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15 de mar. de 2015

a esquerda estarrecida

sim. nós, a esquerda, estamos perplexos. porque, décadas depois do fim da ditadura militar, a direita foi novamente às ruas. parece que a ressaca da ditadura passou.

e eu que sempre achei que a direita deveria mostrar a sua cara neste país, assisti hoje um verdadeiro espetáculo de horrores. alguns amigos meus, alguns compreensivelmente indignados com erros do governo atual, ajudaram a dar número a um movimento que, por ingenuidade,inocência, ignorância, eles desejam apartidário. suprapartidário. é uma gente (sim, até esses meus amigos) que até 2013 se declarava apolítica. é uma gente cuja paixão política nasceu, ali sim, num movimento de organização espontânea, o junho de 2013. mas é sempre bom lembrar como nasceu o junho de 2013. preços das passagens de transporte público. reações violentíssimas das PMs. revolta nacional. como aquilo virou o trailer disto que vimos hoje? não faço ideia. mas eu que fui pra rua em 2013, cheguei a me arrepender quando vi, depois, os apolíticos se lambuzando de prazer infantil na rua, no processo democrático (e político!) q eu sempre amei.

o que esta direita não entendeu é que política sem partidos é chamada de ditadura. ok, alguns entenderam, e querem mesmo isso (votar dá muito trabalho, prefiro q alguém decida tudo por mim). o que a direita ainda não entendeu, também, é que ela é DIREITA. vc é contra os programas sociais? acha tudo bolsa-esmola? é a favor das privatizações? deixa eu te explicar uma coisa então: VC É DA DIREITA. ok? tá entendido isso?

beleza, continuemos.

o movimento de hoje tem interesses políticos e partidários, mesmo q vcs não queiram. fora Dilma? alguém vai entrar no lugar, e vai ser um POLÍTICO, essa raça q vcs acham q abominam. não abominam de fato, são apenas seletivos. pois durante anos vários outros escândalos já tinham vindo à tona (sim, não tantos, muita muita coisa era abafada rapidinho), e vcs não estavam assim tão indignados.

mas, confesso. vossa indignação nos estarrece. nós, da esquerda. a gente curte política. a gente frequenta a rua. a gente se lambuza de prazer também, mas geralmente nosso prazer é um sonho. é uma paixão. é um amor, uma crença, uma alegria, uma esperança. o que uniu esta gente hj na rua foi o ódio. sim. ficamos estarrecidos ao ver vcs no que sempre consideramos "nossa área". pois bem. a rua é pública, sejam bem-vindos.

mas, por favor, limpem a merda que deixaram pelo chão.

17 de fev. de 2015

Os livros lidos em 2014

Postando a listinha de 2014 ainda antes do fim do Carnaval! Nada mal, hein?

1) Howl's Moving Castle (Diana Wynne Jones): ganhei de Natal "A casa dos muitos caminhos" em 2013, e descobri que era o terceiro da série do Howl. Então comprei os dois ebooks. O primeiro livro é este, e eu já tinha visto a animação muitos anos atrás. O livro é infinitamente superior!! Tão bom que é um daqueles poucos poucos livros que na vida me deu vontade escrever uma fanfic. Rs. Ganhou o título de *MELHOR LIVRO DO ANO*.
2) Castle in the Air (Diana Wynne Jones): o segundo livro da série não me agradou tanto quanto Howl's Moving Castle e mesmo assim ainda é excelente!
3) O visitante inesperado (Agatha Christie): acho que estou chegando perto do fim da obra de Agatha, pois já comecei a ler aqueles q ela deixou somente esboçados e q foram de fato escritos por outras pessoas. Este é um. Dá pra perceber muito bem no estilo da escrita, é claro. Mas gostei muito da história.
4) Os trabalhos de Hércules (Agatha Christie): foi um ano de muita Agatha Christie. Observem.
5) O cavalo amarelo (Agatha Christie): candidato ao melhor de Agatha em 2014.
6) Assassinato na casa do pastor (Agatha Christie): um clássico, e merece sê-lo.
7) Os treze problemas (Agatha Christie): muito interessante!
8) O jovem Sherlock Holmes: Nuvem da morte (Andrew Lane): ruim. Ruim em vários aspectos. Ruim como fanfic de Sherlock Holmes, pois se afasta demais da personalidade do personagem original. Ruim como livro, a aventura é mal contada. Pode ser q essa segunda avaliação já seja implicância minha porque fiquei ultrajada com esse Sherlockinho carente de atenção.
9) Filhos - da gravidez aos 2 anos de idade dos pediatras da Sociedade Brasileira de Pediatria (org. Fábio Ancona Lopez e Dioclécio Campos Jr.)
10) Morte na Mesopotâmia (Agatha Christie)
11) Morte na praia (Agatha Christie)
12) A morte da Sra. McGinty (Agatha Christie): candidato tb a melhor de Agatha do ano.
13) O mistério dos sete relógios (Agatha Christie)
14) Os cinco porquinhos (Agatha Christie): outro clássico da Agatha, bem engendrado, mas tem algumas coisinhas que me incomodam nesta trama...
15) The Silkworm (Robert Galbraith): ainda muito bom, mas perde muito para Cuckoo's Calling.
16) Seguindo a correnteza (Agatha Christie)
17) Adultério (Paulo Coelho): tem alguns truques interessantes de narrativa neste livro, mas já li coisa muito melhor do Paulo Coelho. Pra falar a verdade tb já li coisa pior.
18) A carga (Mary Westmacott): primeiro livro q li do pseudônimo da Agatha Christie. O estilo, é claro, é delicioso. No começo vc meio que fica esperando que alguém morra. Rs. É uma leitura gostosa, e a trama tinha tudo pra ser excelente, mas faltou algo. O terço final e especialmente o desfecho foi simplesmente decepcionante.
19) A aventura do pudim de Natal (Agatha Christie)
20) Contos de crime (org. Flávio Moreira da Costa): mini-antologia, muito boa.
21) A maldição do espelho (Agatha Christie): muito bom! será que temos um vencedor de melhor Agatha?
22) A terceira moça (Agatha Christie): um ótimo Poirot
23) Tempo bom,  tempo ruim (Jean Wyllys): recomendo!
24) Armandinho Um (Alexandre Beck): isto contaaaaa??? confesso que li no último dia do ano, arrasada porque não tinha conseguido chegar na minha meta de 24 livros por ano. :(

