguindo-as nas redes sociais, porque temos muito em comum e muitas vezes acabo descobrindo algo novo que também me interessa.

Essa é a parte boa.

Como já dizia o Tio Ben, "with great power comes great responsibility", e ele deveria ter acrescentado aí a liberdade também. A liberdade exige responsabilidade. Sim, você tem liberdade de dizer o que quiser nas internetes (e eu tenho direito de ouvir ou não, thanks God for the block). E o grande atrativo e perigo da internet é que, na imensa maioria das vezes, você jamais será responsabilizado pelo que disse. E ultimamente, tudo tem sido confundido com "opinião". E nem tudo é opinião. Existe ofensa e existe julgamento. E existe coisa pior: ameaça e violência verbal.

Vou explicar como se você fosse uma criança de três anos.

Você viu um filme.

Opinião: "Eu achei esse filme mais ou menos. Acho que Beltrana atuou bem, mas Fulano me pareceu meio fraco para o papel. E o roteiro deixou a desejar."

Julgamento: "O filme é horrível, não vão ver essa porcaria. Beltrana está velha e gorda e Fulano nunca mais vai ser o mesmo depois das drogas. Esse povo de Hollywood pode fazer 500 rehabs que não adianta, sempre voltam."

Ofensa: "Essa vaca da Beltrana é uma puta mesmo. Bosta de filme, o diretor é aquele imbecil filho da puta que já tinha acabado com aquele outro livro que eu adorava. E o Fulano, aquele viadinho cheirador,  não merecia aquele papel!"

Deu pra notar? Pode ficar pior.

"Porra, Fulano devia ter levado uma surra só de ter aceitado o papel! Viado! Se meterem uma bala na cabeça dele eu vou achar é pouco por ter destruído meu personagem favorito! Se passar na minha frente agora eu mesmo meto a bala! Morraaaaaaaa!! Bora acabar com a carreira desse filho da puta!!"

"Como é que alguém ainda dá algum papel pra essa ridícula da Beltrana? Ela não se enxerga?? Velha ridícula!! Não admira que o marido tenha trocado ela por outra novinha, essa gorda velha e caída ninguém mais vai querer! ahahahahahaha!"

*suspiro*

Qual a diferença?

Você tem TODO o direito de não gostar de alguma coisa. Não gostou? Não veja mais.

"Mas isso é inofensivo, é só na internet, eu nunca vou ver essa pessoa, menos ainda meter uma bala nele!"

Então vamos transferir o discurso do ator do filme para um jogador de futebol. Agredido por membros de uma torcida organizada, insatisfeitos com o desempenho dele em campo. Ele trabalha, se esforça, ganha o salário dele, deve ser tratado com respeito. Não é pago pra divertir você, não é seu empregado nem seu palhaço. Ele trabalha praquele clube, e se vc gosta daquele clube, bom pra vc, mas isso não lhe dá direito algum sobre a vida do cara. E as merdas que vc escreve sobre ele na internet serão lidas pela família dele, pelos filhos e por ele mesmo.

E vamos transferir esse trashing da rica atriz de Hollywood para qualquer mulher cuja foto fica sendo repassada sem critério nem permissão para ser alvo de piadas de gente que ela nunca viu porque ela é feia, gorda ou qualquer coisa que te desagrada e que vc se dá o direito de achar engraçado. Aí depois todo mundo fica indignado com aquelas tristes histórias de adolescentes que se matam por serem vítimas de cyberbullying. Isso que vc está fazendo É CYBERBULLYING. Aquela pessoa na foto que vc ridiculariza e compartilha, aquela pessoa existe, aquela pessoa tem família, tem amigos, trabalha, estuda, aquela pessoa tem internet, sua besta. Vc acha que ela não vai acabar vendo isso? Ela tem tanto direito a ser feliz quanto vc e não lhe deu o direito de rir dela nem de ofendê-la. Não faça dela uma piada.

Isso não é opinião. Isso é ofensa, e é crueldade. Isso é um perigo.

Eu não quero mais tolerar esse tipo de coisa. Estão avisados.

8 de jul. de 2014

como se fosse hoje

lembro como se fosse hoje. meu filho Carlos tinha dois meses. não dormiu durante o jogo, como fizera durante as quartas com Chile, aquela dos pênaltis, lembra? também foi no Mineirão. gritávamos na sala, e ele no quarto não acordou. mas naquela terça quando o Brasil voltou ao Mineirão pra enfrentar a Alemanha, ele não quis dormir. quis estar acordado pra ser testemunha inocente e alheia da pior tragédia vivida pelo futebol brasileiro. a pior. pior que Maracanazo. o Mineiraço me feriu de morte. sinto-me mutilada, ainda. porque é como se fosse hoje. não chorei, atordoada como se... como se eu fosse o meio campo da seleção. surpresa como a própria seleção alemã, que com certeza não esperava por algo assim. sangro ainda, porque é como se fosse hoje. não tínhamos Neymar, quebrado no jogo anterior. não tínhamos Thiago Silva, suspenso. e os que tínhamos... desolados, horrorizados. a torcida abandonando o estádio aos 30 minutos de jogo. "vexame histórico", diziam na tv. eu que amava tanto o futebol. que ainda continuaria amando, é claro, ainda amo. mas uma ferida daquelas? uma chaga funda, pisada, judiada, que ainda sangrava quando ainda era mais e mais machucada? não. daquilo não esqueço, é como se fosse hoje.

29 de mai. de 2014

O primeiro mês a gente nunca esquece, mesmo que tente

Hoje meu bebê faz um mês. A primeira semana foi a pior semana da minha vida. A mais intensa, a mais exaustiva, a mais louca. Duvidei de tudo. Da decisão que eu tomara, da minha sanidade mental, da minha capacidade. Nada do que eu sabia antes me valeu, e eu de repente me tornara a maior incompetente do mundo com a missão mais difícil. Pra mim, pra esta pessoa segura e confiante que eu sou, isso era violento demais. Não saber mais o que eu queria, quem eu era, ver perdida minha vida que eu amava, como se alguém a tivesse escondido numa gaveta e eu não soubesse onde estava a chave. Era como um sonho. É, é claro que tinha que ter algo de onírico nisso tudo, né? Eu achava que ia acordar na minha velha vida. E morria de culpa porque desejava isso ardentemente.

Passa, é o que todos dizem. E têm razão, porque passa mesmo.

E tinha aquele bebê. Frágil e lindo. Com um poder avassalador sobre mim, de me conferir uma onipotência ilusória, de olhar pra mim fascinado com seus olhinhos cinzentos e me dizer sem palavras: "por mim, você poderá tudo, e fará tudo. eu confio em você". Mas como, bebêzinho? Como você confia, se nem eu confio? Não sei o que fazer, não posso tudo, vou errar muito e muito, e muitas coisas simplesmente não saberei nem poderei resolver pra você. E pra mim, essa pessoa despachada e resolvida que eu sou, isso é uma provação. Ver você chorar e não saber a razão, e ter que me contentar em acalentar e deixar você chorar até cansar, e talvez, com  sorte, dormir.

Passa rápido, é o que todos dizem.

Mas não têm razão.

Porque hoje parece que faz um século que você nasceu. Aqueles dias em que eu chorava descontroladamente te dando de mamar de madrugada, me perguntando que diabos eu tinha feito da minha vida, eu só queria chorar e dormir, e meu seio doía mais que uma contração, e meu leite era pouco e você nunca ficava saciado, e eu só queria que você dormisse. Tudo isso está imensamente longe. Desde então eu já consegui ir pra terapia duas vezes, ir almoçar no restaurante duas vezes, ir ao salão fazer as unhas, já entreguei umas cinco traduções e já não tremo nas bases quando você chora, acordando, porque já sei como te alimentar e te fazer dormir, e sei que vou dormir também, e adoro te alimentar e rir de gargalhada das tuas caretas quando você mama e ser seduzida pelas carinhas lindas que você faz na hora do arroto.