29 de jan. de 2015

gestando uma maternidade: 9 meses do lado de fora

este é, talvez, o post mais íntimo de todos os que já escrevi. não liguem se a leitura ficar tortuosa. certamente serei interrompida dezenas de vezes enquanto escrevo. mas quero contar pra vcs por que resolvi ter um filho.

antes de mais nada, preciso esclarecer que eu quis e não quis ter um filho por muito tempo. toda garota pensa e repensa a maternidade mil vezes durante a vida. se imagina grávida, se imagina mãe, se imagina contando praquele cara que tá esperando um filho dele, imagina como será a reação dele, fica com medo de ser uma reação horrível, toma pílula, usa camisinha, vive o pavor e o desejo proibido da maternidade quando a menstruação atrasa. vc quer que dê negativo, porque não se preparou pra isso naquela hora, mas quando dá negativo, vc fica arrasada. a gente é obrigada pela sociedade a pensar nisso milhares de vezes, por isso pensamos. eu quis e não quis ter um filho, por muito tempo. até que, uma vez, eu quis ser mãe. e aí eu me decidi.

querer ser mãe é muito, muito diferente de querer ter um filho. porque não é ter, é ser. é passar a desejar aquela transformação em você mesma. é querer incluir aquele novo "ser" em você. ser mulher, ser filha, ser amiga, ser irmã, ser professora, ser escritora, ser tradutora, ser fã, ser leitora, ser prima, ser tia, ser neta, ser sobrinha, e eu também quis ser mãe. sou uma pessoa extremamente egocentrada. adoro minha própria companhia mais do que de qualquer outra pessoa. adoro estar só, adoro tempo pra mim, tenho tantas coisas dentro da minha cabeça, preciso de tempo pra elas. sou cheia de desejos e propósitos. eu nunca precisei de um filho que me desse sentido à vida. eu desejei um filho que me ensinasse coisas que eu achava que faltavam em mim. que me ensinasse a renunciar. que me ensinasse a prescindir. que me ensinasse sobre me doar, sobre ser generosa e disponível, coisas que não sou e não sei fazer.

e ele ensina. e aprender essas coisas dói pra caralho. porque dói mudar coisas dentro de você. mil vezes por dia eu esqueço o motivo de ter decidido fazer isso, mas ao me tornar mãe, aquela parte instintiva já veio tomando conta, e mesmo que eu esqueça as razões de uma decisão tomada alguns anos atrás, eu simplesmente vou lá e faço o que é preciso fazer.

e muitas vezes faço de mau humor. faço de má vontade. não tenho vocação, não nasci pra essa fase de bebê, e não tenho vergonha de dizer. não gosto de trocar fralda, dar banho no bebê me cansa, brincar com ele é muitas vezes super chato e colocá-lo pra dormir é ou estressante ou me mata de sono. faço tudo isso como faço outras coisas da vida que não gosto, mas preciso. lavar a louça, estender a roupa ou levar o lixo pra fora. a diferença é que antes eu decidia quando lavar a louça, estender a roupa e levar o lixo pra fora. hoje eu tenho que fazer todas essas coisas e mais todas as outras que o bebê precisa na hora que ele precisa, ou na hora que ele deixa. perdi toda a autonomia sobre meu tempo. perdi minha prioridade. isso é triste, é cansativo e desalentador. ninguém gosta disso.

mas vivemos numa sociedade de exibição de felicidade onde é um horror admitir isso. admitir toda a carga de infelicidade que vem com a maternidade. nas redes sociais vc está cercada de amigas q postam fotos felizes com seus filhos pequenos, elas estão bonitas, penteadas, maquiadas, e os filhos estão sempre sorrindo. há momentos em que vc vê essas cenas e pensa "o que elas têm que eu não tenho? babá e empregada, talvez", e noutras vezes vc pensa "que ilusão, minha querida. sei o que vc está passando, companheira, e isso não passa de fachada". porque é claro que a gente não tira foto de fralda suja de cocô nem para pra filmar aquelas horas infernais daquela maldita tarde que ele não dormiu nadinha e chorou o tempo todo, se debatendo no seu colo, e vc chorou junto, de raiva, de cansaço, de pena daquele pequeno que vc não consegue ajudar. e aí a culpa, a culpa, a culpa de ficar com raiva, de querer que tudo aquilo acabe, a maior de todas as culpas, aquela de pensar que, se vc pudesse voltar atrás, não teria embarcado nessa aventura. nasce um bebê, nasce uma mãe, e nasce um Everest de culpa.

mas a mudança q eu pedi estava em curso. eu já tinha embarcado na aventura, e não tinha volta. perdida, apavorada, exausta, no fundo eu não daria conta nem de voltar atrás. porque aquela coisinha, aquele serzinho, precisa de mim, caralho! sai da minha frente, medo! e ele não sai, o medo vai te acompanhar daqui pra frente. o susto também. a maravilha também. e o choro sem motivo, e a raiva com motivo, e o sono, a dúvida, o cansaço. é preciso haver espaço para as mães sofrerem. o mundo moderno criou um novo tipo de mãe, ela está mais sozinha, ela não tem empregadas da família, ela mora num apartamento sozinha com o marido, tem uma diarista e olhe lá. ela não tem uma rede, as famílias moram longe. essa mãe sofre, e é preciso não julgá-la. não é menos amor, às vezes é até excesso, e o pavor do tamanho desse amor. o que vai ser dela daqui pra frente? vai caber tudo dentro daquele mesmo corpo, daquele mesmo coração?

é preciso coragem pra enfrentar esse mundo de comercial de margarina, que vende que os segundos se tornam mágicos desde o momento em que vc fica grávida. entender que, no fundo, a gente bota foto do filho no face pra se encher de likes e comentários pra termos uma recompensa rápida e acharmos que tudo aquilo vale a pena, porque pelo menos temos a aprovação da sociedade. isso é meio medíocre, mas é perdoável. é preciso, aliás, entender que essa tal de margarina é um lixo, e que manteiga é que é comida de verdade, assim como eu sou uma mãe de verdade, e é a mais pura verdade que eu odeio aquele cheiro de fralda golfada e Backyardigans. eu amo meu filho apaixonada e loucamente, mas ele não é a melhor parte de mim, não é a minha vida, não é meu tudo. ele crescerá e fará um monte de merdas na vida dele, vai dizer um bocado de coisas de arrepiar meus cabelos e me fará pensar "onde diabos esse menino foi achar de pensar uma barbaridade dessas?". terá defeitos, como eu, como o pai dele, e ainda bem. não quero nem imaginar o tamanho do fardo que carregam as mães que acham que seus bebês são anjos perfeitos, porque o meu anjo perfeito vai comer fruta passada às vezes e usar uma roupa meio suja e furada, e dormir sem escovar os dentes, e eu vou esquecer de dar o remédio, e já pensou se fosse um anjo? e se ele caísse no chão e chorasse? e se ele se machucasse e eu não pudesse impedir? ainda bem q eu nem acredito em deus, senão eu ia pro inferno.

é claro que cada mãe passa por essa experiência de modo diferente. pra algumas é natural e fácil, pra outras não. tem gente que troca de emprego com facilidade, tem gente que tem dor de barriga antes de ir trabalhar durante todo o primeiro mês no emprego novo. tem gente que passa a vida buscando distrações, e não tem nada melhor que um filho pra te ocupar, e muito. eu não. eu nunca precisei de distrações, eu sempre tive milhares de coisas que eu já queria fazer, e me faltava tempo ou dinheiro, e é por isso que sofro ao passar uma hora e meia embalando um bebê pra ele dormir só meia hora. porque eu queria estar escrevendo. ou lendo. ou trabalhando. ou estudando. não tenho inveja das mães que passam pelos primeiros meses como se fossem férias. mas peço a elas que tenham dó das outras mães, e das mães do porvir e que sejam honestas, pois não  há nada de feio nisso. não criem um modelo impossível que só gerará culpa nas pobres coitadas que não estarão à altura dessa mãe do mundo das ideias. e que tenham dó de si mesmas, pois ao alimentarem essa imagem da maternidade doce e mágica, criam o monstro de culpa que vai persegui-las naquele momento mais escroto em que tudo o que vc quer é que aquela criatura durma pra vc poder tomar um banho chorando.

se vale a pena? é claro que sim. não tá cheio de gente tendo dois, três filhos? é necessário? NÃO, NÃO É. uma mulher pode ser feliz sem ser mãe. realizada, plena e feliz. bebês não são deuses. as mães não são santas. e esses pensamentos só fazem mal para quem se torna mãe. ninguém merece ter de ser santa, e, pior ainda, ter que trocar as fraldas sujas de um deus. somos animais sociais pensantes duvidantes aprendentes, sangramos e choramos, e choraremos muito até a primeira gargalhada, até novamente nos sentirmos bonitas na foto do lado do bebê, até realmente nos divertirmos rindo com ele e fazendo-o rir, até finalmente a recompensa vir numa troca de olhares, de carinhos, numa cabeçadinha no seu peito, num beliscão de segurança, nos gestos mais honestos de amor de toda a sua vida. o amor é absurdo demais pra ser explicado ou analisado. não há bons motivos para decidir ter um filho, e há pencas dos melhores motivos para não ter.

still, here we are...

p.s.: links recomendados e libertadores q ajudaram a inspirar este post:

http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/noticia/2012/10/ter-filhos-traz-mesmo-felicidade.html

http://delas.ig.com.br/filhos/2014-03-22/infantolatria-as-consequencias-de-deixar-a-crianca-ser-o-centro-da-familia.html

11 de nov. de 2014

Um desabafo sobre a patética questão de gêneros em bebês

Então vc está grávida, então vc descobre o sexo do seu bebê e então vc decide que não tem a menor intenção de enfiar o seu filho num modelo engessado de meninos x meninas desde a mais tenra idade, porque isso é ridículo, é claro. Então o quarto onde ele vai viver, que já antes tinha uma parede rosa, continuará tendo. Então vc compra kits de berço com motivos de bichos e lençóis de cores variadas: verdes, lilases, rosas, azuis, xadrezes, listrados, floridos. Então vc compra uma mala de maternidade vermelha e bege. Então vc compra mamadeiras rosas, azuis, vermelhas, verdes, roxas. Roupas lilases, laranjas, amarelas, brancas, azuis, meias rosas, roxas.

Parece fácil, mas não é. Volta e meia vc olha pro berço e se dá com um menino (LINDO) vestido de azul dos pés à cabeça. Como isso aconteceu? Fora os presentes (porque as pessoas dão quase tudo azul mesmo pra ele), existe uma grande dificuldade na decisão de um bebê neutro, livre de estereótipos de gênero. A falta de opção.

Eu vou comprar roupa pro meu bebê e a primeira coisa que me perguntam, obviamente, é se é menino ou menina. Isso será o divisor de águas na hora da compra. Meias, por exemplo. Menino, eu respondo, sempre acrescentando que não tenho a menor frescura em ver tb os itens para meninas, por favor. Mas existem lojas onde NÃO HÁ ITENS NEUTROS. Ou seja, ou vc compra meias de carrinhos de polícia e bolas de futebol americano ou meias com rendas, glitter e fitas de sapatilha de bailarina. Acontece que se eu decidi não engessar meu filho nos modelos preconcebidos de gênero eu tb não tenho o direito de determinar q ele vai ser crossdresser, certo? Não sou do tipo que se ofende se perguntam "qual é o nome dela?", porque já li em fóruns de mães que muitas se ofendem! Li coisas do tipo "mesmo que esteja vestido dos pés à cabeça de azul, me perguntam qual é o nome dela! que raiva! tenho vontade de mostrar o pinto do meu filho!". Juro, li isso. Eu simplesmente respondo o nome e digo, "é menino". "Ah, desculpe", me disse um dia a vizinha que se confundiu. Que é isso, amiga, não peça desculpas, vc não ofendeu meu filho!