Tudo passa, bebê. Dorme direitinho que eu ainda quero escrever um pouquinho antes da próxima mamada, tá? Te amo.

9 de mai. de 2014

Somos todos mamíferos

Meu filho está tomando mamadeira. 

Que comecem os julgamentos!!

Li um monte de coisas sobre amamentação durante a gravidez. Queria amamentar, nem era apenas um querer, era uma convicção de que isso era o certo, pra mim nem era opcional (PRA MIM!). Me informei, inclusive passei por uma informação não muito promissora, que dizia que plásticas de redução mamária poderiam atrapalhar a produção de leite (e eu fiz uma dessas aos 18 anos), mas não deixei que isso me abalasse. Eu tinha bons bicos, era o que diziam. Eu ia ter bastante leite.

Na maternidade, nada mais que gotas de colostro. Normal, diziam. Agora, além de dizerem que eu tinha bons bicos, acrescentavam que meu bebê era ótimo de mamada. Tinha uma boa pegada, sugava bem, tudo muito verdade! O leite ia descer. Aprendi como segurar o seio, massagear, as melhores posições pra colocar um recém-nascido pra mamar numa mãe obesa. Tudo.

Fui pra casa com meu bebê, que mamava em livre demanda. Era só querer, e eu dava o peito. Era toda hora. A cada dia que passava, mamadas mais longas, intervalos menores. Não conseguia botá-lo pra arrotar, ele continuava procurando peito, resmungando. Insatisfeito sempre. Frustrado, até. Até em casa me diziam que, se ele mamava tanto, é que tinha leite. Mas eu me ordenhava, e só vinham as tais gotas. O bico do meu seio esquerdo (o que tinha um pouco mais de leite) doía terrivelmente cada vez q o bebê abocanhava (mesmo que ele abrisse bem a boca, direitinho, como beicinho pra fora), mas eu dava. Alternava os seios nas mamadas, cada vez mais preocupada, cada vez mais estressada, sentindo que eu não estava saciando a fome do bebê.

A primeira consulta na pediatra estava marcada pra semana que vem, mas eu não me dei por satisfeita. Com uma semana de vida, levei ele lá, nem que fosse pra pesar. Dito e feito: tinha perdido mais peso do que seria aceitável na primeira semana. A médica me ordenhou. "Mas minha filha, você não tem leite!", ela disse. Fiquei aliviada, juro! Alguém via o que eu estava vendo! Uma solução, por favor, não quero que meu bebê fique com fome, porra! Se tivéssemos ido na pediatra só na segunda semana de vida, ele estaria desnutrido.

Cheguei em casa chorando de alívio, meu marido dizia que nunca mais ia duvidar dos meus instintos no que diz respeito ao nosso filho. Ele achava que ia rolar, que ia dar certo, ele achava até que o bebê estava mais fortinho. Eu via que não. Sei que ele queria me incentivar, ele sabia o quanto eu queria amamentá-lo. Dar a primeira mamadeira, ver a cara de satisfeito daquele bebê, enfim com a boca cheia de leite... Chorei de alívio de novo.  Eu nem sabia pra que servia o tal do paninho de boca. Ele nunca sujava a boca, né? Não conseguíamos fazê-lo arrotar. Mas é claro, ele ia arrotar o quê? Agora ele estava de barriga cheia. Dormiu um sono tranquilo, satisfeito, e não o sono agitado, sono de dormir exausto de mamar, como nos seus primeiros dias.

Minha irmã, que tb fez uma plástica corretiva nas mamas há muitos anos, tb não teve leite suficiente para dar aos seus dois filhos. Uma vez comentei isso com uma amiga, qdo eu estava grávida, e ela disse (aí vem o julgamento!!): "ah, desculpa, mas não foi leite o que ela não teve, foi paciência".