Bebês são muito semelhantes, pouco cabelo, nenhum dente, não tem barba, voz grossa ou fina, peitos ou pelos pra te ajudar a dar uma pista do gênero. Mas por que isso teria que ser um problema? Algumas décadas atrás, todos se vestiam igualzinho, com camisolões e camisinhas. Quando eu nasci não existia ultrassom pra determinar o sexo, e as roupas de bebê eram, obrigatoriamente, neutras. Então por que diabos agora eles já têm que ir na primeira consulta da pediatra parecendo bolotas de pano rosas ou azuis? Criou-se um verdadeiro desespero por poder determinar o sexo dessas pessoinhas no primeiro olhar. Nem com crianças mais velhas é assim! As roupas já ficam mais coloridas, democráticas. Sim, claro, pois àquela altura vc já furou a orelha da menina, o cabelo dela já está comprido, ela já foi ensinada a brincar de boneca, já aprendeu um certo número de comportamentos femininos, e já não precisa andar de rosa dos pés à cabeça, pobrezinha. Ganhou direito às cores. Embora, é claro, os meninos jamais ganhem direito ao rosa. Na primeira consulta do meu filho na pediatra ele foi de cinza. Ele era a única criança de colo ali que vc não conseguia identificar o sexo só de olhar. A única. Quer saber? Eu me orgulhava disso. Ele saiu da maternidade de laranja. Lindo de morrer. Mas é difícil, é uma luta diária.

Eu queria um short, e os shorts para bebês mais velhos (tamanhos a partir de 9 meses, por exemplo) já estão muito caros, porque imitam em tudo as roupas de homens adultos, até passador de cinto e bolsos a porcaria já tem. Sessenta reais num negócio que ele vai usar menos de dez vezes?? Aí vc vai no setor feminino (eu SEMPRE vou nos dois) e tem umas peças de malha super fresquinhas e confortáveis por vinte e poucos reais, completamente floridas ou de oncinha. E aí? Levo ou não levo? Me achei numa arara de shorts supostamente femininos por menos de vinte reais e que só tinham duas cores, roxo e branco, azul e branco, e até hoje não entendi por que eram femininos.

No dia que eu fui comprar o cercadinho do meu filho escolhi um amarelo muito muito lindo. Eu ia tb levar chupetas, e peguei um kit com duas chupetas rosa. Atenção: só tinha kit com chupetas rosa e kit com chupetas azuis. Somente. Nenhuma outra cor. Peguei a rosa porque achei mais bonita mesmo. Na hora de pagar pelo cercadinho, vi que só tinha o amarelo com a caixa toda aberta e arrebentada, e eu odeio comprar produto assim. Disse que não queria, e a vendedora disse que então só tinha rosa. Ok, me dê o rosa. Enquanto ela buscava o rosa, voltei na gôndola das chupetas e troquei pelo kit azul, achando que já tava ficando rosa demais aquela compra, pq tb não quero vestir meu bebê "de menina" tanto quanto não quero vesti-lo "de menino". Achei q estava ficando louca, achei que dava um trabalho encaralhado tentar equilibrar as compras, as escolhas, será que não era mais fácil fazer como todo mundo? Só que se eu fizesse como todo mundo eu voltaria pra casa naquele dia com um cercadinho numa embalagem violada ou sem cercadinho ou ainda com um cercadinho muito mais caro (pq aquele lá tava super em oferta). Sei q tem gente (muita gente) q faria isso mesmo. Q não compraria o cercadinho rosa para o menino nem q fosse pela metade do preço. Eu comprei. Mas tenho uma certa vergonha de admitir ter voltado pra trocar as chupetas (e fui burra, devia ter levado os dois kits, um rosa e um azul, q o preço tb tava ótimo).

Mas é ótimo poder reconhecer que nem todo lugar é assim. No caso das meias, na Puket tive dificuldade para achar meias neutras, mas na Lupo não. Pretas, brancas, beges, xadrezes, fiz a festa por lá. Alguém me explica, por exemplo, por que uma meia de tubarões não pode ser de menina? Porque é azul? E por que uma meia de corujas de óculos (sim!! pode mais Harry Potter que isso??) tem que ser de menina? Só por ser rosa e roxa? Um body com desenho de passarinho e uma camisa do Brasil que são "de menina" porque têm um elástico no pescoço que faz um "franzidinho". Hein?

Gente... Que mundo é esse?

Isto não é daqueles posts bonitos nem nada, é só um desabafo. Por que tem horas que pensar dá no saco.

27 de out. de 2014

ouve, Dilma

não me verão gritar CHUPAAAA
não me lerão bradar VAZA PLAYBA CHEIRADOR
nada disso me alegra, nada disso me embala o coração valente
a vitória foi apertada, porque há muito pra melhorar
ouve, Dilma, ouve os votos críticos, ouve quem está à tua esquerda, ouve as ruas, recorda as Jornadas de Junho, ouve até a voz rouca da tua oposição
mas ouve, antes de tudo, teu coração valente
tua alma guerreira, tua mente de brava, tua história de luta, teu povo cheio de carinho por ti
leva meu voto, minha confiança, meu carinho, meu respeito, minha admiração
e meus olhos atentos
a tudo

porque hoje, de novo, és musa, és mãe, és presidenta, ÉS DILMA

10 de set. de 2014

O preconceito nosso de cada dia

Vivemos numa época em que a pior coisa que te pode acontecer é ser tachado de preconceituoso. Usamos de todo tipo de subterfúgio e explicação para não aceitar a alcunha. Há casos óbvios demais, quase risíveis, como o da torcedora do Grêmio, que mesmo tendo sido filmada aos gritos chamando o goleiro do Santos de "macaco" conseguiu achar cara pra dizer aos prantos que não era racista. É óbvio que ela é racista. E é óbvio que todos somos preconceituosos.

Claro que há níveis e níveis de preconceito, e tipos e tipos também. Mas é virtualmente impossível uma pessoa não ter preconceito algum. O preconceito se baseia na sua experiência anterior de vida, naquilo com que vc já se acostumou, naquilo que te ensinaram e que vc ainda não foi convidado pela vida a questionar, e que, portanto, ainda é o que é válido. Preconceito é quando vc faz um julgamento de valor sobre algo ou alguém não baseado nas qualidades daquele algo ou alguém, mas sim em informações que vc já traz anteriormente. É como quem diz que não é gordofóbico, só acha que gordo não é saudável, não é preconceito, é questão de saúde. Sem saber se aquele gordo é saudável ou não, feliz ou não, vc apenas acha que se a obesidade é uma epidemia, deve ser banida da face da terra e todo mundo tem que ser magro.

Mas o curioso mesmo é quando chegamos nesse grupo de pessoas de onde tiro meus amigos, essas pessoas esclarecidas que não são gordofóbicos, homofóbicas, não são racistas, não se prendem a velhos modelos sociais, são feministas, não acham que casar e ter filhos é obrigatório. Pessoas como eu. Essas pessoas são as mais sensíveis a serem tachadas de preconceituosas. Mas nós somos, sim. Quantos de nós não fazem(os) julgamentos de valor com aquela mulher que sonha em casar e que vira dona de casa, que para de trabalhar pra cuidar dos filhos, e ainda assim contrata babá? Não a conhecemos, não sabemos os motivos dela, não sabemos se ela é boa mãe, mas na maioria das vezes nossa primeira reação é julgar negativamente. Uma garota magra, gostosa, de roupa de academia, cabelo liso com mechas loiras é alvo de tantos pré-julgamentos negativos quanto eu, gorda, flácida, sedentária. Só que somos alvos de grupos diferentes de pessoas. Alvos, talvez, uma da outra. Eu julgo que ela fez todas as escolhas erradas na vida. Ela julga que eu sou um nojo, feia, e que eu deveria ficar em casa até perder setenta quilos.

Ou não. Talvez ela não julgue. Talvez ela tenha me achado bonita e simpática ali na rua. Talvez ela nem tenha parado pra ter um pensamento a meu respeito. Porque colocar pensamentos na cabeça da garota tb é julgá-la. Escrever uma história e meio que automaticamente só colocar as personagens bonitas e gostosas como meio burras e do lado antagonista da história é preconceito. "Catarina" me ensinou a dar valor real à garota mais gostosa da escola. Ela também pode ser a mocinha do livro.

Preconceito religioso, algo que tem sido muito debatido. Nesse grupo de pessoas a que pertenço, preconceito contra ateus é uma constante. Preconceito contra as religiões afro está se tornando um problema nacional. Mas e o preconceito de ateus contra católicos? E de todo mundo contra evangélicos? Vai dizer que vc não tem, de cara, um preconceitozinho contra alguém que segue a Universal?

Dentro do mundo nerd, geralmente composto de uma horda de gente que sofreu todo tipo de bullying, o preconceito grassa, com destaque para o machismo. Mas também encontramos homofobia e até gordofobia vinda de um monte de gordos, que não se aceitam de verdade e, na hora que uma garota gorda faz um cosplay, eles acham um horror.

O preconceito não é só contra pessoas, mas contra hábitos e coisas. Preconceito contra vegetarianismo e contra carnivorismo, ou contra essa história de começar a se preocupar com o que come, fulano deixou de beber, de comer MacDonalds e tomar refrigerante, que mané, virou um chato! Preconceito contra andar de ônibus sem nunca ter andado, preconceito contra exercício físico, sem nunca ter tentado fazer (só pra manter a minha fama de sedentário, odeio mesmo e pronto). Tudo isso eu não só já vi, como muitas dessas coisas eu já senti. E hoje acho que o melhor modo de tentar ter menos preconceitos é admitir que os tem.

p.s.: A ideia deste post me veio quando tive que explicar a uma amiga muito querida e muito não-preconceituosa que, na minha opinião, a rejeição dela ao ebook era um tipo de preconceito porque achava que não era causada por características do próprio ebook, mas porque ela amava muito o livro de papel. Será que sentia como se fosse uma traição a toda a história de amor que tinha com o papel? Como se não coubesse dentro dela gostar de outro formato? O medo do novo, a recusa de experimentar são tipos de preconceito também, um pré-julgamento de que o velho, aquilo a que vc já está habituado, é melhor pra vc, mesmo sem ter dado uma chance real ao novo na sua vida. E eu já senti esse tipo de preconceito muitas e muitas vezes, por exemplo contra publicar em ebook, durante muito tempo. Hoje eu gosto. Ah, e também parei de tomar de refrigerante há um ano, e não sinto falta. :)

28 de ago. de 2014

O eleitor desiludido que não perdoa & a política virgem concebida sem pecado

Brasileiro é chegado numa tragédia, né? Vidas sofridas, superação, mortes trágicas, gente chorando. A tv e o Facebook estão cheios disso. Mas isso é só introdução. Eu quero é chegar na Marina.

Eu gostava da Marina quando ela era ministra do Lula. Depois eu fui cada vez entendendo menos a Marina. No PV eu ainda a via comprometida com sua história, mas agora... Eu a vejo aproveitando-se da morte do Eduardo Campos, sim. É a mão de Deus que a salvou, mas não o salvou, é convite para a viúva fazer a chapa com ela... Eu a vejo confusa e sem direção, sem ideologia, sem estofo. Eu não confio no quanto ela muda de partido e aliados. Eu respeito a história dela, mas não confio nela pra governar o meu país. E nem comecei a falar nas ideias moralistas medievais que ela defende ferrenhamente por causa de sua religião. Isso é muito preocupante.

Mas o caso é que Marina tem sido vista e vendida como a tal da terceira via. Pra começar, eu acho terceira via uma piada no Brasil. Essa história de polarização é um teatrinho de fantoches, a política brasileira não está dividida entre PSDB e PT. O tamanho do PMDB é colossal, e outros como PSD, PP, PR, DEM, PDT não são nada menosprezáveis, basta ver a composição do Congresso. A ideia de polarização vem da recente alternância desses dois partidos no governo federal e a facilidade de, com isso, identificar neles alguma ideologia desenhada. Porque na maioria dos outros não se enxerga ideologia alguma, e isso é também preocupante. Vejam bem: eu considero isso um ponto a favor do PSDB. Eu entendo o que eles querem pro Brasil. Eu só não quero o mesmo que eles. Eu entendo o que o PT quer pro Brasil, e é o que eu quero. Mais do que isso, eu entendi o que o PT queria, votei no PT por querer a mesma coisa e o PT ENTREGOU O QUE EU QUERIA. Diminuiu radicalmente a desigualdade social, e continua diminuindo. E por isso eu continuo votando no PT.