WAIT, WHAT?

Meu primeiro sobrinho completou um mês com o peso que tinha ao nascer. Chorava de fome. Paciência? Que paciência se deve ter quando seu filho está com fome?? Sim, existe mulher que não tem leite, e as razões podem ser muitas! Não é tudo fraca-burra (a galera do parto, lembram do post anterior?). Há mulheres que choram porque queriam tanto amamentar seus bebês só no peito e não conseguiram, e além de ficarem tristes e frustradas por isso, temem ser julgadas como mães ruins. Cruel, né?

Eu continuo dando peito quando ele quer, entre as mamadeiras. É o que quero, e é orientação da pediatra. Meu leite não será o alimento principal dele, o que lhe dará "sustança", mas será remédio, vacina, vínculo, calmante, estímulo pro meu leite.

E pra quem diz "ah, e os índios, fazem como? E na idade da pedra, que não tinha mamadeira?". Bebês morreram de fome, vc acha que não?

Mas não o meu bebê. Ele tá dormindo saciado e feliz aqui do meu lado.

Um assunto que é um parto

"E tu já tens uma doula?"

Eu ouvi isso de uma amiga ainda no primeiro trimestre de gravidez e me perguntei se isso já tinha se tornado obrigatório...

Sim, eu sabia o que é uma doula. Mas qualquer pessoa que me conheça o mínimo saberia que eu não escolheria ter bebê em casa, numa banheira, piscina, ou nada semelhante. Eu quero hospital, que tenha uti neonatal e adulta. Eu quero um profissional em quem eu confie. Eu sou alopata, eu quero anestesia.

O fato é que há "causas" que se tornam modas, e isso é um perigo. Redes sociais contribuem enormemente para isso. É verdade que a quantidade de cesarianas injustificadas no Brasil é preocupante. É ainda mais verdade que o caso da Adelir é um ultraje,e que é preciso gritar contra a violência obstétrica.

Porém...

Eu acredito que a mulher é dona do seu corpo. Sou a favor da descriminalização do aborto. Acho, portanto, que a mulher tem o direito de decidir como vai parir (NÃO ME DIGAM QUE EU NÃO PARI PQ FIZ CESARIANA, pra mim eu pari, e foda-se). E não deve ser julgada por isso, da mesma forma como não deve ser julgada pelo que veste ou pra quem ela resolve dar a buceta. O corpo é dela.

Mas a causa do parto natural está na moda. E ativistas sabem ser intransigentes, e como! Há logo muitas que julgam fracas e burras mulheres que preferem cesarianas. A gravidez é um momento de vulnerabilidade, também. Não é justo que se pressione uma mulher grávida a entrar em conflito com o médico que acompanha seu pré-natal e que fará seu parto, mas é o que se faz. Existe essa pressão. Se um médico diz, por causa disso, disso e disso, que a cesariana é mais segura pra vc e pro seu bebê, eu, como leiga, vou discutir como? Com base em quê?

Confiei na minha médica desde o princípio. Ela sempre foi honesta, franca, e confiei na competência dela. Não me arrependo. Tudo correu muito bem na minha cesariana. O bebê tinha duas circulares de cordão, e além disso seria difícil usar o fórceps em mim caso a necessidade aparecesse durante o parto, pois por causa da obesidade eu tenho menos espaço de manobra. E mais: eu perdi um monte de líquido, e no final já tinha mecônio. Cesariana foi a opção melhor na opinião da profissional que me acompanhou durante toda a gestação. A minha opção foi a de confiar nela. E os resultados foram ótimos.

Adianta que venham me dizer agora que "ah, mas dava pra ter sido normal, isso não é motivo" e bla bla bla? Sinceramente, o que uma pessoa que me diz isso esperava que eu fizesse? Ali, perdendo líquido,sem dilatação, ficasse batendo boca com médico? O que eu sempre me pergunto é: o que essas pessoas esperam que a grávida faça? Discorde do médico na hora H? Ou mantenha um conflito com ele durante toda a gravidez?