Declarado meu voto, prossigo.

Não andei estudando o programa de governo da Marina. Tenho meu voto decidido e estou satisfeita com minha decisão (federal, ok? estadual tá uma bosta...). Mas tenho visto muita gente comentando a Marina, como em 2010, como a opção válida. Sabe o que me incomoda? Eu acho que muita gente aí não se pergunta POR QUE A MARINA? Vejo muita gente que declara voto na Marina porque se decepcionou com o PSDB quando esteve no governo e se decepcionou com o PT. Não está escolhendo a Marina pelo que ela quer pro país, mas está "contra tudo o que está aí". O desiludido que prefere a virgem, sabem? Ela nunca foi governo, então ainda não te decepcionou. Aquela história do "não reeleja ninguém", que é a maior preguiça que um eleitor pode ter. A busca da perfeição só é deletéria na política, pois não haverá perfeição nunca. Partidos errarão, pessoas errarão, você também. Se for votar em Marina, vote por motivos de Marina, não porque tá de mal com PT e PSDB.

(pausa)

Aí eu tava escrevendo este post e, de repente, lembrei disto e disto. De modo que o post ficou muito menor quando me dei conta de que já tinha falado deste assunto em 2010, e continuo pensando e percebendo a mesma coisa, o mesmo motivo distorcido para escolher Marina.

Com dois agravantes desta vez:

1) A morte trágica de Eduardo Campos. Então hoje, se você escolhe Marina pelos motivos errados, pode estar acrescentando aí nesse balaio de ressentimento político e ilusão uma homenagem póstuma a um bonito homem que morreu jovem e deixou cinco filhos, entre eles um bebê, e uma linda esposa mas que, no fundo, você nem conhecia direito (exceto a galera do PE) e menos ainda sabia o que ele queria pro Brasil. Que motivo mais distorcido que esse?

2) Ela pode acabar sendo eleita.

9 de ago. de 2014

Forma e conteúdo: uma defesa (im)parcial do ebook

Já há um tempo eu vinha querendo escrever um post sobre ebooks e livros de papel, mas pensava que ninguém ia me levar a sério porque eu publico em ebook e ia parecer uma apologia com fins de propaganda pessoal. Mas o fato é que publicar em ebook me levou a refletir mais sobre isso, e também me colocou em contato com a resistência de muitas pessoas ao ebook.

Pra começar, eu gostaria de dizer que acho uma bobagem esse tipo de dicotomia. Uma coisa não tem (nem vai) excluir a outra. Mas ainda assim me lançarei ao debate.

Quando o ebook entrou na minha vida, teve uma função muito específica. Eu fazia bicicleta ergométrica e gostava de ler enquanto pedalava, mas era pouco prático ter que virar as páginas, e pior ainda quando o livro era pesado. Eu estava lendo Próxima Estação: Paris, do Lorant Deutsch. Aí meu marido baixou pra mim o epub do original em francês (o que já foi um avanço também) e instalou o Aldiko no meu celular. Pedalei e li às mil maravilhas. Métronome foi o primeiro ebook que li.

Mas eu ainda tinha aquele ranço do passado. "Prefiro livro de papel, prefiro ter no que pegar, olhar a estante". Dizia isso com orgulho, citando Caetano: "os livros são objetos transcendentes, mas podemos amá-los do amor táctil". E então eu fui fazer um curso de um mês em Paris, e duas coisas lá me fizeram mudar de perspectiva em relação aos meus livros de papel. Eu via aquelas banquinhas infinitas nas calçadas vendendo livros a um euro, ou até menos (comprei um livro a cinquenta centavos) e pensava: por quanto este cara terá comprado este livro para vendê-lo tão barato? Comecei a achar que aqueles livros eram dados pra ele. Ou quase dados, se fosse um lote grande a um preço muito muito baixo. Quem faria isso com seus livros?

O episódio definitivo foi quando minha professora levou livros para nós. Livros dela. Disse que podíamos pegar o que quiséssemos e levar para ler. Acontece que o curso era de módulos semanais, então sempre tinha alguém se despedindo do curso a cada semana. E alguém perguntou: "mas, professora, como é que eu vou lhe devolver o livro se já estou indo embora?" Ao que ela respondeu: "pra que eu quero esse livro de volta? eu já li."

Fiquei passada. Tinha tanto sentido que fiquei envergonhada. O que afinal a gente quer de um livro? Não é o conteúdo? Não é até mesmo assim que a gente diz, de alguém culto, que lê bastante? A pessoa tem conteúdo.

O resultado foi que, quando cheguei em casa, não havia espaço para acomodar os livros que eu tinha comprado na viagem,e eu tomei uma decisão: começar a doar meus livros. Meus critérios são simples: livros que eu e meu marido já lemos e que não pretendemos reler (hoje em dia eu incluo um pensamento para o meu bebê, e guardo os livros que eu quero mostrar pra ele). Se o livro passa por essa peneira: RUA! Mandei fazer um carimbo com os dizeres "sou um livro viajante / leia-me e passe adiante", mas é claro que não tenho nenhum controle se estão sendo passados adiante ou se estão só aumentando a biblioteca acumuladora de alguém. Não importa. Já deixei livros em banco de shopping, banheiro de restaurante, sala de espera de médico, na escola de idiomas onde dou aula e na portaria do meu prédio. Não diminuiu muito a minha biblioteca, ainda. Sou uma pessoa que relê, e ainda tenho muitos livros que nunca li. Talvez um dia eu aumente o critério para "livros que eu comprei mas não vou ler mesmo, deixa de se iludir, inocente", e mande esses pra rua também.