Meu ponto é: a campanha está sendo feito no público errado. O problema não está nas mães, mas nos médicos. Se há técnicas no mundo para, por exemplo, fazer parto normal até de criança sentada,em pé, do avesso, mas se essas técnicas sequer são ensinadas aqui nas faculdades de medicina no Brasil (eu soube disso lendo algum artigo, não me lembro onde), quem é a mulher maluca que vai dizer pro seu médico: "não, doutor, mas é possível fazer esse parto normal, faça aí!", mesmo que ele nunca tenha feito isso?? Tá doida? Eu quero que ele faça em mim algo que ele sabe fazer!! Então é na formação e na orientação dos profissionais que precisam focar pra reduzir o número de cesáreas injustificadas. Na remuneração justa dos planos de saúde também (15 anos sem reajuste pra parto, gente!! quem vai querer ficar horas esperando menino nascer pra ganhar o mesmo que ganhava no século passado, podendo fazer o mesmo em 40 minutos? não que isso justifique, mas é a realidade!). Não basta informar as gestantes se os profissionais forem ficando todos em desacordo com suas pacientes. Isso só gera estresse nesse período delicado da vida da mulher.

Amiga que defende o parto natural, vc tem todo o direito de escolher como parir. Eu também. Se minha escolha difere da sua, eu não estou errada, não sou fraca nem burra. Eu sou diferente de você. Isso sim é liberdade e respeito.

6 de mai. de 2014

Gravidez e obesidade

Este post é o pagamento de uma dívida comigo mesma. Me prometi escrevê-lo no começo da minha gravidez.

Não sou das que sonhou a vida inteira ser mãe. Decidi que queria ter um filho, e fui atrás. Sou obesa, grau 3, e quando fiquei grávida fui numa obstetra que me apavorou. Uma consulta de terrorismo. Nunca tive pressão alta e, naquele dia, no consultório dela, minha pressão (hj desconfio até q mal medida) chegou a 18 x alguma coisa que nem lembro mais. Essa médica já sabia que eu estava tentando engravidar e esperou que eu ficasse grávida para me amedrontar e mais: dizer que não fazia pré-natal de alto risco. Devia ter me avisado isso antes, pois apesar de eu ser uma gorda de excelente saúde, toda gravidez na obesidade tem risco. Ela me passou remédio pra pressão logo de cara e não me pediu nenhum exame. Claramente lavou as mãos. Nunca mais voltei nela.

Naquele momento tive tanto medo e me senti tão insegura que fiz algo que quase nunca faço: procurei na internet um relato de alguma grávida obesa que tivesse tido uma gravidez saudável e de sucesso. Não encontrei! Tudo sobre gravidez e obesidade só falava dos riscos, só metia medo. O único relato positivo que achei era de uma ex-obesa, q engravidou pós-Bariátrica. Não me interessava. Me prometi que, se tudo desse certo, escreveria este post para quem precisasse.

Depois de um pouco de peregrinação, encontrei minha obstetra: dra. Lílian Thomé, recomendo muito! (estou em Belém - PA) Com acompanhamento também de nutricionista, tive uma gravidez saudável e meu bebê nasceu bem, nada de bebê enorme, não tive pressão alta nem diabetes gestacional. Se vc é obesa e está grávida, não se apavore! Seja responsável e tenha confiança, vai dar certo, não é nada demais.

Vou contar algumas coisas sobre a minha gravidez que acho que podem ajudar:

- Pressão

Eu medi minha pressão todos os dias durante o primeiro trimestre. Nunca mais deu alta, ainda bem que nunca cheguei a tomar o tal do remédio pra pressão. Durante o segundo trimestre, medi a pressão em média 3 vezes por semana. No último trimestre, novamente todos os dias. Minha pressão se manteve durante toda a gravidez entre 9x5 e 11x7. Só no consultório é que dava 12x8. Efeito jaleco: eu tenho!

- Alimentação

Reduzi o consumo de carboidrato drasticamente durante minha gravidez, e consumi muitos laticínios, proteína, verduras e no começo muita fruta também. Comia carboidrato no café da manhã nos 5 primeiros meses de gravidez, mas a partir do sexto mês nem isso. Açúcar não fazia parte da minha dieta também, e meu adoçante era apenas a sucralose.

Até o sétimo mês, isso aí se referia à dieta rotineira. Numa festa ou num restaurante eu abria exceções, sim. Depois explicarei porque isso mudou no último trimestre. Tomei café normalmente durante toda a gestação (só evitei café puro nos dias em que estava com muita azia), mas NÃO TOMEI REFRIGERANTE NENHUMA VEZ, ok? Evitei comida industrializada o quanto pude.

- Intercorrência: incisura bilateral nas artérias uterinas

No começo do sétimo mês, um US com doppler identificou que eu tinha incisura nas artérias uterinas, nas duas. Isso significava que o sangue passava com dificuldade para a placenta. Uma espécie de "refluxo", um passinho pra trás que o sangue dava. Isso podia causar:

Em mim: pressão alta.
No bebê: subdesenvolvimento.

Adianto que nenhuma das duas coisas aconteceu. Adianto que a obesidade NÃO CAUSOU esse quadro. É genético. Meu sangue deveria ter afinado durante a gravidez e não afinou. A obesidade era fator de risco para a pressão alta, isso sim. Mas nunca tive.

O que fizemos a respeito:

- Acompanhamento com US Doppler quinzenal.
- Exames de sangue e urina frequentes. O exame de Proteinúria, por exemplo, fiz duas vezes, com bons resultados. Se eu estivesse perdendo muita proteína na urina, isso poderia configurar uma quadro de pré-eclâmpsia. Isso não aconteceu.
- Monitoramento da pressão, às vezes até 3x ao dia. Teve um dia que fiz meu próprio mapa de pressão, medindo de 30 em 30 minutos. Tudo normal.
- Drenagem linfática.
- Caminhadas leves.
- Minha dieta no último trimestre: P R O T E Í N A.
Não demos a mínima para calorias, entenderam? Eu comi muita muita carne, ovo, leite, queijo. Comi o quanto quis, até ficar satisfeita. Sem racionamento de quantidade. Matei todas as fomes.
Substituí o sal comum por sal de potássio.
NADA DE AÇÚCAR. Nadinha mesmo, zero, zerinho.
NADA DE CARBOIDRATO. Farinhas, leguminosas, tudo cortado. Cenoura e beterraba, só cruas e raladas (e eu só comia comida crua em casa, desde o começo da gravidez, por causa da toxoplasmose). Eu tinha direito a um pouco de aveia.
FRUTAS CONTROLADAS. Três doses de fruta por dia, apenas.
Essa dieta tinha por objetivo controlar inchaço, pressão e ajudar a afinar o sangue.
- Medicação anti-trombose.

O bebê cresceu bem, o parto não foi adiantado, nasceu a termo, e eu não engordei nada durante a gravidez (o que quer dizer q depois do parto estou pesando menos do que quando fiquei grávida). Meu filho nasceu com 37 semanas (a bolsa rompeu), 48cm e 2.850g, de cesariana (ele tinha duas circulares de cordão) e minha cicatriz está sequinha e muito boa.

Minha irmã também tem duas experiências de muito sucesso de gravidez na obesidade.

É POSSÍVEL.

DÁ CERTO.

NÃO É TÃO DIFÍCIL QUANTO PARECE.

Fique tranquila, não se deixe apavorar, mas seja responsável e consciente de que vc deve ter mais cuidados.

Espero que a internet faça chegar este relato até os olhos de quem precisa, de quem está com medo como eu estava em setembro do ano passado. E agora estou bem e meu bebê também! :)