E o ebook não ocupa espaço, né? Pelo menos, não físico. Comecei a ver as vantagens em filas. Na fila da lotérica, sempre quilométrica, eu sacava o celular e pronto: adeus tédio! Eu que sempre levei livro na bolsa, agora podia levar vários dentro do celular. E ler antes de dormir? É leve e não precisa de abajur! Eu sempre tinha problemas para ler antes de dormir, porque o abajur incomoda o marido e os livros mais pesados eram desconfortáveis para segurar deitada. Comecei a baixar epubs da Agatha Christie adoidado. Ganhei de uma amiga o epub do primeiro livro do Robert Galbraith, The Cuckoo's Calling. Com o melhor livro do ano de 2013 devorado em formato ebook, eu estava definitivamente cativada como leitora. Mas ainda faltava um passo. O maior. Faltava a escritora.

Como a maioria das pessoas que sonha publicar um livro, eu via o processo de seleção de originais como uma maratona de meritocracia. Só quem merecia estaria numa prateleira, teria seu nome numa lombada, assinaria autógrafos. Quando uma editora aceita o seu original, está te atribuindo valor. Conforme eu ia terminando de escrever meus livros, comecei a ler e pensar mais sobre mercado editorial, mergulhada na preguiça e na inaptidão completa de "me vender" para editoras. Você nunca leu um livro muito ruim? Publicado por uma editora, em papel, com lançamento e tarde de autógrafos? Não falo de um livro que não te agradou pessoalmente, mas um livro ruim mesmo. Mal construído, mal escrito, um livro que te faz pensar "mas quem diabos aprovou essa bosta nesta editora?" Eu já. E comecei a questionar os critérios dessa meritocracia e a me perguntar quem são afinal essas pessoas que escolhem quem merece ou não ser publicado. Critérios que excluem muitos autores novatos e publicam qualquer coisa que seja escrita por alguém famoso (mesmo que seja um livro infantil escrito por uma cantora de MPB ou atriz de novela, porque o nome vende). Isso sem falar em publicações pagas, onde não há seleção ou mérito envolvido, modalidade que tem crescido imenso nas editoras. Ou seja. Se fosse pra pagar (e eu tive esse tipo de proposta de uma editora física), por que eu não publicaria por conta própria, gratuitamente, em ebook?

Não foi uma decisão fácil. Desistir de algo sonhado num velho modelo é doloroso, rescende a fracasso. Mas não é. É coragem. Nos Estados Unidos, o mercado da autopublicação em ebooks é forte e alimenta o mercado editorial tradicional, que procura nos autores independentes bem-sucedidos os seus novos autores. mas nos Estados Unidos as pessoas leem muito ebook, e aqui no Brasil não.

Há aqui um orgulho de se prender ao passado. "No meu tempo era melhor", quantas vezes vc já ouviu isso? Ou mesmo disse? (já escrevi um post sobre isso) E é tão bobo, porque presume que você deve abandonar o livro de papel pelo ebook, ou que você está traindo os seus livros de papel ao ler ebooks. O que é ainda mais bobo. O livro de papel continua tendo inúmeras vantagens. Livros bonitos, ilustrados, livros de arte, livros de consulta, tudo isso é infinitamente melhor em papel. Você não vai comprar a obra completa de Degas em ebook, é claro, e nem mesmo a História da Arte do Gombrich eu compraria em ebook, a princípio (porque pesa pra cacete, então o ebook ainda teria essa vantagem). Mas eu comprei as obras completas de Edgar Allan Poe no original por menos de R$3, sem frete, sem ter que esperar semanas pela entrega. Menos de um minuto, e eu tinha tudo ali. Toda a história, todo o conteúdo. O papel? Que me interessa o papel nesse momento? A história um dia foi oral, as histórias um dia foram contadas, e nem por isso todos somos ferrenhos defensores e consumidores de audiobook, somos? (a mim, me fazem dormir). O que me faz pensar numa frase que vi um dia destes nas redes sociais e que dizia algo mais ou menos assim:

"Tudo o que foi inventado antes de vc fazer dez anos faz parte do mundo, é normal. Tudo o que foi inventado entre os dez e os trinta e cinco anos é inovador e apaixonante. Tudo o que foi inventado depois que vc tem trinta e cinco anos não é normal, é contra a ordem natural das coisas."

Essa carapuça não serve em todo mundo, e eu sempre uso meus pais como exemplo. Papai tem 67 anos, tem twitter (reconheçamos, ele é viciado mesmo nisso), blog (e ele bloga SEMPRE, muito mais do que eu), smartphone, tablet. Minha mãe ainda se dá melhor com email que com Facebook, mas está sempre no whatsapp, resolve toda a vida no internet banking e já leu alguns ebooks no tablet do papai. E por isso mesmo é que eu acho tão triste e limitador ver gente mais nova do que eles, gente mais nova do que eu, aferrando-se ao livro de papel como se nunca tivesse ouvido rádio e visto televisão, como se nunca tivesse falado em telefone fixo e depois no celular, como se nunca tivesse mandado cartas e depois emails.

"Ah, mas não é a mesma coisa!"

Claro que não é, nem é pra ser! Na carta, vc tem a letra da pessoa, mas o email chega mais rápido. A televisão tem imagem, cara, mas nem por isso o rádio morreu, e vc continua ouvindo no carro.

Dê uma chance ao ebook. Não perca oportunidades de ler histórias porque a forma é nova, quando o que deveria te atrair é o conteúdo.

p.s.: Sim. É claro que escrevi tudo isto com o objetivo de fazer vcs lerem meus livros. Eu tenho tanta história pra contar que vcs nem imaginam. Por enquanto são quatro (clique aqui pra ver uma pesquisa pelo meu nome no site da Amazon, com todos os títulos lançados), mas é só o começo. Deve sair mais ainda este ano.



2 de ago. de 2014

Liberdade de expressão e redes sociais, ou "Ninguém pediu sua opinião"

Aqui em casa tem o #teamFacebook, representado por mim, e o #teamTwitter, defendido ardorosamente pelo meu marido. Ambos estamos em ambas as redes sociais, mas temos nossas preferências, de acordo com o uso que fazemos da internet. Meu marido consome informação e opiniões. Eu dou minha opinião, escrevo e converso. Sempre tive, na vida, muito pouco interesse pela opinião alheia, sobre as coisas, sobre o mundo e sobre mim. Na internet não tem muita opção. A não ser que você esteja no twitter e não siga ninguém, esteja no Facebook e já tenha tirado todo mundo do seu Feed de notícias, você será invariavelmente alcançado pela opinião alheia sobre tudo.

Muitas vezes isso é algo muito legal. Já fiz amizades por redes sociais ao encontrar pessoas que compartilhavam comigo gostos (costuma ser o primeiro atrativo) e opiniões (só assim é que as pessoas vão ficando na minha vida). Eu gosto de trocar opiniões com essas pessoas sobre assuntos que nos interessam ou descobrir novos assuntos seguindo-as nas redes sociais, porque temos muito em comum e muitas vezes acabo descobrindo algo novo que também me interessa.

Essa é a parte boa.

Como já dizia o Tio Ben, "with great power comes great responsibility", e ele deveria ter acrescentado aí a liberdade também. A liberdade exige responsabilidade. Sim, você tem liberdade de dizer o que quiser nas internetes (e eu tenho direito de ouvir ou não, thanks God for the block). E o grande atrativo e perigo da internet é que, na imensa maioria das vezes, você jamais será responsabilizado pelo que disse. E ultimamente, tudo tem sido confundido com "opinião". E nem tudo é opinião. Existe ofensa e existe julgamento. E existe coisa pior: ameaça e violência verbal.

Vou explicar como se você fosse uma criança de três anos.

Você viu um filme.

Opinião: "Eu achei esse filme mais ou menos. Acho que Beltrana atuou bem, mas Fulano me pareceu meio fraco para o papel. E o roteiro deixou a desejar."

Julgamento: "O filme é horrível, não vão ver essa porcaria. Beltrana está velha e gorda e Fulano nunca mais vai ser o mesmo depois das drogas. Esse povo de Hollywood pode fazer 500 rehabs que não adianta, sempre voltam."

Ofensa: "Essa vaca da Beltrana é uma puta mesmo. Bosta de filme, o diretor é aquele imbecil filho da puta que já tinha acabado com aquele outro livro que eu adorava. E o Fulano, aquele viadinho cheirador,  não merecia aquele papel!"

Deu pra notar? Pode ficar pior.

"Porra, Fulano devia ter levado uma surra só de ter aceitado o papel! Viado! Se meterem uma bala na cabeça dele eu vou achar é pouco por ter destruído meu personagem favorito! Se passar na minha frente agora eu mesmo meto a bala! Morraaaaaaaa!! Bora acabar com a carreira desse filho da puta!!"

"Como é que alguém ainda dá algum papel pra essa ridícula da Beltrana? Ela não se enxerga?? Velha ridícula!! Não admira que o marido tenha trocado ela por outra novinha, essa gorda velha e caída ninguém mais vai querer! ahahahahahaha!"

*suspiro*

Qual a diferença?

Você tem TODO o direito de não gostar de alguma coisa. Não gostou? Não veja mais.

"Mas isso é inofensivo, é só na internet, eu nunca vou ver essa pessoa, menos ainda meter uma bala nele!"

Então vamos transferir o discurso do ator do filme para um jogador de futebol. Agredido por membros de uma torcida organizada, insatisfeitos com o desempenho dele em campo. Ele trabalha, se esforça, ganha o salário dele, deve ser tratado com respeito. Não é pago pra divertir você, não é seu empregado nem seu palhaço. Ele trabalha praquele clube, e se vc gosta daquele clube, bom pra vc, mas isso não lhe dá direito algum sobre a vida do cara. E as merdas que vc escreve sobre ele na internet serão lidas pela família dele, pelos filhos e por ele mesmo.

E vamos transferir esse trashing da rica atriz de Hollywood para qualquer mulher cuja foto fica sendo repassada sem critério nem permissão para ser alvo de piadas de gente que ela nunca viu porque ela é feia, gorda ou qualquer coisa que te desagrada e que vc se dá o direito de achar engraçado. Aí depois todo mundo fica indignado com aquelas tristes histórias de adolescentes que se matam por serem vítimas de cyberbullying. Isso que vc está fazendo É CYBERBULLYING. Aquela pessoa na foto que vc ridiculariza e compartilha, aquela pessoa existe, aquela pessoa tem família, tem amigos, trabalha, estuda, aquela pessoa tem internet, sua besta. Vc acha que ela não vai acabar vendo isso? Ela tem tanto direito a ser feliz quanto vc e não lhe deu o direito de rir dela nem de ofendê-la. Não faça dela uma piada.

Isso não é opinião. Isso é ofensa, e é crueldade. Isso é um perigo.

Eu não quero mais tolerar esse tipo de coisa. Estão avisados.

8 de jul. de 2014

como se fosse hoje

lembro como se fosse hoje. meu filho Carlos tinha dois meses. não dormiu durante o jogo, como fizera durante as quartas com Chile, aquela dos pênaltis, lembra? também foi no Mineirão. gritávamos na sala, e ele no quarto não acordou. mas naquela terça quando o Brasil voltou ao Mineirão pra enfrentar a Alemanha, ele não quis dormir. quis estar acordado pra ser testemunha inocente e alheia da pior tragédia vivida pelo futebol brasileiro. a pior. pior que Maracanazo. o Mineiraço me feriu de morte. sinto-me mutilada, ainda. porque é como se fosse hoje. não chorei, atordoada como se... como se eu fosse o meio campo da seleção. surpresa como a própria seleção alemã, que com certeza não esperava por algo assim. sangro ainda, porque é como se fosse hoje. não tínhamos Neymar, quebrado no jogo anterior. não tínhamos Thiago Silva, suspenso. e os que tínhamos... desolados, horrorizados. a torcida abandonando o estádio aos 30 minutos de jogo. "vexame histórico", diziam na tv. eu que amava tanto o futebol. que ainda continuaria amando, é claro, ainda amo. mas uma ferida daquelas? uma chaga funda, pisada, judiada, que ainda sangrava quando ainda era mais e mais machucada? não. daquilo não esqueço, é como se fosse hoje.